Outra vez em Paris, mas nunca tão perto da Gare du Nord. No décimo andar do hotel é como estar na estação. Ouço ruídos e conversas que não entendo, com meu pobre francês. Tenho a sensação de possibilidade de fuga. Até o endereço da Gare, Rua Dunquerque, me dá essa ideia.
Acordo de supetão. Me dói a cervical. Dormi vendo TV, algo que odeio. Na tímida mesa de cabeceira, a taça de vinho pela metade. É madrugada. Volto a “E o vento levou…”, que está em sua cena final com sua frase incrível: “Francamente, minha querida, eu não dou a mínima”. Queria ter escrito, aliás, dito isso. Não foi assim comigo. É minha primeira viagem sem Camila. Faz tempo, ainda dói, mas está se resolvendo. Não há mais nada a dizer-lhe. Desligo a TV e tento dormir na cama em que não caibo.
Desperto de novo, assustado. Que campainha é essa? O sol nem raiou! É a porta ou o despertador? Meio azoado, entendo: alarme de incêndio! Coração acelerado, vou à janela. Vejo as chamas, andares abaixo. Medo. Pego óculos e celular. Visto-me apressado, lembro da Gare – é um dia de fuga? Vou sair, mas me vem: se morrer aqui, sozinho, quem vai saber? Não tenho irmãos ou filhos, nem meus pais ou Camila. Devo deixar algo escrito. Mas, o que e para quem? Nessas horas, segredos afloram. Por que não? O alarme segue tocando e me lembra um outro. A sineta da escola, na adolescência, há muitas décadas.
Ouço gritos, mas me concentro. Sento-me para escrever: lápis, papel timbrado, nada chique para últimas palavras.
Apelo à memória, começo a escrever. Fim do ano letivo. Final do campeonato de futsal, aquela adrenalina, mas, quando entrei em quadra, olhei para a arquibancada de cimento, procurando você. Queria chamar sua atenção, que me visse. Eu não me destacava em nada, mas achava que ali, exposto, seria visto. Nada que havia tentado antes deu certo. Enfim lhe vi em um canto, embaixo, mas não percebi se me viu. Batem à porta e escuto palavras rápidas em francês, que, claro, não entendo. Checo pelo olho mágico – ninguém lá fora. Sem sinal de fogo no meu andar. À janela, a fumaça já dificulta a visão. Volto ao lápis.
O jogo começou difícil, pegado. Às vezes, mirava na arquibancada, por um olhar, um gesto. Nada. Segundo tempo no fim, concentrado no jogo. Aí aconteceu o lance. Lindo. Recebi a bola no centro da quadra e, com um rápido giro, deixei meu marcador surpreso, sem ação. Fui rápido para a lateral e vi o goleiro dar dois passos à frente, pensando que eu lançaria para a ponta esquerda, onde um colega aparecia livre. Percebi isso e decidi, por instinto, bater para o gol, fazendo-o com maestria. Um tiro longo, aberto, curva perfeita, suficiente para a bola entrar no canto esquerdo alto do goleiro, que ficou imóvel à frente da área. Ele aplaudiu e me sorriu – o enganara. Que golaço! Corri, gritando para a arquibancada, na sua direção. Veio a frustração quando a descobri sentada, indiferente, conversando com um colega nosso, alheia à loucura da torcida à sua volta. Arrisco que lhe vi sorrir para ele. Que desperdício, pensei. Mal retribuí os abraços e gritos dos meus colegas de time. Os gritos que agora ouço vêm da rua e dos corredores do hotel, com novas batidas à porta, agora mais fortes. Vejo um funcionário gesticulando muito. Situação tensa. Já percebo fumaça no meu andar. Ainda assim, ignoro. Preciso acabar a carta. Vou à janela. Rua repleta, pessoas correndo e gritando. Não há mais tempo, penso. O que me falta contar? O jogo acabou e, mesmo com o coração partido, comemorei o título, até porque foi com um golaço meu. Poucos dias depois, começaram as férias e descobri, no início do novo ano, que sua família tinha ido embora do Brasil e você não estaria mais na escola. Não poderia lhe contar o que sentia, algo inédito, doído e bonito. Fim do que nem começou.
Dobro o papel, fecho envelope, sinto cheiro de queimado. Tenho que acelerar. Aí me ocorre: se queimar tudo, a carta vai junto. Decido guardá-la comigo. Vai que morro de asfixia e retiram a carta do bolso da minha calça, intacta. Coloco seu nome no envelope: Isabel Moreira. Coloco o nome da escola, o ano, o país. É tudo uma tolice. Carta de amor de ninguém para ninguém. Na vida, declarei todos os meus amores, menos esse. Sinto-me redimido. Desço pela escada de emergência, conforme orientação. Entre gritos, tosse, fumaça, tropeços, chego, com esforço, ao andar térreo e sou encaminhado para fora do isolamento, a uma ambulância, onde sou atendido. Recebo a atenção de uma mulher, mais ou menos da minha idade. Apesar de toda a confusão e da máscara que usa, sua beleza me chama a atenção. Ela, então, me fala com sotaque, perguntando como me sinto. Respondo em português, misturado com meu francês horrível. Ela tira a máscara e me sorri: “É brasileiro? Eu também!”. Sorrio e instintivamente, olho seu crachá: Dra. Isabel Moreira. Que golaço!
