Algo tem que guardar os dentes

Sempre tive dificuldade de falar.

Essa não foi a única razão para escrever a carta. Aqui, no centésimo quinquagésimo primeiro dia de quarentena, não tem mais internet pra todo mundo. O SMS ainda funciona, mas ela vai achar que é cobrança ou nem ler. Uma carta não. Você pode até jogar fora depois, mas aquele pedaço de papel com o seu nome tem um ímã de mãos.

Telefone é pra quem tem grana. O pessoal da pindaíba tem que esperar até depois da meia-noite ou o final de semana. Ah, têm os da rua também, só que ninguém tem mais ficha e nem autorização para sair de casa. E não sou bom nesse negócio de falar.

Essa carta mesmo, não sou eu que vou entregar. É o Enzo, o carteiro aqui da rua. Como criança não pega o tal do vírus, a molecada toca o país, circulando livremente. Não é trabalho infantil. Pelo menos é o que garante a Lei da Labuta Pueril, o último ato realizado pelo ex-presidente da República. Ele morreu fazendo polichinelos, algo difícil de imaginar devido ao seu histórico de atleta, e agora somos governados por uma playlist de seus piores momentos no YouTube.

Lá fora está ruim, aqui dentro está pior. Tem cinco minutos que o incêndio começou no primeiro andar, apartamento da Lourdes. Na primeira (e única) vez que veio me visitar, meu pai disse que se um dia isso aqui pegasse fogo, tudo iria pro buraco em dez minutos, pela quantidade de livros que Lourdes tem em casa. Eles ocupam o lugar inteiro, inclusive o banheiro, onde ela dorme.

Pelas contas do meu velho, restam quatro minutos e cinquenta e sete segundos para escrever essa carta, que por enquanto só tem a linha derradeira: “No fim, você me salvou”. É o que eu acho mesmo. Seria difícil viver com alguém que não dorme com ventilador ligado. Passados sete anos dos nossos sete meses de relacionamento, parece algo estúpido de dizer, mas não é. Eu esqueci o nome dela, mas isso do ventilador, não dá.

O tempo passa. Difícil concentrar. O fogo vem por baixo e o Lulu late de cima. Lulu é um desses cães que ninguém sabe pronunciar a raça direito. Come bem, vai pra creche, tem aula de alemão. Posso jurar que toca piano também. Mas nada disso faz diferença agora que todo mundo vai morrer.

Nesses momentos fica claro como as pessoas são mesquinhas. Enquanto o cão implora na sacada, o pessoal da portaria empilha tudo o que as pessoas querem salvar nos corredores. E foi assim que bloquearam as saídas de emergência com cristaleiras e os elevadores com papel higiênico. Não vi uma infância no corredor. Nenhuma pizza de ontem. Prioridades.

Perdi mais três minutos. Perdi a mulher. Não poderia perder a oportunidade de dizer umas boas pra ela nessa carta. Não importa que eu só tenha escrito uma linha. Com o tempo acabando, percebi que já perdi tempo demais nessa vida. Dobro o papel, coloco no bolso, cato uma almofada e pulo pela janela.

Acordei na ambulância. Pelo que fiquei sabendo, Lulu orientou a equipe de resgate com maestria pelos três andares do prédio. Ganhou um biscoito, virou matéria na Globo. Já eu, ganhei cinco pontos batendo a cabeça numa bíblia que Lourdes jogou na rua tentando salvar o que dava antes de correr para o banheiro. Os bombeiros chegaram a tempo de controlar o incêndio, que destruiu apenas parte da sala. E o banheiro.

Meio grogue, lembro da carta. Puxo do bolso, intacta. Dou um sorriso bobo. A socorrista me olha. Pega a carta e lê aquela única linha que escrevi. Dá um sorriso bobo. Pergunta se quero casar. A cerimônia é amanhã. Só para os mais íntimos, a videoconferência não suporta tanta gente. Sem festa, o dinheiro foi todo pra bancar a internet da cerimônia. E olha que eu nem respondi se queria casar. Sempre tive dificuldade de falar.

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