Daniel N. Pereira
Nicinha, ainda é cedo para você. Para mim já é tarde, certamente. Queria ter te mandado uma carta, telefonado ou, sei lá, enviado um e-mail. Não os fiz. Lamento. Nossa história merecia algo do gênero. Porém, dadas as circunstâncias, tudo o que me restou foi o nada. Daí o sinal de fumaça. Aparecer em sonho é minha forma de ainda existir.
Imagino essa mensagem enquanto uma ardência surreal me consome. Inebria meus sentidos. Queima minha pele. Queima minha pele. Queima minha pele. Queima minha pele. Queima minha pele. Queima minha pele. Queima minha pele. Queima minha pele. Queima minha pele. Queima pele. Melodicamente me consome, quase como um refrão.
Dentro da carcaça carcomida, um fiozinho de consciência me leva adiante. E nessa escuridão, que é a morte, busco força em quem aquecia o inverno da minha alma. Reacender memórias, ainda que efêmeras como a chama de uma vela, me traz um último conforto.
Enfim, vou tentar ser mais direto. Menos subjetivo. Eterno desafio. Eu até evitaria ser abstrato se o concreto não teimasse em desabar sobre a minha marginal existência. Amanhã (ontem ou hoje) serei (fui ou sou) culpado pelo meu próprio martírio. Lamentarão o sangue derramado, para no segundo seguinte proclamarem culpados. Sabe como é né, Nicinha. Gente como eu até pode morrer, desde que limpe o chão depois.
Juro que esse foi último parêntese (spoiler: não será).
Sei que perdeu as lembranças muito antes de eu perder o juízo. No final das contas, uma coisa levou à outra. Não, não, não é isso. Não estou te culpando por nada. Só acho que queimamos etapas. Um de forma involuntária, outro nem tanto. O fato é que passei a vida inteira te dizendo que colocaria a mão no fogo por nossa história. Agora o faço, de forma mais literal do que eu gostaria, é verdade. De todo modo, coloco o corpo inteiro. Como é aquela frase que você amava dizer? Ah, lembrei. “Do pó vieste, ao pó retornarás”. Puta negócio cafona da porra. Perdão pelo palavrão. Hahahaha, saudades das suas carolices. Foram anos me fazendo ir todo domingo àquela missa. O máximo que consegui com aquilo foi nutrir alguma simpatia pelo bispo comunista. Veinho gente fina.
Recordações aleatórias. Momento derradeiro. Protocolo seguido à risca. O filme da vida passando de forma não linear por essa cabeça quente, confusa e ressentida. Curto demais, esse circuito. Trocadilhos deprimem, eu sei. Paciência, foi o que deu pra fazer. Dos finais de semana católicos dos anos 90 ao alto da barca do inferno em que navego lentamente no dia primeiro de maio de 2018.
É Nicinha, você só sabe em 2020, mas eu virei carvão há quase dois anos. Não houve churrasco, embora seja plausível que alguém tenha comemorado. Pois é, entendo sua indignação. Certamente acharam melhor não te dar a notícia. Afinal, uma velhinha com Alzheimer não entende mais nada, não é mesmo? Pra quê fazê-la sofrer por um neto que já não fazia questão nenhuma dela? Julgam, provavelmente. Foda-se, o julgamento final é meu. Sabemos que a banda não toca assim. Meu canto do cisne é teu. Solo ou dueto? Monólogo ou diálogo? Questões retóricas, que se passarem por ti, deixarão de ser.
O fogo passeia na vertical. Invade os 24 andares ocupados. Depois dele, vagos. Vazios como os argumentos de quem chama de invasão. Distinção que nem todos são capazes de fazer. A senhora saberá. Sua trajetória me diz isso. O horizonte se estreita, engolido por nuvens de fumaça. O silêncio que me aguarda, é antecedido por ruídos. Estalos. Choros. Gritos. Lamentos. Pedidos de clemência.
Ninguém se importa. Vão dizer que sim. Sempre. No início, evidentemente. E quando a poeira baixar? Esquecerão. No centro, e no fundo, a fogueira das vaidades ainda prevalece. O sexo dos velhos ainda é o poder, Nicinha. Exatamente como disse aquele poeta paranaense, na sua voz, é claro. Aquele tom professoral. Imponente e definitivo. A única autoridade que me fez sentido.
Memórias derretem. Corroem vísceras e coração. Carbonizam os últimos sinais vitais.
Falam sobre a dor de uma mãe que perde o filho. Uma avó talvez sinta algo parecido quando perde um neto. Especulo longe, milhas e milhas, do lugar de fala. Apesar disso, imploro: não se desespere. Mesmo que o desespero te faça viva outra vez. Mesmo que toda a passividade causada pela doença te impeça de reagir. Ou pior, de me reconhecer. Ao abrir os olhos novamente, sentimentos incendiários se dissiparão. Fogo cruzado nunca é eterno. Um sopro de nostalgia será o suficiente para controlar as chamas. Encare como um consolo. Assim encarei quando tudo desmoronou. Nem toda ruína é ruim. A minha te trouxe para perto de mim pela última vez. Cinzas também podem ser coloridas.
