Algo bonito escorrendo do nariz

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(sem assunto)

Não vou fingir que você não lembra de mim ou que nada aconteceu entre a gente, que a gente não se cobiçava, vou cortar logo a introdução cheia de dedos que eu faria se a situação fosse outra, tentando ser engraçado na medida certa, fazer você rir ou pelo menos sorrir em seus pijamas, mas sem soar abobalhado, o que sempre é um desafio. É uma bruta agonia escrever pra você assim, sem ter nem mesmo tempo para revisar este texto, logo eu, o sr. vaidoso, essa vaidade que nunca me trouxe nada e me impediu inclusive de te dizer as coisas que eu queria dizer quando quis, mas agora não dá mais tempo, não tenho tempo pra mais nada, você vai entender depois quando vir o noticiário, vai ter muita notícia, porque vai ser uma porra de um desastre, talvez já tenha dado plantão na Globo, aquela musiquinha nefasta, os repórteres nesses casos chegam antes do socorro. Estou imaginando o Salsicha abrindo o programa berrando a minha desgraça, a desgraça de tanta gente que, como eu, não conseguiu sair do prédio, vai morrer muita gente aqui, porque o Três Marias resolveu arder numa quarta-feira comum, e ele não vai conseguir nem esconder a euforia de saber que o programa bateu audiência recorde, vai seguir berrando com aquela voz insuportável dele, aquela voz de feirante que vende o que ninguém quer comprar, a equipe dele já deve estar até aqui embaixo, a uma distância segura da faixa onde caem corpos e farelos do prédio. Não quero que você pense que eu não tentei me salvar, que fui outra vez um covarde, como quando deixei de te dizer tudo que eu devia ter dito, deixei o medo me dominar, aqui não, aqui quando percebi o elevador já tinha parado, alguma coisa bloqueou a escada lá embaixo e o fogo tomou conta, é difícil de explicar, mas tive que correr pra fugir da fumaça, pisando por cima de corpos que já pareciam pisados, eu corri e subi as escadas e me tranquei aqui no estúdio da rádio e peguei o notebook. Você nem deve saber que eu mudei de emprego. Antes nós sabíamos tudo um sobre o outro. Desculpa, me distraí agora com um gordão que chegou esmurrando o vidro do estúdio, que por sorte é muito grosso, é mais grosso do que normalmente é grosso um vidro de estúdio, acredite, eu sei, e ainda bem, porque o cara resolveu, quando percebeu que eu não ia abrir a porta, lançar uma cadeira no vidro, fiquei pensando se a intenção dele era me salvar ou o quê, ou será que ele acha que eu não entendi o que está acontecendo, que o prédio todo vai queimar? Acho graça que eu esteja te contando essas coisas aqui de dentro, pormenores irrelevantes, mas em breve vai ser você que vai compreender, muito mais do que eu, o que aconteceu aqui de verdade, por exemplo, eu não sei como o incêndio começou, em qual andar houve um curto ou alguém esqueceu uma vela, no entanto você, mesmo que escolha não entender, mesmo que ache esta minha carta muito macabra e resolva ignorá-la, vai saber de tudo, esses assuntos pulam no nosso colo sem aviso ou convite, como gatos adestrados de uma vizinha bisbilhoteira. Em vez de escrever para os meus pais ou ligar para a minha mulher, que deve estar desesperada, eu resolvi fugir do assunto contigo mais uma vez, uma última vez, enquanto decido se devo pular da janela, agora que o gordo desistiu de me salvar, ou se devo morrer aqui dentro, asfixiado, porque a fumaça já me alcançou, e o calor tá demais. Derrubei a programação normal da rádio, que, acredita?, ainda tava tocando, e coloquei aquela música, não preciso dizer qual, você sabe. É isso. Você me olhava entre envergonhada e curiosa, como se eu tivesse algo bonito escorrendo do nariz. Ninguém jamais me olhou assim. Não posso desmaiar antes de apertar o Enviar, talvez eu escolha fazer isso agora, pra garantir, dizem que a gente desmaia sem perceber. Tomara que você ainda use esse endereço de e-mail.

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