ANESTESIA

O cheiro não me é estranho. A pele arde. A fumaça me impede de enxergar claramente. Na iminência da perda dos sentidos, ainda que confusos, me veio a necessidade de conversar com você.

As chamas aumentam a todo momento, enquanto meu mundo se apequena. As labaredas aquecem meu apartamento. Ao mesmo tempo, sinto a alma se esfriando.    

Poucas lembranças vêm à mente. Aos cinco anos, meus olhos ficaram vidrados na casa do outro lado da rua. Madeira escurecendo, telhado caindo, fumaça cada vez mais alta. Fui tomada pela cena. A sensação era de que o mundo havia parado. Nada mais importava.

A família tentava resgatar o que podia. Apego material, desespero por não sobrar nada da vida passada ou instinto? A curiosidade em saber como seria o final da história me instigava a ficar ali, olhando. Não me interessava os apelos da mãe para que eu me recolhesse à nossa casa.

Assim como na cena de décadas atrás, agora escuto o barulho alto das sirenes. Percebo que estou mais alerta. Você me deixa alerta. Apego à nossa história, desespero por não sobrar nada da vida passada ou instinto? A curiosidade em saber como será o final da história me instiga a ficar aqui, não apenas olhando, mas também sentindo. Não me interessa os apelos dos socorristas para que eu saia da minha casa.

Até que, por fim, entendo que é preciso aguçar o fogo e me consumir com ele. Deixar queimar. Depois de tanto tempo anestesiada, enfim sinto a nossa vida, mesmo que no seu fim.

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