Querido Santiago,
A história do torpor em que vivi nas seis décadas antes de te conhecer poderia ser escrita em poucas linhas. E agora que as chamas se aproximam, eu me sinto capaz de escrever um romance sobre os poucos meses em que convivemos. A primeira vez que te vi, você estava em pé na calçada, no centro da cidade, vestindo um macacão jeans e olhando para o alto. Nas mãos, um caderno e um lápis. Fiquei te observando de longe, intrigado, e, um pouco depois, quando você passou por mim, eu disse que você era bonito. Começamos a conversar e você disse que tinha como passatempo desenhar as fachadas dos prédios condenados e me revelou que a cidade estava cheia deles. Achei fascinante. Passamos a nos encontrar com uma certa frequência e eu te seguia nas sessões de desenho. Sempre te pagava uma refeição e uma cerveja e você me contava as histórias daqueles prédios: quando haviam sido erguidos, como eram as pessoas que viveram neles, o que os interditara. Sempre histórias trágicas e bonitas; todas ricas em detalhes, como se íntimas suas. Nunca soube se era invenção ou se tudo havia se passado daquele jeito mesmo e também nunca perguntei. Eu estava apaixonado. Lembro que quando você veio pela primeira vez no meu apartamento criticou a pintura recente do prédio porque parecia uma maquiagem exagerada. Eu sempre me incomodei que o prédio era velho e inseguro – um espelho desbotado – o que me motivou, no início, a frequentar as assembleias disposto a resolver os muitos problemas que ali pipocavam. Mas quando você chegou, eu desisti das assembleias. Não me arrependo. Se a ausência de extintores nas escadas e corredores foi o preço a pagar para poder estar mais tempo com você, estou satisfeito. Será que eu estava preparando um presente pra você? Não posso dizer. Normalmente, eu me impressiono fácil e temo pelo fim das coisas. Eu assisto os filmes românticos várias vezes achando que o final triste pode ser feliz desta vez. Mas talvez eu tenha mudado. Eu não sei onde você mora. Os seus desenhos eu não sei onde estão. Mas as suas visitas preencheram várias das minhas lacunas. Nós não conversávamos muito, apenas algumas palavras como que para confirmar que estávamos aqui. Me alimentava o mistério que era sua vida. Ontem, você veio e me revelou o seu passado. Vejo agora que você se despedia. O prédio está agora em chamas e não há como fugir. Eu não quero fugir. As pessoas gritam e eu ouço os passos no corredor e os lamentos nas janelas. A vizinha de cima ameaça se jogar. Estou certo de que ela não tem para quem escrever. Eu tenho medo, mas sinto que minha história chegou ao fim e que você já pode conta-la. Imagino que você esteja aí embaixo, olhando o prédio arder, com seu caderno e seu lápis na mão.
