Uma conversa

Oi… oi…. Tá me ouvindo? Sim, tá tudo bem comigo. Quer dizer, mais ou menos… Então, é que tô no meio de um incêndio… Isso, incêndio, fogo, bombeiros, sabe?… Lembra que eu te falei que hoje cedo eu tinha uma consulta, e que de lá eu ia direto pro escritório, e que por isso eu não podia dormir aí? Então, saí cedo de casa para ser um dos primeiros, você sabe que eu detesto esperar, daí tava na sala de espera, pensando no que você havia me dito, no que a gente havia conversado, essas coisas, quando de repente começou a tocar um alarme, um falatório pelos corredores, um corre-corre. Daí vieram dizer que havia fogo no prédio, sei lá, acho que no oitavo andar… Não, o consultório é no décimo quinto. Agora eu tô no… no… décimo primeiro… isso, décimo primeiro… Não, não, eu tô bem, só tô assustado… Puta merda, apesar do que aconteceu, se eu tivesse ficado na sua casa… Não, calma, não dá pra ir descendo assim… Não, aí, tá vendo?… me escuta pelo menos uma vez… então, os bombeiros pediram que a gente fique aqui, eles tão vendo se é seguro descer… Sim, eu sei, devia ter ficado aí… Mas, pô, não tinha como ficar aí, não tinha clima nem cabeça… e agora, pra completar, isso aqui… Sim, tô, tô com medo sim, não sei como vai ser, não sei o que vai acontecer… Claro, ué, há um monte de gente aqui, gente rezando, gente chorando, gente usando celular. Eu? Não, tô com o fone de ouvido. Pouco espaço, sensação de falta de ar, de que não posso fazer o que quero. É estranho, todo mundo junto mas cada um pensando só em si, essa é a minha impressão. Sei lá… Sim, eu sei… Pois é, só assim para eu te ligar, não dava para só mandar mensagem, né… Sim, tá quente, todo mundo aqui, as janelas fechadas, energia cortada… Sim, lógico, foi em você que eu pensei quando vi que a coisa aqui era séria, foi por isso que te liguei, pra quem mais eu iria ligar?… Sim, eu sei… espera, espera, tão pedindo que a gente desça um andar… não, não desliga não…preciso de você, alô, alô… Oi, a ligação caiu… sim, agora tô no décimo, isso. Nossa, muita gente desesperada, um atropelo para descer, tudo escuro, só aquelas luzinhas de emergência e as dos celulares. Parece que os bombeiros estão tendo uns problemas lá embaixo, sei lá, prédio antigo, essas coisas…. Caramba, quero sair logo daqui, o ar tá cada vez pior… Sim, tava ficando ruim mesmo, cada vez mais, por isso achei melhor te falar… Sei lá, também não sei, mas a gente tem se estranhado, umas implicâncias bestas… Sim, tem razão, mas não sou só eu não, você também… Oi, oi, fala alguma coisa… Caramba, a gente tá nessa há um bom tempo… Não, não, tô falando da situação aqui no prédio, se bem que… Sim, sim, você tem razão, não dá pra resolver essas coisas de uma hora pra outra, a gente tem que ter calma… tá certo, mas como ter calma numa hora dessas? Pra quem não tá vivendo é fácil falar, ditar regras, dar conselhos, essas coisas… Sim, claro, vai dar tudo certo…. Mas o que significa “dar certo”? Mas o que você quer dizer com isso?… Só sei que o que eu quero agora é sair dessa. E sei também que pensei bastante sobre ontem, sobre a gente… Sim, quero muito, é o que eu mais quero. Você sabe disso, já te falei… Sim, falei também umas coisas que não devia, exagerei, tá, desculpa. A gente precisa resolver isso. Bom, você eu não sei, mas eu quero resolver… Hum, que bom, bom saber. Porque isso me tranquiliza um pouco… Hum, peraí… Tem um bombeiro aqui, a gente vai tentar descer… Não, não, fica comigo, não desliga não… Vamos descer em grupos, vou no primeiro…. Já estamos descendo, nossa, muita fumaça, tudo escuro… Passamos, conseguimos, passamos pelo oitavo andar, ufa… Vai dar certo, o pior já passou… caramba, tudo molhado aqui, acho que agora estamos no sexto ou no quinto… Sim, você tem razão, não dá para ficar assim, sim, a gente tem que ver isso… Sim, é o que eu quero. E você?… Tô quase no térreo, caramba, que alívio… Saí, saí, saí… Tô indo para aí.

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