Eu sei faz sete anos e sete anos é tempo demais para simplesmente reiniciar uma comunicação. Você não vai acreditar Rui, mas nesse momento eu tou num prédio em chamas. Sim! Presa em um quarto de hotel no vigésimo andar. Da janela vejo os bombeiros fracassarem com os andares de baixo. Dentro de poucos instantes vou ter que decidir se inalo a fumaça até explodir meus pulmões ou simplesmente pulo. Que merda, acabei de lembrar do teu sorriso e me deu vontade de chorar. Não quero ser melodramática justo agora. Seria parnasiano demais pro meu gosto. Mas lembra Rui, do nosso primeiro quartinho? Aquela cama que parecia gigante ocupando o espaço inteiro. Nossa luminária rosa, único item de decoração. Você extenso sobre o edredom violeta. Teus cabelos tempestade embaralhando minha visão. Você ainda tem cabelos, Rui? Era o que eu mais gostava em você. Nem te falei, até porque a gente não se fala, mas você virou nos últimos anos o que chamam de “sonho recorrente”. Nota mental: tá ficando quente pra caralho aqui. Noite dessas eu te encontrei na beira da praia pra dizer que não nutria mais sentimentos ruins. Você sorriu solidário e me deixou. Em outro espaço do onirico, também na praia, eu te enchia de beijos dizendo que o que a gente teve era mais real do que qualquer coisa que ja me aconteceu e porra, que grande cagada fizemos ao casar com outras pessoas. No mesmo momento uma onda gigante apareceu e nos engoliu. E sabe o que é mais louco, Rui? No sonho eu fiquei feliz em morrer tentando pegar a tua mão. Por isso é que agora eu me sinto tão chateada. Morrer só é pros valentes e isso eu nunca fui. Em poucos minutos meu corpo vai arder consumido por um fogo que, olha isso, não foi você quem provocou. Tá bom, eu sei, já tou soando cafona. Mas a cafonice é liberada aos limítrofes da vida. Entenda, eu fiz de tudo pra não te odiar. Até teu nome no terreiro de santo eu levei pra que desatassem esse nosso nó. Mas filho da puta, só comer minha irmã não era o suficiente? Isso eu nunca vou perdoar. E não adianta citar Nelson e dizer que “amor que é amor não acaba”, porque se você tivesse insistido mais um pouco, só mais um pouquinho, eu teria voltado pra você. Precisava mesmo casar com ela? Ó, viu. Montei num porco de novo. A pessoa querendo passar a régua, vibrar luz antes de partir e aí vem de volta essa merdalhança toda. O ser humano é realmente um bicho ruim de transcender. Bem, te escrevo agora porque essa noite acordei chamando teu nome. Coração acelerou com medo de que o marido tivesse ouvido. Enrubesci de vergonha e te engoli de volta pro cômodo secreto onde te joguei há anos. Você também sonha comigo? Gosto de pensar que sim.
E foi esse derradeiro sonho que me fez vir até Pindamonhangaba. Sim, Rui, eu vim pra cá pra te encontrar e olha o que me acontece. Já que não deu pra gente mais uma vez, então que esses últimos minutos sejam teus. Por que se teve alguma coisa que valeu a pena nesse inferno que é a vida, foi ter te encontrado.
Peraí..não sei se é a fumaça, mas sinto um farol acendendo dentro de mim toda vez que fecho os olhos. Meu corpo expandido ilumina mais do que as chamas que se aproximam. Sim. Eu te perdoo, te amo e te agradeço. Te espero do lado de lá, do lado dos que não tem mais medo.
Toda tua, Sldkfjwflq’lnkglnaldkjlckmsmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm
