Sempre gostei de ficar de bobeira no parque nas tardes de domingo. Uma pedalada, uma sombra ventilada, algo para enganar a barriga e um bom livro. Passo boas horas assim. Naquele domingo, porém, aconteceu algo diferente.
Acho que já passava das quatro horas, quando resolvi parar à sombra de uma mangueira. Estava na floração, não havia o risco de ganhar uma na cabeça. Após poucos minutos de leitura, minha visão periférica notou um objeto de cor marrom clara, destoando da grama à sua volta, meio que encostado ao pé de outra árvore, à minha direita. Apurei a vista. Parecia um livro. Fui conferir, mas não era um livro. Era uma espécie de caderno, meio tosco, capa dura, com isso escrito à mão (caligrafia bonita), em tinta azul: “Palavras dos meus dias”. Havia um elástico preso à direita, como um lacre simbólico. Olhei à minha volta, em todas as direções, até para cima da árvore, e não vi alma viva. E agora? O que fazer? Examinei mais uma vez o objeto e, a despeito da minha pouca curiosidade, achei que uma olhadinha no conteúdo não faria mal. Removi cuidadosamente o elástico e folheei aleatoriamente: era um diário. Fechei rapidamente, de susto. Não devo ler! Aflito, voltei à capa e à primeira página. Nada, nenhum nome ou referência. Levei comigo para casa.
Por uma semana, voltei diariamente ao mesmo local e nada aconteceu. Ninguém apareceu para reclamar o diário. Aí, passei por cima das minhas resistências e resolvi anunciar nas redes sociais. Quanto arrependimento. Além de pouca coisa para ajudar, consegui um monte de piadinhas e comentários de muito mau gosto. Com algumas exceções, a maioria dizia que eu devia abrir e ler tudo: “deve ter um monte de coisa picante”; “deve ter dica sobre dinheiro escondido”; “deve ter confissões de amores” e coisa pior. Sempre achei tudo isso um absurdo. Uma invasão de privacidade, exposição deslavada. Todo mundo dispõe de tudo, como se seu fosse. Ainda bem que não coloquei foto, do contrário o diário estaria compartilhado ao infinito! Eu nem saberia o que fazer em tal situação. E se o dono visse? Não ia gostar. Senti alívio por só ter escrito um anúncio, mas, ainda muito decepcionado com a tentativa, decidi devolver o diário ao local onde o encontrara. Vai que a pessoa havia viajado naquela semana e agora voltara?
Cheguei cedo ao parque e, sentado ao pé da árvore em que encontrara o diário, esperei. Muito tempo. Olhei para ele algumas vezes, quase desejando abrir. Fim de tarde chegando, capitulei e resolvi ler algumas páginas, em busca de alguma pista. Não aguentava mais a minha imobilidade. Assim o fiz e, em poucos minutos, passados alguns dias de relato, eu já não conseguia parar. O que ali se descortinava nem tem adjetivos. Não era um relato qualquer, mas um depoimento completo, bem minucioso, que continha um pedido, um verdadeiro grito por socorro! A autora, de forma muito inteligente, criou uma história paralela em seu diário, uma aparente ficção, com informação suficiente para entender que sua personagem (que, para mim, era a própria autora, na verdade) sofria violência doméstica há mais de dois anos e que precisava ser resgatada de sua casa, onde era mantida em cárcere. Até a localização tinha boas pistas. Não sei como o diário foi parar no parque, mas, entreguei tudo no posto policial mais próximo e acompanhei o desdobramento depois, pelo noticiário e, óbvio, pelas redes sociais. O caso teve grande repercussão, sem menção ao diário, ainda bem. Desde o episódio, quando estou no parque só olho para o livro. Para o meu livro, claro!
Américo Paim
