Passa tempo, passa-tempo ou passatempo

Daniel Pereira

            Rastejo. Para existir. E também para isso. Como. Não que eu tenha outras opções.  Enclausurado nesse mundo redondo. Ou será que essa joça é plana? Pra mim tanto faz. Só queria sair desse aperto.  Não suporto mais essa realidade vermelha. Coisa nojenta. Por que eu sou obrigado a ficar aqui? Eu quero sair. Mas alguém me obriga a ficar aqui. Sem ter o que fazer, engulo. Ainda sou dependente. Não ando com as próprias pernas. Na verdade. Nem as tenho. Mas um dia vou criar asas.  Até esse dia chegar, vou mastigando.  Se pudesse variar a dieta já estaria de bom tamanho.  Mesmo que esse troço pareça saudável, a consistência rançosa me incomoda. E ainda tenho que dividir espaço com essas sementes. Duras. Tão sem vida. Enfim, quem sou eu para falar alguma coisa? Não passo de um verme. Ou uma larva. Foda-se, nem sei a diferença mesmo.

            Acorda. Coça o saco. Escova os dentes. Faz o café. Liga o note. Derruba café no teclado. Xinga. Pega um pano. Limpa a cagada. Abre o e-mail. Mais cagada. Tenta limpar. Desiste. Vai para a cozinha. Tenta cozinhar. Lembra que não sabe. Pega o telefone. Pede qualquer coisa. Espera. Desce. Sobe. Come. Volta ao trabalho. Liga. Fala. Ouve. Desliga. Canta. Assovia. Arrisca uma dancinha. Sorri. Volta ao trabalho. Escreve. Lê. Lamenta. Pensa em como resolver. Sai da sala. Vai para o quarto. Sai do quarto. Vai para o banheiro. Sai do banheiro. Vai para o outro quarto. Encara a parede. Sai do quarto. Vai para a sacada. Sente o vento na cara. Fecha os olhos. Ouve buzinas. Pragueja: É PRA FICAR EM CASA, FILHO DA PUTA. Ri sozinho. Volta para a sala. Senta no sofá. Liga a TV. Outra coletiva desses vermes. Deseja a morte do presidente. E do filho mais velho do presidente. E do filho do meio do presidente. E do filho mais novo do presidente. E de qualquer outro filho que esse sujeito tenha. E amigo. E primo. E a porra toda. Desiste da TV também. Desliga. Senta em frente ao laptop. Abre o youtube. Pesquisa: Roberto Rivelino Was Incredible – Rare Footage -> Skills & Goals. Assiste. Vibra. Levanta. Berra. Cansa do que vê. Desliga. Levanta. Passa a mão no cabelo. Depois na barba. Fala pra si mesmo que ela está gigante. Também pra si, diz que está com preguiça e que não vai fazer a barba porra nenhuma. Peida. Sente fome. Pensa nas opções. Descobre que elas não existem. Vai para a cozinha. Encara a fruteira. Avista uma goiaba. Lembra que ela está ali há muito tempo. Pensa se deve arriscar. Decide que sim.

            Muito louco esse binóculo que o tio Lori me deu. Passo o dia inteiro brisando nisso aqui. Bisbilhotando a vizinhança. Já que não tem mais tanta coisa pra fazer, eu vou é apontar essa gracinha para os apartamentos alheios. O meu preferido é o cara do 7° andar. Sujeito estranho da porra. Falando nele, alá o infeliz. Oloco, tá barbudaço. Isso aí deve ouvir um Los Hermanos com força. Se pá que não bate muito bem da cabeça. Alá, andando de uma lado para o outro. Já sentou e levantou umas trocentas vezes. Tá mais magro o filho da mãe. Não deve estar comendo direito. Alá, só porque eu falei. Pegou uma fruta. Uma pera? Não, parece uma goiaba. Porra, esse binóculo é foda, até essa distinção eu consigo fazer. E porque esse arrombado tá olhando essa porcaria há tanto tempo. Coma logo, meu filho. Ah, finalmente vai morder.  Mordeu. Caralho. Começou a cuspir feito um doente. Agora tá berrando. Pensou tanto antes de comer. Será que ele achou um bicho? Pior que isso, achou metade.

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