
Eduardo Muylaert
Um homem sem sapatos e de pijama caminha sobre os trilhos do trem. Não muito grande, na casa dos sessenta, cabelos brancos em desalinho, traz o rosto ferido e ensanguentado. O trem com a comitiva presidencial tinha passado há pouco. O funcionário da ferrovia que fazia a última ronda, naquela noite de 23 de maio de 1920, acha que se trata de mais um bêbado e o conduz meio sem modos à casa de um colega nas redondezas. O homem, sabendo que não acreditariam nele, se apresenta como o presidente da república. A dona da casa repara que o hóspede tem os pés delicados, o que indicaria tratar-se de pessoa educada. Quando o episódio chega por telegrama ao trem presidencial, ninguém leva a sério, pois o presidente da França dorme tranquilamente na sua cabine, onde só deve ser acordado às sete da manhã. Chegam a contar todos os outros 53 passageiros, mas ninguém ousa incomodar o presidente. Sem resposta às suas batidas na porta, o camareiro a abre e vê a janela aberta e Paul Deschanel ausente. A janela do trem era baixa, para que a multidão pudesse saudar o chefe da Nação. Tendo caído do trem, e se envolvido em outros episódios a denotar perturbação, o estadista acabou renunciando, depois de apenas sete meses na presidência. A constituição francesa da época não cogitara da hipótese de um presidente incapaz, e assim não apresentava nenhuma solução para o caso. Hoje a França conta com o impedimento (empêchement), que não se confunde com o impeachment. É a situação em que um membro do executivo não consegue bem exercer suas funções, por razões de saúde física ou mental, entre outras.
Um homem alto, calça preta e camisa branca, mata outro em duelo. Era a manhã de 6 de maio de 1806. O motivo da disputa foi uma troca de insultos por causa de apostas de cavalos. Charles Dickinson atira primeiro e acerta Andrew Jackson no peito, perto do coração. Este, com costelas quebradas e sangrando, mas para surpresa geral atinge o adversário no abdômen com um tiro fatal. Depois disso, o vencedor se envolveria em mais de cem duelos e incontáveis brigas e agressões. Vinte e três anos depois, Jackson foi eleito o sétimo presidente dos Estados Unidos, cuja efígie, não sem protestos, continua nas notas de vinte dólares. Ele promoveu a maior e mais cruel remoção de índios americanos, era um escravagista e apreciava o açoite em seus escravos e escravas. Considerado louco por muitos, ainda é admirado por parte dos americanos. Seus adversários o chamavam de burro, e ele usou isso a seu favor, tanto que o símbolo adotado por ele até hoje representa o Partido Democrata. Foi clinicamente constatado que ele padecia de moléstias físicas e emocionais, com sintomas como enxaquecas fortíssimas, sangramento nos pulmões, infecções e dores causadas por balas recebidas em duelos. Quando deixou o cargo, confessou dois arrependimentos: não ter matado um de seus adversários, e de não ter enforcado outro.
Um homem confraterniza com seus admiradores, sem nenhuma das precauções recomendadas em época de pandemia. Ele teve contato com várias pessoas infectadas, mas não acredita no que dizem os médicos.
