
O diafragma de Edna enche. Com isso, a oxigenação é rápida, colocando-a num conhecido limiar. São caminhos cujas rotas ela aprende dia a dia na meditação. “Olha a merda que você fez! Tá uma imundície!”. Mais uma vez, os berros do vizinho tentam penetrar o mantra. Sua palavra secreta abraça-a ao ponto do transe, mas é puxada de volta pelo homem. Paredes de condomínio são apenas outro tipo de papelão.
A imagem da maré revolta penetra Edna no retorno ao silêncio. Espectros de vírus e microorganismos infectam-na no fechar dos olhos, enquanto trechos de noticiários contando mortos recortam-lhe os ouvidos pelas janelas, mas o mar de um azul sobrenatural quebra em direções diversas na sua cabeça. Edna se pergunta o porquê disso, para logo depois repreender-se. O motivo não importa; o foco de agora é o agora. Pensamentos devem entrar e sair como a voz do filho da puta do 104. “Primeiro, você esfrega o pano com o sabão! Depois você passa a água e só aí enxuga, sua imbecil!”. E a síndica não faz nada. Chamam a polícia e simplesmente não podem entrar. Mundo de merda. Que morram. Foco! O mantra. O mar.
As ondas se dissolvem em dura espuma branca, que vira uma porta de maçaneta dourada. Edna estende a mão para tocá-la e o gesto não lhe causa nenhuma expectativa. Peito, diafragma, barriga, agora todos inflam em uníssono. Aos poucos, a porta se abre, revelando um amplo céu e flores campestres. Ninguém à vista. “Da próxima vez, vai apanhar, inútil!”.
“Cala a boca, porra! Que inferno! Vou chamar a polícia de novo, seu merda!”, Edna finaliza assim, aos berros, a meditação. Recolhe a esteira de palha, guarda-a com cuidado e liga a tevê da sala. A Rainha Elizabeth a encara. Um tom de voz pomposo, porém, sincero, perceptível mesmo com o off meloso na tradução do discurso pelo correspondente em Londres. Edna senta no chão, abraça os joelhos e chora. Lá fora, a luz de um poste lembra o sol. “Um dia perfeito para um banho de rio”, conclui, as lágrimas misturadas com os restos de maquiagem traçada no tédio do dia anterior.
2.
“Nós somos o vírus! Nós somos o vírus!”, segue o mantra pelas ruas nas madrugadas em Manaus. Com nossas vestes negras de TNT, parecemos urubus ao largo das lixeiras viciadas na periferia. Entre becos e palafitas, nosso canto atrai e aterroriza em igual medida. Os impuros nada entendem, pois a mídia insiste em não relatar as ações de nosso grupo; não apenas isso, mas as restrições às liberdades individuais impulsionadas pela quarentena agravaram-se ao ponto de censurar todo discurso não oficial. Por sorte, algumas comunidades online muito restritas ainda conseguem difundir o evangelho que varrerá da terra, finalmente, a escória que o planeta expurga através da pandemia: o homem.
“O propósito: a terra una. O meio: a aniquilação em massa. A ferramenta: a contaminação em larga escala. O motivo: o sufocamento promovido pelo aborto de Deus. Que finde o homem então!”. Com essas palavras anônimas, iniciou-se o movimento.
Cusparadas, escarradas, o pigarro da tosse e o ritmo febril de nossos passos têm apenas esse objetivo: infectar o máximo de pessoas possíveis. Desde que a boa nova começou, relatos inúmeros fundamentam nossas ações: cisnes navegam resplandecentes pelos canais de Veneza; cabras desfilam pelas ruas de Gales; a terra respira novamente com a diminuição drástica de gases do efeito estufa; o ruído sísmico causado por uma sociedade doente reduziu-se a sussurros, permitindo que a natureza, por fim, falasse mais alto. A vida aos poucos retorna ao caldo inicial, no qual os impuros revelam-se a verdadeira doença. O contágio é a cura.
A maratona pelas madrugadas é apenas o aspecto lúdico do movimento. A morte e, melhor, a tensão gerada por sua expectativa, é a brincadeira que alegra os deuses e regozija as almas comprometidas com a causa. Bêbados e suas complexas aparelhagens na mala de Celtas vomitando lives de sertanejos, paizões que saem de motéis irregulares com moças de fino trato, mendigos desnorteados e enfermeiros que buscam esconder o fardamento branco, mas não os sapatos Usaflex: esses são os alvos mais fáceis. Sim, é a morte por esporte, mas como esporte, condiciona mente e corpo rumo ao único ideal possível de nossos tempos. Nós somos o vírus!
3.
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A última vez que as tartarugas Olive Ridley, ameaçadas de extinção, apareceram no litoral indiano durante o dia foi em 2013! Veja fotos.
