João sentia e aproveitava a sensação boa do vento no rosto, reforçada pelo zunido do pneu no asfalto quase líquido naquela tarde de janeiro. “Um forno”, a ideia era muito batida mas era a que lhe vinha à cabeça quando pensava em seu pequeno apartamento. A fiação antiga e o bolso tímido não aguentavam um ar-condicionado e o ventilador, coitado, não vencia, apenas ia fatiando e empurrando adiante o ar denso. “A bicicleta”, pensara, e já estava ele lá embaixo, removendo o cadeado, abrindo o portãozinho. Enquanto a playlist ia escorrendo pelo fone sem receber muita atenção, enquanto forçava levemente os pedais da bicicleta, indecisa em algum lugar entre velha e vintage, João tomava aquela rua de que tanto gostava, ladeira repleta de árvores, e se lembrava da primeira vez em que conseguira andar sem rodinhas. O Tio o segurava pelo banco da Berlineta azul enquanto ele pedalava pela rua da Vó, pedalava e falava, pensando que o Tio estava ali. Mas o Tio não estava, havia ficado lá trás, mãos na cintura. João se viu sozinho e sem rodinhas.
O pássaro deu meia volta, executou um movimento de asas para reduzir a velocidade e pousou. No seu passinho ritmado foi para perto da beirada da rua garimpar uns ciscos. A poucos metros estava Madruga. Um piado o chamou de volta à realidade e o resgatou do cochilo: abriu os olhos, bocejou e desejou o passarinho. Num instante não havia mais nada, nem árvores, nem gentes, nem carros, nem sono, só a pequena ave. Levantou, esticou o corpo e deslizou pelas pedras portuguesas, de onde foi ao portão entreaberto e um tanto enferrujado e, depois, à sibipiruna, aboletando-se na sarjeta, sua velha conhecida. Porque ali vivera alguns anos, ágil mas nem sempre exitoso na faina de matar a fome e de evitar mãos infantis. Até que começara a receber agrados do povo da casa amarela (primeiro, água e ração e depois também um pouco de leite) e, um dia, foi se juntar aos outros gatos da casa. Perdera agilidade e esbelteza, ganhara barriga e conforto, mas preservara o gosto ancestral por lagartixas, borboletas e pássaros. “É hoje”, pensou Madruga, se é que gato pensa alguma coisa.
Se é verdade que de bicicleta não se desaprende a andar, certo é que gato gordo também quer caçar. Impulsionado pelas lembranças e pela música, João relaxava os freios e soltava o pensamento, mas não muito, porque a rua lá embaixo é perigosa. Balançando o casaquinho branco e preto, Madruga foi para baixo de um carro estacionado, um olho no pássaro, o outro também, sem dizer uma palavra.. Alheio a tudo, o pássaro ignorava Madruga. Alheia a tudo, a bicicleta incentivava João. Madruga preparou o bote, o sabor metálico da carne já na boca. Mais seguro, João até soltou um pouco as mãos do guidão, o que ele nunca havia feito. Tudo parecia que ia bem, mas não foi. Do nada, a bicicleta que apareceu espantou o pássaro. E o pássaro, do nada, quase derrubou João.
