Furta-cor

1

As formigas, em fila, cruzam o chão do quarto carregando uma libélula morta. O corpinho está seco e amassado. Olho para as copas das árvores que balançam lá fora e sonho, por um breve momento, que sou aquela libélula voando ereta e imprevisível e que tenho olhos múltiplos e enxergo os campos e as florestas de uma perspectiva reveladora. Acordo desse devaneio e, rapidamente, pinço o pequeno defunto, livrando-o do cortejo das formigas, que reclamam. Na linha da vida que parece um varal meio frouxo atravessando a palma da minha mão, deito a libélula e aproximo a vista. As asas brilhavam como as cores do meu vestido preferido. Eu costumava dizer, orgulhosa, que ele era da cor dos besouros metálicos e os adultos sempre me corrigiam dizendo que era furta-cor. Que sem graça. Os meninos da minha turma, pesadamente monótonos com sua voz que tentava engrossar, me chamavam de esquisita. Fecho a mão como quem prepara um golpe e sinto a libélula se transformando em pó.

2

Na feira de ciências da escola, já bastante aborrecida com todos aqueles vulcões feitos de papel machê, sinto de repente uma mão se fechar em torno do meu pulso. Sigo o rastro da mão para o braço e daí para o rosto do menino que me segura e que tenta ser meu amigo quando não tem com quem brincar. Ele me conduz, por entre os estudantes e familiares que se aglomeram, até uma sala com cheiro de éter no fim do corredor. Diz que precisa me mostrar algo importante e aponta para um microscópio. Pousamos um olho cada – o direito dele, o esquerdo meu – sobre as oculares e então surge no campo de visão uma mancha colorida. Ele desce o braço da máquina e nossas orelhas se encostam. Quando ajusta o foco, a imagem na lâmina do microscópio se reveste de contornos e eu identifico milhares de escamas finamente ajustadas umas às outras, como uma armadura. Ele se afasta e me encara e eu temo que eu seja tão frágil quanto as asas daquela borboleta.

3

Acordei, há uma semana, com a notícia de que já era uma moça e não podia mais passar o dia medindo a altura dos cupinzeiros no pasto e nem monitorando as aranhas tecendo suas teias na floresta; que era feio andar descalça e me enfeitar com torrões de terra sob as unhas. Meu presente de aniversário foi uma viagem só de ida para o apartamento de uma tia que vivia na capital e só falava em pecado e casamento. No primeiro dia, quando me esquivei das tarefas domésticas para as quais fui designada, me debrucei na janela do décimo andar observando, com desdém, o voo racional dos aviões contra o céu cinzento e o vai-e-vem automático dos carros nas ruas barulhentas. Tive vontade de derrubar aqueles aviões e de pisar naqueles carros. O sol se pôs e as luzes da cidade tentaram em vão me fazer pensar que eram vagalumes.

Deixe um comentário