Sobre a queda inevitável

Era mais uma manhã de isolamento. Toda a rotina desses últimos dias precisa ser mantida. Acordar sempre no mesmo horário, ativar a melanina, tomar banho, colocar uma roupa e comer. Assim começa o ritual da saúde mental da quarentena. Nada de toque, nada de contato físico. Solitude pura. Apesar das restrições, Jurema tem prazer em fazer as coisas no seu jeito e tempo, sem pressa pra nada. Agora tudo flui tão bem. Na vida anterior, estava sempre atrasada, estressada, noiada.

A campainha toca. A sensação é de incredulidade. Estamos vivendo uma pandemia viral, então não é possível que alguém ainda não tenha entendido. Só se fala nisso! Porém, são tantos vizinhos idosos que pode ser alguém precisando de ajuda. Ela abre a porta rapidamente. A zeladora, sem nem um bom dia, lhe entrega uma folha e pede que a assine. O recado: reunião de condomínio em uma semana. A incredulidade quintuplica de tamanho. Escondida atrás da porta, Jurema diz a ela que tem o vírus e se nega a ficar com qualquer papel. Os olhos da funcionária se arregalam e com apenas um passo ela já está do outro lado do corredor. Em poucos segundos, desce as escadas. Às vezes, só o medo salva. Mesmo assim, a reunião está mantida, mas Jurema não quer sair de casa.

Ela entende que não deve sufocar sentimentos e precisa fazer com que o síndico mude de ideia. Ele é um homem prático, cheio de virtudes e pai de família. Vai entender o que tem a lhe dizer. Que delírio! Virtualmente, indagou o motivo de a zeladora bater de porta em porta, contrariando as recomendações de saúde pública. Ela não ouviu a voz dele, mas claramente irritado ele sugeriu que a funcionária fosse dispensada e Jurema assumisse a função de levar o lixo do prédio pra fora. Continuou. Não só disse que ela estava desinformada como também desprezou o perigo da contaminação. Seus planos se mantêm. É o flerte com a distopia.

Aqui, ali, lá, acolá. Por todo lugar só se comenta esse assunto. No seu pequeno mundo de poucos metros quadrados, Jurema se alimenta dos noticiários. Mesmo empanturrada, não consegue vomitar. Precisa se nutrir cada vez mais para justificar seu isolamento. E mais e mais e mais. Por dias. Só que a fresta por onde toma sol todas as manhãs está cada vez mais estreita. Também volta a escutar o barulho da rua, antes deserta. Sente angústia por não conseguir convencer o síndico. Ao se dar conta de que está sozinha, desaba. É capaz de apostar que alguém está rindo dela. Descontrole total. Jurema não contou à zeladora, mas nem fez exame algum. E a reunião começou.

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