Pastel de Páscoa

Pastel de Páscoa

Helô Mello

Sair da fazenda é sempre difícil. Quando aterrisso, minha vontade é de ficar enterrada na horta atrás da casa, vendo as cenouras crescerem, caminhar ao lado das palmeiras longilíneas e dos flamboyants agora floridos na curva antes da subida. Aqui dispenso relógio. Sigo o horário do sol: quando fica vermelho atrás da montanha é hora de me recolher e quando o galo canta sou obrigada a iniciar o dia.  Posso ficar nessa rotina à toa por muitos tempos. Conto as semanas pelos livros lidos que voltam para a estante.

Hoje tive que quebrar a rotina e ir à cidade comer o pastel do Copa de Ouro, a tradicional pastelaria de Amparo. Quando assumo a gula, não há negociação. É uma urgência interna. É impossível pensar em outra coisa. Não conheço outro pastel como aquele. Nem o da feira me parece tão bom. Desenvolvi uma técnica para comer sem desperdiçar nenhuma dentada da massa crocante e do queijo farto que chega derretido. Primeiro é uma pequena mordida no canto superior. Só para deixar o vapor fluir. Esse momento é importante para não queimar o céu da boca, mas é preciso cuidado para não deixar todo o recheio escorrer para o canto inferior. Um equilíbrio entre massa e queijo puxa-puxa, entre mãos e boca, o pastel pelando e frio demais.

Estava refletindo sobre o pastel enquanto fechava a porteira. Me desprendia do mato em direção à cidade de poucos prédios modernos e muitos casarões da época do café que resistem em não ruir. É preciso ir devagar na estrada de terra e desviar da dupla pedras e buracos para diminuir os solavancos que me fazem bater a cabeça no vidro. Passo por um rapaz na sua bicicleta. Imagino o seu equilíbrio levando uma sacola na garupa entre as armadilhas do caminho e a poeira que se levanta após a passagem dos poucos carros. As arvores estão verdes. As chuvas no final da tarde fazem a faxina. As nossas estações não são marcantes como as do hemisfério norte, mas na época da seca as arvores parecem me dizer o quanto estão sedentas. As cores são substituídas por uma paleta mais castanha. 

Logo que chego no asfalto vejo as primeiras casas. A grama alta no terreno, quase um mato, sempre me deixam alerta. Já encontrei uma cobra quando fazia esse trajeto a pé e minha amiga paralisou por 5 minutos quando uma coral atravessou nosso caminho. São casas sem muro, paredes puídas e roupas no varal que expõe a intimidade dos seus moradores. Na casa da esquina, antes da descida, deve morar crianças que usam fraldas, um menino de talvez 10 anos, um homem não muito gordo pois as calças são justas e sua mulher que nesse dia secava também suas roupas intimas quase sem cor. 

Perto da Assembleia de Deus, porque toda a cidade tem uma, alias, elas proliferam mesmo em cidades como Amparo, tão católica, as casas já começam a ter muros. Mas falta personalidade. Se repetem com seus portões de ferro que roubam a calçada ao fazerem uma barriga para acomodar melhor o carro. As variações são do tipo de grade com flechas pontudas no acabamento ou com pequenas bolas para arrematar as suas beiradas. As janelas sufocantes de alumínio seguem o padrão e o cimento no chão impermeabiliza o pequeno espaço que sobra entre o carro e a porta da casa. Passo por elas e acho triste ver essas casas assépticas, sem jardim. 

Agora começo a entrar no centro histórico e surgem casarões sobreviventes do tempo em que a cidade era rica e despachava sua produção de café para o porto de Santos. Alguns estão escorados por vigas de eucalipto que não convencem. As janelas sem cor resistem por conta da madeira de lei. Ao olhar em cima das portas ou nos cantos das paredes descubro uma data, 1894, ou uma placa que deveria ter nome de família. As casas antigas, mais ou menos conservadas, tem as portas rentes a rua. Uma moça na janela conversa com a vizinha em sua cadeira na frente da sua moradia.  Dois amigos estão no bar tomando a pinga do alambique do Benedetti. A senhora mais velha não se apressa ao ver movimento e se informar da vida dos outros, prática muito importante em uma cidade como essa. As ruas mantem os paralelepípedos e algumas árvores esparramaram suas copas ao resistirem ao breve progresso. Vejo a loja de 1,99, uma locadora de DVD e cabelereiros de todos os modelos pipocam pelas ruas. Só não encontro uma livraria.

Passo pela igreja Matriz e pela igreja Nossa Senhora de Amparo e São Benedito. Na época das tradicionais procissões há uma concorrência entre os fiéis de cada paroquia para qual se destaca mais. É domingo e as igrejas se enfeitaram. Os fiéis se arrumam para a missa. 

Chego na praça. Algumas crianças brincam de correr enquanto os pais sentados no banco não trocam palavras. Viro a esquina e avisto o toldo do Copa de Ouro. Estranho não ver as mesas de plástico na calçada e o movimento que costuma ter do lado de fora. As pessoas vêm de Serra Negra, Jaguariúna e Pedreira comer o famoso pastel. 

Paraliso. Meu coração também. A barriga reclama. Pastelaria fechada?! Nunca tinha visto isso. Chego mais perto. Encosto na porta de ferro azul. Uma pequena folha de papel diz: “Feliz Pascoa”. O desejo de pastel era tanto, que foi como se tivesse me enterrado junto com as cenouras na horta.  Esqueci que esse era o dia do coelhinho e dos ovos de pascoa. Um dos poucos dias do ano que não tem pastel.

Deixe um comentário