Sem culpa

Liu Lage

Durante esses quase dois meses que não saio da cama, de tempos em tempos a minha filha entra no quarto, vem tirar a minha temperatura e me faz um carinho. O segundo colapso em um ano depois de vinte anos me drogando religiosamente. Minha filha, com seis anos, não entende porque eu fico “tanto tempo doente”. Mas tenta cuidar de mim, do jeito dela.

Uma carta para a mãe. Uma carta de perdão. A filha que nunca se esforçou para entender os reais motivos da mãe. A mãe que sempre se culpou pelos vícios da filha. A mãe à quem culparam pelos vícios da filha.

Estou no terceiro dia sem banho. Parei de cheirar pó há seis meses. Minha filha está com o pai hoje. Não tenho energia para me levantar há uma semana. Perdi completamente a vitalidade faz tempo. Não tenho perspectiva nenhuma, não consigo imaginar um futuro. E o passado foi um desastre. A única razão para continuar viva é a minha filha. Mas como ela vai lidar com a situação de ver a mãe morrendo aos poucos?

Culpa. Eu sinto. Minha filha vai sentir um dia. Minha mãe sente. Com certeza minha mãe sente. Decido escrever para ela. Falar porque eu acho que a nossa relação seja tão conturbada. Pego meu celular, é a única opção no estado em que me encontro, e começo a escrever uma mensagem no whatsapp.

Você não tem culpa, mãe. Não deixe ninguém tentar te convencer disso. Não somos responsáveis pelos erros uma da outra. Escuto uma explosão e gritos. Parece vir de um andar de baixo no prédio. Foi um estrondo forte e os gritos continuam. Prefiro continuar escrevendo já que o ânimo para me levantar da cama e ir ver o que aconteceu não existe.

Você não me influenciou em nada. Ou talvez sim, com o seu gene. Mas aí não foi uma escolha sua. Eu não me tornei uma viciada por sua culpa. Aliás, foi um alívio quando eu soube que aquelas suas idas ao banheiro com o meu tio nas longas noites de festa lá em casa eram para dar teco. E eu, com uns nove anos na época, jurava que você tinha um caso com o irmão do meu pai. E o traía na nossa própria casa, imagina! Só o meu pai não percebia. Pessoas no prédio começam a gritar fogo. Muitos gritos e começo a sentir um cheiro forte de fumaça. Mesmo assim continuo deitada, escrevendo.

Sim, foi um alívio saber que você passava noites cheirando pó e se divertindo com o seu cunhado gay. Eram noites animadíssimas, aliás. Diferentes das outras tantas que você passava sozinha bebendo uísque e fumando cigarro na fazenda enquanto meu pai viajava a trabalho. Por que, mãe? Por que você abriu mão da sua vida assim? Na verdade não posso te julgar, você tem seus motivos. E faltou empatia da minha parte, com certeza.

Faltou empatia sim. Faltou quando eu, criança, te vi levar um tapa do meu pai na cara. Assumo que achei bom aquele tapa. Eu não aguentava mais tentar dormir enquanto você, bêbada, ficava gritando pela casa, com ciúmes do meu pai. Não aguentava mais tentar dormir porque tinha escola no dia seguinte cedo enquanto você tossia a noite toda. O cheiro de cigarro pela casa, em você, me distanciava cada vez mais. Não fazia sentido pra mim aquela auto destruição. A nossa família estava morrendo com você.

Vou ter que levantar. Ouço muita gente gritando agora, de vários lugares diferentes do prédio e começou a entrar fumaça pela minha janela. Mas não consigo entender como uma mulher é capaz de se anular assim, ainda mais você que é filha de uma mulher tão forte e independente. Você é o exemplo do que eu nunca seria. Nunca deixaria minha vida de lado por um homem ou por uma família. Mas eu respeito a sua escolha.

Me levanto, vou até a janela e sinto um calor intenso vindo de baixo. O fogo já está chegando no meu andar, o oitavo. Como o meu maior desejo há um tempo era de não estar viva, posso dizer que finalmente fui ouvida. Sei que estou sendo cruel, me desculpe. Impossível dar ou receber afeto desse jeito. Acho que a depressão faz isso com as pessoas. Me tornei uma pessoa solitária, rodeada de pessoas que me amam porém sozinha.

Olho no relógio, são onze e vinte e cinco. Te amo. Nunca escutei isso de você como você também nunca deve ter escutado da sua mãe. As histórias se repetem. Mas com a sua neta vai ser diferente. Ela te ama e faz questão de falar isso o tempo todo. Cuide dela por mim. Envio a mensagem e caminho até a cozinha. Abro a gaveta e pego uma tesoura. Vou até a varanda, pulo a grade da jardineira e começo a cortar a rede de proteção. Fico em pé na beira da varanda, as labaredas estão bem perto, sinto o calor. Fecho os olhos e me solto.

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