Uma rua musical

Agora vai. Criei coragem. Afinal, o que tenho a perder? Todo mundo faz isso. Eu não ser um profissional do ramo não desmerece o produto, que, creio, tem qualidades. Selecionada uma pequena amostra, planejada a abordagem, coloco alguns exemplares na minha mochila e sigo para o ponto de táxi. O destino é a Rua Teodoro Sampaio.

Sempre que venho a Sampa, essa rotina é obrigatória, não importa a época ou o motivo da viagem. Ir às lojas de música da Teodoro. É o passeio que mais gosto e hoje é com esta novidade. Vou atrás de espaço para o meu produto: um disco de música autoral. Mais uma razão para fazer o roteiro que tanto gosto. 

Desço a Avenida Rebouças, decidindo em que transversal entrar. A conversa com o motorista passa por política e futebol. Ele me faz mais perguntas que respondo e, claro, pelo meu sotaque, tenta adivinhar de que lugar do Nordeste eu venho. Normal. Sempre há um parente por lá ou uma viagem de férias. São os relatos mais comuns.

Entramos na Rua Cristiano Viana e eu desço logo no começo. Quero andar, pois gosto de ver o movimento do povo na rua, como alguém correndo com fones de ouvido ou passeando com um cachorro ou os cheiros das árvores, que gosto.

Chego à esquina da Cristiano com a Rua Artur de Azevedo, onde está o Finnegan’s Pub! Fui muito ali, quando vinha quase todo mês a São Paulo e ficava hospedado na Rua Capote Valente, pertinho. Sempre tem música ao vivo e tenho uma história muito legal envolvendo uma bebedeira com muito blues e cerveja de trigo, acontecida ali, mas, repetindo Pierre de Fermat, não há espaço para contar nesse breve texto. Ainda com minhas lembranças, alcanço a Teodoro.

Há uma coisa curiosa com essa rua, segundo minha cabeça lógica. Eu vou descê-la, enquanto os carros só sobem, em direção à Avenida Doutor Arnaldo, mas, pelo que apurei, é lá que a rua tem início! Começo a descida pelo meu lado esquerdo, aproveitando para conferir os bares e padarias de esquina, onde sempre tem gente interessante e umas comidas do tipo “arrisque se puder”. Ainda é um tanto cedo, por volta de onze horas, mas a “cerva” e a conversa já estão rolando.    

Como é sábado, o meu passeio de verdade começará na Praça Benedito Calixto, pois é dia de feirinha de coisas antigas. Adoro rodar ali, sem compromisso de compra. Os objetos, os discos, tudo me leva a viagens na memória, que me fazem muito bem. Foi ali que encontrei, há alguns anos, uma sineta de mesa, em forma de camponesa, que me lembrava demais a casa da meus avós, em Santo Amaro da Purificação, na Bahia – terra natal de minha mãe e de Teodoro Sampaio! – lugar de parte da minha infância, pertinho do rio Subaé. Após andar por toda a praça, ouvir as histórias das pessoas que falam como lhe conhecessem há muito, paro na loja de camisetas descoladas – acho que esse termo me envelhece – a Bendita Augusta, na Teodoro mesmo, em frente à praça. Confiro as estampas, hesito em almoçar no Consulado Mineiro, ainda sem fila de espera, na mesma praça. Decido por cumprir logo minha missão. Almoçarei depois.

Atravesso de volta e agora subo a rua, em minha turnê musical. Vou pelo lado esquerdo dos carros, até a Basscenter, na esquina com a Cristiano Viana, a minha loja de instrumentos preferida, por causa dos baixos, claro. Passo lá uma meia hora, de olho nas novidades, conversando e até me arrisco tocando. Diversão garantida. Saio correndo, antes de cometer a loucura de comprar algo. Volto a atravessar para o lado direito e agora, após cruzar a Cristiano, entro na Free Note, meca das publicações de música da Teodoro, fico fuçando livros, filmes, partituras etc. Na sequência, vou à Yashi Cabos, para ver os preços dos acessórios, como cabos, plugues etc. Agora, estou bem perto do meu destino final, que fica na Galeria Musical. Antes, porém, entro na Made in Brazil, a maior loja de instrumentos musicais da rua. Apuro modelos, preços, promoções e fico ali à espera de algum músico famoso dar as caras, algo não raro.

Enfim, chego à Galeria, com suas várias luterias e lojas de instrumentos musicais, um verdadeiro parque de diversões. É lá que fica a melhor pequena loja de discos de São Paulo: a Pop’s! Deve ter pouco mais de dez metros quadrados, mas é endereço obrigatório para quem quer achar aquela raridade ou mesmo uma promoção legal. Atendimento de gente que entende. Cumprimento Dona Regina, que já se acostumou a me ver por lá. Entendo que posso deixar meu disco lá, em consignação. Massa! Acerto o preço de venda, deixo umas cópias e saio com alguns discos novos, claro. Dali vou para o Consulado, ao almoço que me prometi. A rua Teodoro Sampaio é a “minha melhor Sampa” e, enquanto chamo o garçom para o primeiro chope, penso que fecharei o dia com estilo, me achando, com a sensação de agora fazer parte da história da rua!

Américo Paim

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