Viagem perdida

Uma, duas, três passadas. Respira, inspira e suspira. O sol das 17h ainda é suficiente para queimar o braço do garotinho que passeia com as avós. Ou ainda, fazer brilhar a pele preta da moça com roupa colorida e jeito de Serena Willians. Famílias se espalham no gramado, nos bancos e até na pista de skate. É final de tarde na praça Vinicius de Moraes. Mas há quem pareça ter acabado de acordar. E também aqueles que já estão no pique. Gente nova e velha. Homens e mulheres. Esportistas com corpos a mostra. Sedentários arrastados por uma mãe insistente ou um amigo bom de papo. Maconheiros que só querem queimar um ao ar livre. Diversidade que termina quando o filtro é de classe. Estamos falando da região do Morumbi. A vizinhança inclui o Palácio dos Bandeirantes, o estádio que leva o nome do bairro e a Rede Bandeirantes de Televisão, para ficar em três exemplos. Então, por aproximação, preconceito ou relativo conhecimento de causa, arrisco dizer que o público transita entre o cidadãos de bem, hipsters endinheirados, gente fitness ou good vibes em geral. Não chega a ser a gente diferenciada de Higienópolis, mas com as antenas ligadas e olhos atentos se nota alguma semelhança.

            Enquanto viajo e especulo que tipo de pessoas me cercam, acabo me lembrando o motivo de ter parado ali. Eu moro na zona sul e não tenho muita relação com a região, embora tenha trabalhado por ali durante alguns anos. Nesse emprego conheci o Nivaldo. Sujeito gente fina e excelente profissional. Nos tempos em que labutávamos juntos, deixei um Murakami meu com ele.  Acontece que dias atrás falei do referido livro ao Lucas, outro brother meu, e prometi que o emprestaria. Daí precisaria passar na empresa e apanhá-lo com o colega. Aproveitando o ensejo, achei por bem ver como as coisas andavam no lugar em que tanto me exercitei após o expediente. Concluo que mudou pouquíssimo. Seus frequentadores seguem tendo medo da proximidade com paraisólipolis. Dos assaltos no ladeirão. E raiva das manifestações que movimentos sociais realizam nas proximidades de onde hoje despacha um suposto governador. Percebo por minha próprias palavras que não tenho lá muita simpatia por esse pessoal. E o cheiro de nostalgia do começo já se transforma em algo azedo, ou melhor, mofado.

Abandono o recinto e me dirijo ao encontro de meu objeto. O Nivas, como costumam chama-lo, deixaria o glorioso “Kafka à beira-mar” na portaria. Depois de andar pela Giovani Gronchi, entro na Carlos Cyrillo Júnior, cruzo a João de Pietro e chego ao meu destino. Cumprimento Carlinhos e Carmen, funcionários desde a época em que trabalhava por ali. Falo do livro. E ela coloca no balcão. Pergunto se posso usar o banheiro. Sou liberado. Vou e volto. Agradeço. Arranco o celular do bolso e chamo um uber. Um Sandero prata encosta ali. Falo tchau para os recepcionistas.

Daniel? Isso. Boa noite. Diego né ? Sim. Avenida Doutor Arnaldo? Exato. Silêncio. Abro o twitter e acabo me distraindo. Quando percebo, o motorista já faz um caminho mais longo. Ignoro. Estamos na Oscar Americano. Homens e mulheres de branco atravessam na faixa.A emergência do Hospital São Luiz parece mais movimentada que o habitual. Entramos na Tajurás e superamos a ponte cidade jardim. O cheiro do rio pinheiros diz oi ao meu olfato. Apesar do horário e do escuro, vejo pessoas correndo dentro e fora do parque do povo. Volto ao celular. Instagram. Twitter. E-mail. Tenho a sensação de que esqueci de fazer algo importante. Paciência, amanhã eu resolvo. Só agora reparo no som. Baixinho. Um raça negra dos mais antigos. Estamos na Faria Lima. Sem faria limers até parece algo aceitável. Nada de trânsito. Um ou outro de patinete. Um ou outro de bicicleta. Lojas fechadas. Pouco movimento. Moradores de rua debaixo da marquise. Garotos revirando lixos. Outros fazendo malabarismo. O carro avança. Clube Pinheiros, Shopping Iguatemi, duas lojas do Mac Donalds. Postos de gasolina. Pontos de ônibus. Nos aproximamos do largo da batata e entramos na Teodoro Sampaio. Subindo de quarteirão em quarteirão. Pouca iluminação. Clima um pouco decadente. Alguma vida nas travessas. Bares, restaurantes, um ou outro estúdio de música. Lojas fechadas, botecos próximos disso. Volto ao celular. Confiro o jogo do Santos. Fora de casa contra o Fortaleza lá no Ceará.  Precisa ganhar. Vai ganhar. É obrigação. Talvez não seja. Sei lá.  Já estamos na esquina do Degas. Saudades daquele parmegiana. Pena que hoje custa um absurdo. Passamos pelo California e as mesmas caras de 5 anos atrás continuam fazendo o atendimento. Cruzamos a Oscar freire. Farol da Teodoro com a Doutor Arnaldo. Abre o sinal.  Estamos chegando. Trânsito um pouco maior que o normal. Olho para a minha direita. Túmulos gigantescos superam em altura os muros do cemitério da consolação. Variedade de modelos salta aos olhos. O motorista pergunta se eu quero dar a volta. Digo que não precisa. Salto do carro. Atravesso a rua e chego ao Vivos. Sim, o bar chama Vivos e fica em frente ao cemitério. Talvez Ary Toledo tenha participação nisso.  Mas beleza, hoje não vou falar mal deste misto de restaurante, bar e karaoke. Não vou falar do clima fim de festa, do banheiro todo gorfado e das bebidas de gosto duvidoso. Dei todo esse rolê por um motivo e não vou desistir só por lembrar o óbvio. Pelo menos o Lucas vai ficar feliz pelo livro.

Antes mesmo de avistar meus amigos, Evidências me alcança. Aí já demais pra mim. Deviam proibir de tocá-la antes das 3 horas da manhã. Ou, ao contrário do que eu fiz no texto inteiro, talvez eu precise parar de julgar um pouco. Parar de pensar no passado ou pensar no futuro. Viver o hoje. É mesmo. O que eu vim fazer aqui? Eita, esqueci o livro.

Respira, inspira e suspira.

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