
O sol deixa tudo laranja, cinza, confuso, enquanto Patti Smith toca no talo. Se você já andou de ônibus em Manaus, e não apenas isso, se já andou no 608 saindo do Petrópolis através das ladeiras, sabe que a potência dos fones não é o suficiente para sufocar a trepidação dos vidros e a batida no motor. Por sorte, estas combinam com Horses e me levam a versos que rabisco no celular: Ajoelho-me perante/ a rouquidão que energiza/ e eviscera ao limite – /Poderiam chamar-me / Patti Smith.
A espera de quase uma hora pelo ônibus me recorda que tenho CNH há 12 anos, mas não dirijo. No Petrópolis, é perigoso disputar espaço com psicopatas da Uber, pais em fila dupla para buscar os gordinhos na porta do Colégio Militar e mulheres que insistem em guiar sedans 2012 com adesivos do Aliança pelo Brasil. Há muito delivery de drogas também. Nas motos sem escapamento, pequenos traficantes são atraídos como mariposas pelos pontos cegos dos retrovisores dos carros. Um bairro pobre, que odeia moventes em geral, desfila enquanto o motora encara as curvas.
Enfim, a paisagem muda: das casas lodentas com cachorros chamados Duque no Petrópolis para a Cachoeirinha, bairro que sempre vi como um potencial desperdiçado. Com o passar das décadas, as vias largas, com quadras planejadas e proximidade com pontos-chave da cidade, incluindo o meu destino, o Centro, tornaram-se o maior buraco de rua com um asilo dentro nas Américas. Por acaso ou não, Patti decreta:This dead city / Longs to be livin’!
A Cachoeirinha é uma faixa transitória cheia de melancolia, com igrejas católicas, vovôs quase cegos que cortam cabelo a sete reais e vendinhas de pastel + suco nos finais de semana. Na sexta à noite, o fantasma da feira parece meio montado, meio desmontado, enquanto curumins remelentos correm entre as lonas, ambos encardidos. Rabisco mais uns versos: Pés compõem batidas/ do tamanho do coração/ no tampo do ônibus/ que fatia a cidade/ com teu id.
O Terminal 2 faz desaparecer quase todos os passageiros. Os arrumados descem e seguem para o culto (a pista é a Bíblia suada à vista). Já os desgrenhados vão para casa ver filmes dublados na TNT, dar de papar aos nenés ou o que quer que os mantenha na linha. Ser a única mulher no ônibus dali pra frente é uma promessa de violência que, por sorte, não se cumpre.
Agora, as janelas expõem casarões abandonados que sugerem o passado da cidade. Não aquele passado sanitizado do Largo de São Sebastião, com cara de cartão postal com Teatro Amazonas e Encontro das Águas num conjunto desconexo, mas um no qual o pixo recobre as linhas da arquitetura portuguesa ou holandesa que já abrigaram de barões da borracha a libaneses casados com tikunas amestradas. Eles passam rápido, como num praxinoscópio cuja velocidade ameaça destruir o ônibus. Uma barata entra voando e dança um pouco até sair pelo alçapão.
O Centro de Manaus, longe de representar o ápice de uma metrópole, apresenta, porém, um efeito pungente da globalização: o mix tão absoluto de culturas a ponto de apagar a tudo e todos, um encaixe de fusão e esquecimento. Assim, as marcas dos colonizadores que dizimaram as culturas nativas são, hoje, apenas tela de tags e bombs. Dane-se quem eles eram, o que fizeram, a luz elétrica e os bondes. Ninguém precisava dessa droga mesmo aqui.
O destino final se aproxima, mas há tempo para uma última nota: em tuas mãos/ sou Arthur Rimbaud/ a caminho do Basquiat/ rabiscando belas promessas/ que juntos podemos burlar. Guardo o smartphone e avalio, ainda no ônibus, o caráter crítico da descida na Epaminondas, bem na esquina do Bar da Praça, alocado em cima de um cemitério indígena.
A confluência de traficantes ali já fez aquele ponto ser o mais próximo de um faroeste da vida real que o Centro teve em muito tempo. Depois virou um point de jovens descolados que falam “litrão”, “ranço” e “berro” e amam a tríade Losing my religion/Like a Stone/Mulher de fases, tocada em todo bar “de rock” dessa cidade-limbo. Os constantes tiroteios entre gangues rivais levaram, de início, à suposição de se tratarem de ataques contra a comunidade LGBT da área, mas a realidade se mostrou menos complexa: dinheiro, pó e poder esvaziaram a praça e tornaram o entorno, incluindo a parada onde eu desceria, numa festa que tinha acabado mal. Acendo meu cigarro e sigo sem a companhia de Patti – é perigoso demais andar com fones ali.
A travessia se cumpre em segurança até o Basquiat. Ali reúnem-se grafiteiros, fanchas e pocs, professores, o povo do teatro, uns escritores ditos marginais, sempre com seus zines úmidos, e seus coadjuvantes. Como de praxe, Because the night toca ao fundo. Aceno ao garçom, que me reconhece e de pronto lança: “Cadê, amore?”. Saco o “Devoção” da bolsa, novinho, a capa prata e rosa só com uns riscos leves, e passo por baixo da mesa. “Três Antártica”, ele decreta, me estendendo as fichas de cerveja enquanto entrego o livro numa transação escusa. A noite está apenas começando.
