O sol já está alto em Florianópolis. É o pior horário pra sair de casa. Como tenho pressa, nem me arrumo direito. Faço um rabo de cavalo desajeitado e desço as escadas sem nem piscar. Ao chegar à rua, vejo que o pipoqueiro está a postos aguardando a saída das crianças do colégio. Pra não perder a oportunidade de vender seus quitutes, ele é pontual, bem diferente de mim. A rua ainda está silenciosa, sem os gritos infantis e os carros dos pais.
Viro a esquina e reparo que o totem que indica a radiação ultravioleta alerta pro nível extremo. O assunto é tão sério que as previsões do tempo incluem a medição dos raios UV. Maior incidência de câncer de pele do país e fina camada de ozônio não são motivos suficientes pra eu me lembrar de passar o protetor solar antes de ir pra rua. Assim, meu caminho é definido pela posição do sol e das sombras. Busco cada centímetro sob a proteção de marquises e árvores.
O calor me faz suar bastante. Não tem nenhum resquício de brisa. Justo hoje que eu precisava do potente “vento suli”. Quando chega vindo da Antártida, assobia entre as frestas das esquadrias, quebra os vidros das janelas, derruba a temperatura e anuncia boa pescaria. Nos dias inspirados, fica difícil até de caminhar.
Sem vento, o que me resta é concentração pra conseguir correr nas calçadas esburacadas e desniveladas sem me machucar. Quase chegando ao destino, acesso o calçadão recém-reformado. Desacelero pra aproveitar melhor as fartas sombras e o caminho plano. O chão fica coberto de folhas e flores, formando um manto colorido por onde passam os meninos de skate, os entregadores de bike e os executivos. Nas mesinhas de concreto, ficam os idosos, que passam o dia observando o movimento e jogando dominó. Embaixo deles, sempre tem alguma bucica, ou melhor dizendo, algum cachorro descansando.
De longe, já vejo meu trabalho. O prédio, uma corte de justiça, tem um aspecto opressor. É chamado de radiador por causa da forma retangular e faz parte do conjunto brutalista mais bonito do mundo. É o que dizem os arquitetos especialistas no assunto. Junto a ele, estão uma praça quase sem árvores, desfrutada por moradores de rua, e o fórum, conhecido como marmitão por ser um prédio alto, redondo e espelhado, talvez o mais famoso da cidade.
O movimento de pessoas é grande nos 14 andares do radiador. De concreto aparente, a arquitetura é fria e sisuda. Mesmo no verão, a temperatura não esquenta lá dentro. A parede cinza da fachada fica branca com a luz solar, refletindo qualquer tentativa de aquecimento. Difícil penetrar os poros do concreto. Certeza que ali não passa nada de ultravioleta.
Entro esbaforida no radiador e passo pelo hall imponente com pé direito alto, lustres e piso marrom de alguma pedra nobre. Encontro meu chefe em sua sala simples e olho para o Jesus crucificado pregado na parede. Sem hesitar, entrego minha carta de demissão. Deixo de sentir o peso brutal nos ombros. Ao sair, não tenho mais pressa e penso nas 42 praias da ilha. O cabelo continua desajeitado, mas agora me lembro de passar o protetor solar no rosto.
