São oito horas da noite e às nove o Guilherme, meu sobrinho, precisa estar de volta ao hotel em que está hospedada a família, pois amanhã cedo vão a um passeio de barco nos corais. É a primeira vez que recebo parentes em Porto Seguro, então estou ansioso. Desde que o Guilherme nasceu, eu idealizo que seremos amigos. Ele sempre gostou muito de mim, sei que sou seu tio preferido, mas não nos vemos há meses. Por isso, tomo a iniciativa de apresentar-lhe a Passarela do Álcool, que é um lugar cheio de gente e eu imagino que os meninos da idade dele gostam disso.
Mas logo no início do trajeto, diante das barracas de chaveiros e demais souvenires enfeitados com frases bíblicas ou com miniaturas de berimbau, tudo três por dez, e das lojas de roupas de verão e cangas com temas indianos ou com as fitinhas do Bonfim estampadas, Guilherme coloca seus fones de ouvido e começa a cantar uma música que eu não reconheço. De vez em quando olha pra mim e sorri, mas percebo que não está a fim de papo. Eu me sinto voltando no tempo, como se eu fosse aquele pai – o meu – que obrigava o filho a acompanhá-lo, aos domingos, nas feiras de fósseis e minerais diversos, de colchas de fuxico e malhas de tricô, de flores de plástico e cachepôs de papel machê. Ambientes impróprios para adolescentes.
Mas sei que o melhor da Passarela está mais adiante. Em uma das barracas de artesanato, vislumbro a possibilidade de interação quando vejo um chapéu parecido com o do Indiana Jones só que feito com folhas de coqueiro trançadas. Pergunto ao meu sobrinho se ele quer de presente. Ele franze as sobrancelhas e balança a cabeça negativamente, mas mesmo assim eu coloco o chapéu em sua cabeça e digo para tirarmos uma foto. Guilherme fica envergonhado. Sem saber o que fazer ou dizer, compro o chapéu e me convenço de que ele poderá ser útil algum dia.
Andamos mais um pouco até chegar a um largo onde estão as tendas que vendem acarajé e que levam os nomes de suas donas – Sandra, Vera, Jaque, Odete. Esta seção representa o que os casais de meia idade da CVC buscam na Bahia: mulheres que tem nomes de vó ou apelidos populares vestidas de branco, oferecendo seus quitutes, seus sorrisos e sua simpatia. No ar, o cheiro do óleo de dendê. Vera me prepara um acarajé bem apimentado e logo eu começo a suar. Guilherme diz que não gosta de coisas ardidas e antes que eu pudesse lhe dizer algo sobre esse assunto, uma parte do caruru escorre de um lado do bolinho, uma parte do vatapá do outro, e tudo para a minha minha mão e daí para o chão levando junto alguns camarões secos. A mão engordurada e a gororoba no chão me fazem passar vergonha.
Ainda não recuperado da cena, chegamos às barracas das batidas com nomes pornográficos, as mais famosas da Passarela, onde renasce a esperança de conseguir conquistar meu sobrinho. A mistura de frutas, leite condensado e xaropes diversos é irresistível. Talvez um pouquinho de álcool para selar nossa cumplicidade. O vendedor nos interpela no meio da calçada, oferece uma bebida chamada “xoxota da índia” e nos estende um copo com uma amostra grátis. Eu quero pedir um “capeta” e dispenso a “xoxota”, mas há um mal entendido nessa recusa e o vendedor entende que deve me oferecer, então, a “piroca do índio”. Fico constrangido com a intromissão mas meu sobrinho cai na gargalhada e me confessa, como quem diz qual sua cor preferida, que sabe que eu sou gay e quer uma “xoxota” mesmo. Sem álcool.
Chegamos ao hotel. Minha irmã agradece pela iniciativa de mostrar a cidade para o Guilherme. Eu digo que ele foi um bom companheiro e que estou à disposição caso ele queria repetir a dose. No táxi, a caminho de casa, toca um sucesso da Banda Eva no rádio e eu acho graça porque sei toda a letra de cor. Me sinto bem mais velho do que uma hora atrás.
