Teoria do elevador

Maringá, quarentena do Covid, 23º dia. Subo a Avenida Tuiuti, principal avenida do bairro onde moro, em direção ao Centro, onde mora a minha mãe. As janelas do carro seguem fechadas, tal qual o comércio, mas há pessoas nas ruas, desorientadas, como camundongos esquecidos em uma bizarra experiência. Os maringaenses (eu, inclusive) são teimosos. Ao meu lado, no banco do passageiro, viajam dois potes (tapoé, tapauer) e um pano de prato, os quais estou indo devolver. Existem apenas dois tipos de pessoas no mundo: as que devolvem potes (teipuer, taper-uér) e as que não os devolvem. A estas está reservado um círculo específico do inferno.

Sempre fui o que eles chamam (em Curitiba, capital do nosso estado sem personalidade) de um piá de prédio. Fui criança no Centro, brincava somente pra dentro, proibido de sair, inventando estripulias nem sempre adequadas ao chamado parquinho, local sagrado da infância, onde os amigos se reuniam e a mágica acontecia. Nunca joguei bets na rua onde morava, em razão da certeza de que seria atropelado, como um russo dando golpe no seguro.

De modo que não pensei que me adaptaria tão bem e rápido à vida do bairro. A criança do centro virou um adulto suburbano. Por ter crescido num prédio, achei que jamais teria a tranquilidade necessária para morar numa casa. Eu tinha medo de bandido (de polícia, de cachorro e de dentista). Mas a verdade é que hoje em dia tenho dormido muito bem, obrigado. Sou amigo dos vizinhos aposentados, que passam o dia de olho na rua, tricotando. Comprei uma chinela de brasileiro e uma camisa do América/RJ. Seguindo a odisseia de volta ao Centro, aviso aos passageiros que vou mudar de leve o trajeto, pra passar na frente dos bares, locais sagrados de agora, grandes responsáveis pelo sucesso da minha adaptação ao subúrbio: o Ponce, o Mineiro, o Asa Branca, o Senadinho. Não há nada como um boteco de vila, esses grandes hospitais da alma. Um por um, os encontro fechados. Fico feliz de que estejam respeitando as orientações de isolamento, mas, ainda assim, sinto-me numa espécie de cortejo fúnebre de apenas um integrante, um velório drive-thru.

Chego ao prédio de minha mãe, comovido como o diabo. Um dos únicos lugares em que ainda preciso tomar o elevador. Há três vizinhos aguardando, conversando com Seu Álvaro, o porteiro. Lembro-me da teoria que um amigo criou na última vez em que estivemos juntos no Mineiro, antes do lockdown: em Maringá, considerando-se o resultado das últimas eleições presidenciais, a estatística diz que, se você não votou na azêmola que acabou vencendo o pleito, e entra num elevador com outras três pessoas, provavelmente estará trancado num espaço minúsculo junto com três bolsonaristas. Aviso que vou esperar o próximo, pra subir sozinho. Finjo que é por conta do novo vírus.

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