Tenho respeitado as orientações de isolamento social (e desejo que todos o façam), mas devo reconhecer que os passeios diários com as cachorras (ênfase no “com”, pois o momento é também para mim um passeio, não só para elas) e as idas esporádicas ao supermercado não conseguem saciar minha vontade de sair. Então pensei que a receita oftalmológica seria uma boa desculpa para “furar” a quarentena. Ainda mais para um míope, com prescrição de novos óculos feita há uns dois meses. Eu poderia alegar que não estava enxergando direito, que o trabalho estava difícil, que precisava disso para continuar vendo minimamente o que acontece no mundo. Alegação perfeita para dobrar a resistência da esposa e obter a aprovação do juiz chato, minha própria consciência.
Resolvemos ir de carro, assim manteríamos algum compromisso com a quarentena. Pegamos a Hayel Bon Faker e subimos, rumo ao centro. Impressionante: um dia normal, todas as lojas abertas e grande movimento nas calçadas. Havia até congestionamento, um verdadeiro acontecimento para os padrões de Dourados, que não vem a ser uma cidade lá muito grande. Parecia mesmo uma véspera da Páscoa, o que era de fato, sem qualquer indício que deixasse que claro que estávamos bem no meio de uma pandemia.
Incomodado com aquilo, achei melhor deixar a ideia da incursão oftalmológica para lá, afinal de que adiantariam óculos novos se eu fosse contaminado pela COVID-19 e morresse? Melhor manter os óculos velhos, por enquanto…
Sem termos saído do carro, decidimos resolver outro problema, esse sim essencial, o do suprimento de secos e molhados lá de casa. Pegamos a Marcelino, depois a Weimar e pouco depois chegamos ao Assaí. No caminho, fiquei pensando em algo que continua a me intrigar: como as pessoas ainda se dispõem a pagar preço de ouro em ovos de Páscoa? Será uma data tão representativa para tanta gente? Ou será que a explicação está mais na pressão de filhos, afilhados, sobrinhos, netos e assemelhados? Não sei, só sei que então me lembrei que essa seria mais uma Páscoa em que não daria nada a meus sobrinhos.
Na entrada do supermercado, aí sim, algum sinal de que não estávamos em tempos normais: funcionários com máscaras e luvas distribuíam borrifadas de álcool aos que desejavam entrar e faziam a assepsia dos carrinhos. Porém, passada essa (digamos assim) barreira sanitária, lá estava ela, a vida como ela é. Pessoas de todos os tamanhos e feitios, um monte delas, amontoando-se diante da prateleira dos farináceos, tocando-se no setor dos produtos de limpeza, passeando pelos corredores num grande congraçamento pascal e virótico.
E eu ali, assistindo a tudo, parado diante do estande de vinhos, sentindo-me um extra-terrestre, porque um dos poucos clientes a usar máscara, e pensando que, com aqueles preços, meu projeto de substituir as cervejas pelos fermentados de uva teria que ser postergado. Sim, pertenço hoje à categoria das pessoas que reclamam da cerveja (“nossa, como tô estufado”), que dizem que uma latinha é capaz de lhes atrapalhar o sono e que juram que antigamente não era assim. Pois é, estou seguindo à risca o conselho que Nelson Rodrigues deu aos jovens…
Com o sortimento de gêneros de primeira necessidade (e outros nem tanto) garantido para a semana, voltei para casa com uma sensação estranha. Enquanto minha esposa dirigia, eu olhava pela janela e pensava que nada do que via parecia tem a ver com as notícias que tenho lido, ouvido e visto sobre a gravidade da pandemia no mundo todo. Dizem os entendidos, os técnicos e os cientistas, em quem acredito, que algo muito grave se aproxima, mas não o vejo na vida miúda que se desenrola lá fora. São como mundos distintos, até contraditórios. Será que a tragédia que se anuncia não passa de um grande equívoco? Temo que não. Temo pelo que está por vir, pela nossa ignorância arrogante e cabotina e pelo que resultará disso tudo, especialmente para os que podem menos. Sim, porque haverá amanhã e tenho a impressão de que conseguirá ser pior do que hoje.
Já na porta da cozinha, repetimos o que já virou quase que rotina: álcool por tudo e por todos. Entro preocupado com o futuro, sem óculos novos, mas ao menos a cerveja está garantida.
