Américo Paim
Fecha o livro de contos assustadores, que devorou nos últimos cinco dias, e pede um café. Sentado à mesa, na varanda do restaurante, observa o movimento na praia, alguns metros à frente. O vento traz o aroma, na maresia.
Sem muita razão, lhe vem a infância, em Porto Seguro, na praia todo dia. As amendoeiras, os pais na sombra, ele e os amigos pela areia a jogar futebol, entrando todos na água, montados na boia de pneu de caminhão, ao longe os clamores para voltarem para o raso. São suas melhores lembranças de praia. Há uma beleza de pintura de artista na longa faixa de areia, na curva ao longe, com coqueiros à vontade naquele contorno e o mar dominando tudo, a sumir no horizonte. Apesar de clichê, esse é um cenário de calma, de harmonia e sossego perfeitos para ele.
Quando chega o café, ele mergulha em mais recordações daquele cenário.
Também foi em uma dessas praias, mas no Rio de Janeiro, que ele viveu uma história que só na Sétima Arte. Uma noite de amor imprevista, que começou na praia, deserta àquela hora da madrugada, mas que logo foi transferida para dentro do seu carro! Começou uma tempestade e foi a melhor solução no momento. Como a chuva não cedeu, acabaram dormindo no carro mesmo. Uma noite para sempre. Quem diria que aquela menina depois viraria uma celebridade? Um sorriso se desenha no seu rosto. Quase pode ver de novo a moça ali, na sua frente.
Volta ao café, que bebe com prazer, e resolve checar as notícias no celular. Como era de esperar, só se fala no crime passional da noite anterior, ocorrido pertinho do hotel onde está. Quanto mais ele lê sobre o fato, mais fica curioso, chocado com a violência aplicada pelo assassino, ainda foragido. Desde o tempo das rodadas de jogo “Detetive” na adolescência ou por causa da leitura voraz dos casos de Hercule Poirot e Sherlock Holmes, sempre entendeu que os métodos dos criminosos eram verdadeiras obras de engenharia, com muito planejamento e cuidados para não deixar pistas. Seu método preferido, se é possível falar assim, era o envenenamento. Limpo, silencioso e à distância. Não, ele nunca matou ninguém, mas achava que assim seria sua escolha, se o fizesse. Nunca mataria alguém por achar que a dor que fica no criminoso o torturará por toda a vida que tenha depois. Uma espécie de pena de morte em vida. Ele entende que os motivos para aquele ato desesperado não podem ser maiores que a perspectiva de tal dor. Uma dor mais que física. Bebe o último gole do café, contempla o mar. Paga a conta, mas antes de levantar-se para ir embora, não contém o pensamento: será que o criminoso está aqui, misturado ao povo, à espreita, como um Hanibbal Lecter? Balança a cabeça, sorri sem jeito e conclui que leu contos demais.
