Por Tainá
É domingo de outono na cidade de Milão. O ano é 2004 e a “Corso Como” ainda não é a rua badalada que vemos hoje, cheia de restaurantes e cafés. Um silêncio inunda a cidade dourada pela luz difusa da estação. Estou há quase um ano longe da minha família, namorado e amigos e nada me me deixa mais melancólica do que as ruas inabitadas do famigerado dia de descanso. Os italianos adoram se reunir com os seus em encontros dominicais, o que deixa tudo mais difícil para os exilados do afeto. Divido um pequeno apartamento com uma americana, uma dinamarquesa e uma finlandesa. A penúltima me trata como um bicho exótico por ter vindo dos trópicos. Algo em sua fala comigo deixa sempre implícito estar lidando com alguém que jamais teve acesso à cultura ocidental. É certo que ela me vê como uma selvagem, no sentido mais pejorativo da palavra. Com certa piedade esnobe um dia me disse o quão sortuda eu era em dividir apartamento com pessoas de países ricos, pois a lógica era estar no outro flat, o das meninas do leste europeu. Tudo isso por causa de um punhadim de granola surrupiado no café da manhã.
Tá certo que o dinheiro é curto e que preciso viver com os cinquenta euros semanais que a agência oferece em adiantamento de uma impagável dívida que se acumula desde a passagem aérea, aluguel cobrado por eles mesmos e material de divulgação que imprimem cada vez que o saldo dos trabalhos que faço começa a ficar positivo. Você trabalha de graça ou no máximo pelo pão que nem pode comer porque o seu ganha-pão depende de você não comer pão. Sacou? Dois centímetros a mais de cintura e tchau cinqüenta euros da semana. É, eu tou fodida. E perdida também. O GPS ainda não foi inventado e toda vez que preciso ir a algum teste acabo me enrolando nas ruas caleidoscópicas da cidade. Mas ainda prefiro me perder com gente na rua do que essa pasmaceira toda. Nada é pior do que o dia de descanso do santo senhor, o dia em que ninguém trabalha em Milão. Macarronadas gigantescas cheirando a manjericão são servidas no centro da mesa por matriarcas de colos amorosos. Abraços, molho de tomate, vinho, gestos largos, futebol, Berlusconi, o preço das coisas. É o que escuto pelas janelas quando resolvo dar uma volta na rua. O trajeto é sempre o mesmo, bem como o disco e o destino. Não, não é o Castelo Sforzesco onde semana passada eu entrei de costas pra não pagar. Sério, eu fiz isso. Meu pai sempre contava uma piada infame sobre entrar de costas nos lugares para parecer que você estava saindo ao invés de entrar e, sem nada pra fazer, resolvi testar. Deu certo. O caminho até o Castelo eu prefiro fazer dia de semana, por ser menos ermo. Hoje eu vou pro lugar onde me sinto mais acolhida na cidade. Pego a Vialle Pasubio e minha distração quase faz eu ser atropelada pelo tram. A única pessoa na rua me xinga de forma tão veemente que peço desculpas por quase ter morrido.
Sigo pela rua vazia pisando nas folhas secas daquela árvore do outono, a folha da bandeira do Canadá que não sei o nome. Há quase um ano, quando resolvi deixar tudo pra trás em Porto Alegre, achava que qualquer experiência era uma boa experiência, mas hoje já não tenho certeza disso. Percebi logo de cara que a agencia que me trouxe pra cá faz parte de alguma máfia napolitana com direito a chefão de cara esburacada que-fuma-charuto. Todos são de Nápoles e todos os funcionários são da mesma família. Nos finais de semana os motoristas da agencia batem na porta do nosso apartamento impondo que nos arrumemos para ir para área VIP de alguma boate badalada, como a Hollywood ou a Casablanca. Chegando lá nos oferecem bebida de graça desde que fiquemos ali “enfeitando” os cercadinhos de empresários, jogadores de futebol e corredores de fórmula 1. Eu, que já tenho 21 anos e sou a mais velha do grupo percebi na primeira vez a cilada. “Não vou fazer parte dessa bosta” disse pra eles uma vez, o que me fez literalmente virar persona non grata. Imagens desconexas da vida noturna milanesa passam pela minha cabeça enquanto eu sigo para a Viealle Pasubio. De lá vou até a Piazza Antonio Baiamonti; na ramificação das linhas do trem dou um giro 360 e não encontro ninguém. Pareço percorrer as artérias de um corpo morto, sem fluxo de qualquer coisa que faça eu sentir que pertenço. Sigo pela Via Cerésio até a grande entrada. É chegada a hora de dar o “play” no pequeno aparelho de MP3 que levo no bolso. Ajeito a roupa, amarro os tênis de corrida e adentro no meu lugar favorito da cidade, o Cementerio Monumentale. Lugar mais lindo não há. O álbum “Funerals” de uma banda nova chamada “Arcade Fire” combina bem com o passeio-corrida.
No meu “cooper” desengonçado de nascença corto as estreitas ruas entre túmulos ao som do épico coral de “Wake Up”. Me deparo com esculturas muito variadas, nada parecidas com os anjos e santos de sempre que encontramos no Brasil. Mesmo o cemitério da Consolação em São Paulo, um dos meus favoritos, ainda perde em muito na autenticidade perto desse. Figuras clássicas com a dramaticidade que só os italianos conseguem arrancar do mármore contam a história de um povo que não parece lidar bem com a fatalidade da morte. Dá para imaginar narrativas inteiras a partir das cenas montadas sobre as sepulturas, que muitas vezes contam ou as circunstâncias do óbito ou o sofrimento brutal dos que ficaram. Um soldado caindo após ser atingido no coração, dois amantes deitados lado a lado pela eternidade, o anjo da morte que crava sua implacável espada sobre o mármore que abriga o falecido. Uma família inteira chora debruçada sobre a lapide. Pra não dizer que não há um respiro, obras contemporâneas abstratas dão até um alívio a tanta intensidade. É também o lado “fancy design” dos italianos, penso. Amantes da escultura e da beleza, os italianos não poupam na hora da morte. Uma estátua me chama a atenção pela plasticidade de movimento. Lembro que ainda criança, quando frequentei alguns funerais da família, tinha um prazer mórbido de vagar pelo cemitério calculando o tempo de vida das pessoas ali enterradas. E é claro que esse vício mezzo gótico voltou a aflorar nas minhas corridas dominicais. Me aproximo da cova e vejo que por debaixo da bela moça esculpida jaz uma jovem que viveu exatamente até a minha idade. Uma borboleta amarela sobrevoa o túmulo até pousar na lateral do cabelo da estátua e ali fica batendo as asinhas, como se fosse uma presilha ou algo assim. A gélida Julieta ornada com esse enfeite vivo me arranca uma discreta lagriminha. Mas logo dou risada de mim mesma, um pouco por me achar ridícula e outro pouco pela escorregada clichezenta do roteirista do universo. Decido voltar pra casa e encarar as nórdicas com um pouco mais de coragem. Afinal, essa corrida no domingo sempre me revigora.
