Tadinho

Daniel N. Pereira (proposta: exatidão)

O pé queimava. A pele ardia. Nada disso importava. O negócio era superar a distância entre o guarda-sol da família e o mar. E lá ia eu. Perna curta e cabeça desproporcional. Vocês sempre tiravam sarro de mim. Daquela vez não seria diferente. Não respeitaram a minha primeira vez na praia. Foram anos imaginando como seria esse momento. Quando chego lá, o que me acontece? Na primeira onda já caio de bunda. Levanto e levo uma rasteira. Depois uma piaba. Areia no olho. Na boca. Dentro da sunga. Não tive dúvida. Chamei minha mãe e vi de camarote a bronca. Que momento! Esporro generalizado. Todo mundo com cara de bunda. Chupa! Ser o priminho mais novo tem suas vantagens.

            Vivo pilhado e não sei o motivo. Talvez até desconfie. Trabalho, bebida e ausência de sexo. E de grana. E de vontade de viver. Ligaria para amigos se os tivesse. Para a família se os tolerasse. Opa. Vamos com calma. Acho que temos uma oportunidade aqui. É isso. Bingo. Vou imaginar meus primos se dando mal. Não há nada que me acalme mais que isso. Sempre torcem contra. Minha vez.

            Não. Claro que não me orgulho. Acontece, ué. A carteira lá. O cartão idem. Eu duro. A oportunidade mole. No dia ninguém reclamou, né? Paguei toda a conta e não ouvi nenhum piu. Não escondi nada. Apenas omiti. Segredinho nosso. Somos ou não somos uma família? E outra: a gente já fez tanta coisa escondida. Isso aí não é nada. Esqueçam. É irrelevante, ora bolas. E outra, ele é rico. Aposto que não vai perceber.  Fora que pegar o possante na calada da noite é tranquilo né? Só pensam em si próprios.

            Aquele Santana do tio Renato era perfeito para dormir. Nem sei dizer a razão. O fato é que só de entrar eu já sentia sono. Apaguei muito ali. Não só eu, né. Não tirem seus corpos. Por esse ponto de vista, era melhor não termos pegado sem avisar. Enfim, já tá feito também.  Era só um bate-volta. Cochiladinha rápida e deu. Foi mais que isso. Mas eu não tenho bola de cristal. Parem de me julgar.

            Impossível errar. O método é simples. Antes do jantar, cada um leva uma latinha. Depois outra e outra. Uma dose de vodka pura antes de comer. Mais três latinhas depois. Feito.  Em meia hora estará babando no sofá. A caranga é nossa. Vamos? Vocês nunca querem fazer nada comigo. Já é. Bora.

            Tecnicamente não matei. É sério. Estávamos todos bêbados. Todos. Não tem santo nessa história, tio. Inclusive seus filhos. Foi tudo planejado. A gente só não achava que ia acontecer um troço desses. Sim, eu sei. Mas alguém tinha que dirigir. E eu não nunca podia. O senhor sabe como sempre fui o injustiçado. Tanto é que estou aqui. Preso. Indefeso. Pagando o preço de ter sobrevivido. Enquanto meu primo, não. Faça alguma coisa para me ajudar. Pense no que sua irmã faria.

            Claro que dói. Isso nem é pergunta que se faça. Eu perdi um primo. Mais do que isso. Um amigo. Dói. Bastante. Só não dói mais do que essa desconfiança. Esse julgamento. Parece que nunca está bom. Já pensaram na minha dor alguma vez? Acham que eu não sofro? Só consigo chorar. Que falta faz a minha mãe.

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