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Ao redor de Jorge cantavam e dançavam, de mãos dadas, Teresa, Carla, Joana e todas as mulheres… Jorge chorava entre assustado e feliz como se fosse uma criança ao voltar para casa depois da escola e se deparar com uma festa surpresa. Acordou com o baque do air bag em sua cabeça, que eclodiu do volante quando seu land rover colidiu com a mureta que anunciava o penhasco da serra do mar.
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Entra no mar comigo?, perguntou Judite surgindo como um eclipse diante de Jorge, que pururucava sob o sol na esteira de palhinha. Ela tinha apenas um ano a mais que os 65 dele, disse que era uma viúva muito feliz e o achava bonito. Jorge sorriu e a acompanhou sem dizer palavra. No vai-e-vem das ondas, ele se comoveu ao ver Judite brincando e soltando gritinhos. De volta à areia, sua voz não pôde emitir o elogio que a cabeça formulara e Judite, que nunca hesitava, disse adeus e foi embora.
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Nos últimos anos, Jorge meditou sobre como abandonaria Teresa diversas vezes. Certa madrugada, no auge da vontade, chegou a entrar no carro, depois de esvaziar uma garrafa, mas adormeceu em cima do volante antes de dar a partida. Tomado pelo receio de que Teresa descobrisse seu plano e denunciasse mais uma vez sua covardia, ele enxergou uma saída. A cegueira da obstinação o fez, inclusive, parar de beber. Depois de algumas semanas, inspirado pela ansiedade, talvez fruto da abstinência, Jorge envenenou Teresa. Enquanto assistia, pelo reflexo do espelho, ela virar os olhos e pedir ajuda, ele realizou que há tempos eles já não brigavam mais e uma dúvida surgiu.
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Já se sentia velho quando decidiu dividir o mesmo teto com Teresa. Tinham em comum o medo de um futuro solitário e a carência dos abandonados. Mas Jorge gostava de beber e Teresa se irritava com a bebida do Jorge. Certa noite, Jorge rolou escada abaixo. Quando recuperou a consciência, Teresa lhe disse, entre lágrimas, que a culpa era da bebida, mas Jorge ainda podia sentir as mãos de Teresa lhe empurrando as costas.
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As bodas de prata de Jorge e Carla marcaram o fim do sexo. No lugar do sexo, Jorge rasgava elogios a Carla todas as manhãs e acreditava que assim ela continuaria feliz ao seu lado. Nunca falaram sobre traição, pois sabiam se comunicar apenas com olhares e estes lembravam, de tempos em tempos, o acordo tácito de que a fidelidade era uma medalha que adornava a alma. Certo dia, Jorge acordou e não encontrou Carla. Na mesinha do abajur, uma carta de despedida dizia que ela estava cansada de ouvi-lo gemer, noite após noite, enquanto dormia, os nomes de todas as mulheres que ele conhecia. E antes de assinar, ameaçava: eu ainda sei gemer também.
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A juventude era a época das aventuras e as que mais gostava tinham a ver com sexo. Sua fama cresceu entre as meninas e atingiu também os rapazes, que estabeleciam seus parâmetros com base nas performances de Jorge. Ele atendia a todas e todos. Até que conheceu Joana e nunca mais alcançou a calma que advinha do gozo. Ela se mexia de um jeito diferente e gemia de tal modo que Jorge se considerava enfeitiçado. Foram anos de amores a dois e invejas a mil. Num domingo, Joana perdeu a vida num acidente de carro. Ainda no cemitério, Jorge encontrou Carla, que se proclamou a primeira da fila que novamente se formava.
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Na noite em que se mudou para a casa dos tios no interior, Jorge sonhou que sua mãe morria com uma punhalada no coração. Ela só conseguia visitá-lo uma vês por mês e o tempo demorava a passar. Na estante de memórias de Jorge, se destacava o dia em que sua mãe entrou com ele no mar pela primeira vez e, ao mergulhar, apertou o nariz com o polegar e o indicador, como ele mesmo fazia quando pulava na piscina nas primeiras aulas de natação. Ele queria protege-la por toda a vida.
