ABACATEIRO

QUENTURA

Sérgio vê o mundo de cima. Enxerga tudo do alto das suas pernas de pau. Lá o tempo das coisas é outro. Não aproveita a areia da praia ou a grama do parque. Vive na quentura do asfalto, de onde abre o sorriso para as pessoas paradas no sinal.

GRAVIDADE

A calma chega quando se equilibra nas pernas de pau e o contato com as pessoas passa a ser apenas visual. Alargador nas orelhas, tatuagens no corpo e no rosto e doçura no olhar. Por fora, um casca grossa. Por dentro, ternura. Com suas mímicas, entretém, de longe, quem encontra. E assim Sérgio passa o dia, em silêncio, provocando a gravidade de um outro degrau.  

FELICIDADE

– Tiooooo – grita, de dentro do carro, o menino vestido com o uniforme da escola -, faz bolinha de sabão pra mim! Do alto de seu meio século de vida, Sérgio vê a cena do garoto agitado e revive, num lapso de segundos, o sono restaurador de quando saía do colégio, entrava no Fusca verde do pai e deitava no banco de trás a caminho de casa. Naquela época, o barulho do motor do fuca não o atrapalhava. Apesar do grito do menino, não resiste ao pedido e enche o carro de círculos efêmeros de felicidade.

SILÊNCIO

Quase todo tipo de barulho incomoda Sérgio. Choro do bebê, conversa da comadre, serra do vizinho, latido do cachorro. Quando não está trabalhando, se tranca em casa. Se isola. Se esconde. Em vão. Não consegue calar o silêncio. Os estrondos de sua cabeça são mais altos do que qualquer som.

ABACATEIRO

Sérgio nunca cometeu crime algum, mas de uns tempos pra cá o barulho da redondeza tem despertado a vontade de acabar com os vizinhos. Mudar de casa poderia resolver esse problema. Faz planos de como seria a vida silenciosa. O ímpeto acaba rápido. Logo desiste. E chora. Não cogita a possibilidade de abandonar seu abacateiro, que há oito anos colore o muro cinza no fundo do quintal.

DISTÂNCIA

As pernas de pau elevam Sérgio. Longe do chão, olha para baixo e se dá conta de que, sem pés, fica sem sustentação. A vida é cambaleante. Pela primeira vez, sente as raízes crescerem. A dor pela distância da terra lhe faz mal.

PREGO

Toc toc toc. O prego na madeira. Meses de trabalho metódico. Construção do sonho de uma vida. Dentro de casa. Vinte poltronas já estão no seu lugar. E o pequeno teatro vai tomando forma. Clap clap clap. É tudo que Sérgio quer ouvir.

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