Américo Paim
2ª – Novidade
Quando o Jorge combinou aquela cerva no Biruca’s, Miguel jamais poderia ter imaginado o que viria. Mesa de sempre, o piso troncho com o calço, iluminação pobre, mas a gelada infalível.
– Você já matou alguém? – indagou, logo após o brinde e a dose do santo.
– Tá louco? Tá me estranhando? – devolveu Miguel.
– Sabia que ia ficar “pegar ar” – disse Jorge entre risos – mas, não resisti. Vi uma série americana ontem sobre o tal crime perfeito. O que acha?
– Sei lá… Não funciono assim. Cada papo, velho (pausa). Eu teria que pensar muito. Analisar. Detalhes, motivos, pontos de fuga, álibis. Complexo. Isso é muito novo para mim, mas, seria desafiador, eu digo, pensar a respeito, não me entenda mal.
3ª – Reflexão
Em casa, à noite, a ideia do crime perfeito resistia e algo aconteceu.
Em vez de mergulhar nos detalhes, sua predileção, sua mente curiosa e metódica seguiu outra direção. Haveria dor. Alguém sofreria. Ele pensara em crime com vítima, o que lhe deixou triste, reflexivo. Não seria um simples roubo. Puxar carro? Roubar loja de conveniência? Não. Crime com morte.
Estranho pensar em dor no coração do criminoso, ou seja, ele mesmo!
– Eu sentiria dor? – disse em voz alta. Assustado com o que acabara de falar, olhou à sua volta, com estranha sensação de confissão e percebeu seus batimentos fora de compasso.
4ª – Alegria
Pela manhã, ainda mexido, com sua xícara de café, foi à varanda, por ar mais leve. Chovia, mas era possível ver a praia, vazia naquele horário.
A visão de pitangueiras junto ao calçadão remeteu a Porto Seguro, a seus dias de infância. Primos e amigos correndo livres, a espalhar areia, com a boia de pneu de caminhão, a quebrar as ondas, e os pais: “voltem para o raso!”. Tal lembrança trouxe alívio e o último gole de café. Melhores momentos na praia. Seriam seus amigos felizes? Lembravam dele com carinho? Notou que o coração voltara ao ritmo.
5ª – Suspense
O desafio de urdir o tal crime, não deixava sua mente em paz. À noite, a praia já estava entre os possíveis cenários. Como assim? Um local de tão doce memória se prestaria a tal uso? Pensou sobre a tal inocência que envolve alguns lugares e pessoas e perguntou-se: o que se esconde aí? Imaginou-se pela cidade, nos tais lugares inocentes, perguntando a desavisados sobre podres escondidos. Haveria confissões. Sentiu-se poderoso, condutor de orquestra imaginária.
6ª – Paz
Horas, madrugada adentro, papeis amassados, montou seu plano do crime perfeito. Tudo certo: locais, abordagens, motivo, horários, discursos, rotas. Apenas um exercício, mas parecia tão real. Envergonhou-se por ter orgulho daquilo, mas, no fundo, seu prazer era o pensar. Pensou tudo com tanto cuidado e dedicação, que a tarefa cumprida, ainda que no papel, lhe deixara, enfim, em paz.
Em sua vida, a tranquilidade sempre vinha quando realizava com perfeição o que planejara em minúcias. Ficava calmo, entrava em modo pausa, relaxava e admirava sua obra, mesmo que por pífios minutos. Sabia que, em muito breve, precisaria de novo desafio, como um Sherlock do Conan Doyle. Fechou o dia mandando seu plano para o Jorge.
7ª – Brincadeira
Exultou com os comentários do Jorge, via Whatsapp. O amigo ficara impressionado com aquela arquitetura. A parte do sapato especial na aproximação, o telefonema com sotaque incrível – vítima iludida, o agendamento para o horário que o bairro teria menos movimento, tudo era perfeição, uma sinfonia. Mas, o que encantou o amigo foi o carro. Passar a noite nele, para não chamar a atenção em um deslocamento à luz do dia, lhe pareceu muito lógico, mas trabalhoso e desconfortável. Mal sabia o amigo que Miguel já o fizera algumas vezes, inclusive em uma viagem à Europa, em carro de aluguel, para não pagar hospedagem! De qualquer forma, esse pernoite dava um ar de brincadeira, atenuava o clima pesado da missão.
8ª – Diferente
Voltaram ao mesmo bar e Jorge ainda curioso sobre aquele conjunto de causas e consequências intermináveis para chegar ao suposto crime perfeito. Miguel, orgulhoso e satisfeito, discorreu durante umas cinco cervejas sobre o seu melhor método, a observação meticulosa:
– A consequência tem sempre causa e, dentre essas, a mais provável passará pela cabeça da pessoa envolvida. Funciona. É conhecido como dedução. Observar, projetar, acompanhar e apurar. É um ciclo. Um ritornelo. Volto ao mesmo ponto, mas, quando a ele chego, o vejo um tanto diferente, como fato, não mais plano – contou.
E continuou:
– Um exemplo prático, Jorge. Pela sua expressão de quem não entendeu nada, concluo que sairemos bêbados daqui, pois vai demorar pelo menos mais cinco cervejas para eu lhe explicar outra vez!
