Multiplicidade

quem vamos?
quem vamos?

.

Semelhante ao cubismo nas artes visuais, a implosão da representação monolítica e a abordagem narrativa multifacetada é conceituada por Calvino em sua proposta Multiplicidade – ele usa como metáforas para esta proposta o cristal e a rede, um poliedro de múltiplas facetas; ele entende todo texto como uma parte de uma rede de textos ou ele próprio sendo uma rede. Estamos já nos domínios do pós-modernismo, do hiper-romance, do hiper-texto. Alguns aspectos da multiplicidade de uma narrativa:

• a polifonia;
• o puzzle;
• a interpretação multinível;
• a metalinguagem ou metaficção.

> Na polifonia, observam-se textos que dinamitam uma única perspectiva, buscando ser um carnaval de vozes narradoras. No romance, temos aí títulos como A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan, Três Tristes Tigres, de Cabrera Infante, Os Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño, além, claro, dos grandes romances de Dostoiévski (o conceito de ‘escrita carnavalesca’, significando múltiplas vozes, foi elaborado por Mikhail Bakhtin sobre os livros de Dostoiévski) e, mais recentemente, dos colossais romances de Thomas Pynchon ou de Graça Infinita, de David Foster Wallace.

No conto, temos o exemplo seminal de “Dentro do bosque”, de Ryunosuke Akutagawa, que conta um crime através do olhar de dez personagens diferentes, ou contos como “Lúcia McCartney”, de Rubem Fonseca, em que ele abre possibilidades narrativas para contar o cotidiano de sua protagonista, ou “O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro”, de Sérgio Sant’Anna, que faz um perfil de João Gilberto enquanto narra o processo de composição do conto sobre um concerto que na verdade não existiu.

Ou ainda romances breves feitos de contos ou pequenos textos independentes que se inter-relacionam formando uma narrativa maior, como Fama, do alemão Daniel Kehlmann, Flores, do mexicano Mario Bellatin, ou Laços, do italiano Domenico Starnone.

> O puzzle é a vontade radical de transformar o texto em um jogo tecido por múltiplas narrativas. O Jogo de Amarelinha, de Cortázar; o terceiro capítulo de 2666, de Bolaño, que elenca dezenas de assassinatos de mulheres; o Dicionário Kazar, de Milorad Pávic, que conta mil anos da história da antiga Iugoslávia através de verbetes; ou o romance A Vida Modo de Usar, de Georges Perec, dividido em 99 capítulos que por sua vez relacionam 99 lugares e 99 personagens, ou o romance combinatório Avalovara, de Osman Lins.

Brincando com um conceito enciclopédico, ao transformar a narrativa em índice de verbetes, o ludismo desestrutura a generalidade: busca colecionar eventos, personagens e objetos únicos, transformando a narrativa em listas. Ricardo Ramos também fez isso em seus contos de Circuito Fechado, assim como Bolaño em A Literatura Nazista na América Latina.

> A interpretação multinível faz com que a obra seja aberta a múltiplos significados. Calvino cita a noveleta O Amor Absoluto, de Alfred Jarry, que pode ser lido como 1) a espera de um condenado à morte em sua cela na noite que antecede a execução; 2) o monólogo de um homem que sofre de insônia e meio adormecido sonha que foi condenado à morte; 3) a história de Cristo. Podemos citar também quase toda a obra narrativa de Hilda Hilst e de Guimarães Rosa — neste, em especial os contos de Tutaméia. Para Calvino, o exemplo máximo é o “Jardim de caminhos que se bifurcam”, de Borges, que ao mesmo tempo é um conto de espionagem, um relato lógico-metafísico e a descrição de um enigmático romance chinês.

> Por fim, a metalinguagem, a metaficção e a intertextualidade abrem caminho para a “quebra da quarta parede” (conceito brechtiano em que os atores passam a falar diretamente para a plateia, conscientes que representam personagens), ou seja, demonstra que o texto sabe que é um texto.

Temos aí coisas como os 99 Exercícios de Estilo, de Raymond Queneau, que conta a mesma historieta de quase 100 maneiras diferentes; Se Um Viajante Numa Noite de Inverno, romance de Calvino que junta diversos começos de romances; romances como Bartleby e Cia, de Vila-Matas.

Há também coisas como “Kafka prepara o jantar”, em que Lydia Davis imagina, do ponto de vista do sr. K, um evento que não aconteceu. Há alguns contos de André Sant’Anna, Joca Reiners Terron ou Etgar Keret, em que há uso e abuso da metalinguagem; as paródias de Millôr Fernandes a contos de fadas, pegando o estilo de vários escritores; o conto “O Aleph”, de Borges (in O Aleph, Companhia das Letras), que fala de um objeto que contém todos os objetos, inclusive o próprio autor e o leitor do conto; o conto “O Aleph na rua Rodésia”, de Antonio Prata (in O inferno atrás da pia, Objetiva), que parodia explicitamente o conto de Borges situando-o na Mercearia São Pedro, na Vila Madalena.

Aqui, vamos abordar dois textos bastante diferentes. O primeiro é um conto de Bolaño em A Literatura Nazista na América (Cia das Letras), em que é citado um outro escritor: Rubem Fonseca. O conto é uma espécie de verbete dentro dessa grande enciclopédia de escritores malditos e malvados totalmente inventada por Bolaño em diálogo intertextual com História Universal da Infâmia.

O outro caso é justamente um conto de Rubem Fonseca, em que ele inventa um diário para o escritor Joseph Conrad. Nele, o escritor polonês de língua inglesa confessa a profunda inveja que sente pelo escritor Stephen Crane. Curioso pensar que Fonseca fala através de Conrad, e que Bolaño fala através de Fonseca…

ROBERTO BOLAÑO X RUBEM FONSECA X AMADO COUTO

RUBEM FONSECA X JOSEPH CONRAD X STEPHEN CRANE

 

BOSQUE DE CAMINHOS QUE SE BIFURCAM

Ryonosuke Akutagawa, que foi lido por Borges com muita atenção (foi o argentino quem primeiro apresentou o japonês ao universo hispânico), escreveu seu conto revolucionário no mesmo ano da Semana de 22. Chamado de “Pai do conto japonês”, ele na verdade deu o pontapé inicial no modernismo no Japão, então um país ainda muito fechado ao Ocidente. Sem Akutagawa não haveria Murakami.

Akutagawa propunha aliar o realismo na descrição objetiva do seu tempo à retomada de contos clássicos japoneses, o aprofundamento na psicologia dos personagens e uma abordagem metaliterária. Sofrendo de depressão, matou-se aos 35 anos. O conto abaixo, junto com “Rashômon”, foram adaptados ao cinema por Akira Kurosawa no filme Rashômon.

Revolucionário porque, até então, nenhum escritor ainda havia descrito de modo tão objetivo a mesma ação sob múltiplos pontos de vista diferentes – uma técnica hoje corriqueira no cinema, como se vê nos filmes de ResnaisTarantino e Iñarritu. Akutagawa está mais interessado não na verdade do relato, mas na representação deste relato e em como ele se relaciona com os conceitos de falso e verdadeiro.

PROPOSTA

E é isso o que você vai fazer: um conto que apresente diversos pontos de vista de uma mesma história. Em outras palavras, você irá trazer em seu conto vozes diferentes contando o mesmo fato.

Cada uma das versões será falada na primeira pessoa. Use entre 2 e 5 vozes. Isto é: seu conto será repartido entre vários protagonistas. Assim, o coadjuvante da narrativa 1 poderá ser o protagonista da narrativa 2 e um figurante na narrativa 3, e assim por diante.

Motes:

  • um assédio sexual
  • uma gafe numa festa
  • um erro profissional
  • uma notícia política
  • uma tentativa de homicídio
  • um plágio artístico
  • um fato esportivo
  • uma traição amorosa
  • um diagnóstico médico
  • um episódio sobrenatural

Em uns 5 mil toques (ou mais, mas não muito mais).

Deixe um comentário