Sete por um

“Incrível, como pode, depois da chuva de ontem, esse dia lindo?”, pensou. Apesar da noite mal dormida, ele já havia ido até a loja e alugado todo o equipamento, preocupado então em lembrar das lições do instrutor dizendo o que servia para quê. Havia feito o curso de mergulho em parte por insistência do amigo, em parte, talvez, para fazer algo diferente. Como seria a sensação de estar embaixo d’água por longo tempo? Ele foi o último a subir no barco inflável, preocupado em não fazer besteira mesmo com todo o peso. À indicação do professor, caiu na água e foi afundando aos poucos. Só depois que a respiração se tornou natural é que conseguiu prestar atenção ao redor. De tudo, o que mais havia era silêncio. Silêncio. O melhor de tudo.

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Ele chega e acende a luz da cozinha, toda quieta. Abre o armário e pega a caneca. Junto com ela, um pequeno prato, garfo e faca e uma colherinha. “Dentro do adulto vive uma criança”… frase besta mas que cabia bem à situação, a do velho hábito infantil que foi se prolongando. Da geladeira pega o leite. De outro compartimento, o café solúvel (o de verdade havia acabado bem mais cedo). Coloca tudo sobre a mesa, já com a toalha estendida. Nem chá nem madalenas. Leite com café e bolo de cenoura. Ele agora todo quieto.

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Ele está lá, sempre esteve, tanto quanto possível. Ela também. Arredia, não se mostra inteira, às vezes ele pensa que ela se foi, sente-se até aliviado, “já era tempo”. Engano, na esquina seguinte ela dá sinais, manda recados cifrados, renasce no meio das palavras, na hesitação da voz, na suspeita da ação ou da inação. Algum alívio só depois que desistiu de derrotá-la e, de algum modo, aceitou-a. Uma união minimamente estável.

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Haviam chegado no início da madrugada e encontraram a pousada toda escura. A descida da serra fora tensa, muito carro e chuva, não grossa mas suficiente para atrapalhar a visão. Tinha sido dele a ideia nada brilhante de sair ainda na noite da sexta, ela resistiu mas acabou aceitando. Só havia uns dois carros na garagem. Nenhum sinal de gente acordada, nenhuma campainha, nenhum barulho, só o dos sapos e o do seu caminhar na rua de terra encharcada. Bateu palmas… nada. O jeito era dormir ali, dois silêncios e vários incômodos num só carro. Amanheceu um sol daqueles, um céu limpo e o cheiro de mar.

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“Não é assim. O certo é assim, ó”, disse Chico, mostrando com as mãos. “Tá louco? Tá bêbabo?”, Marcos retrucou, meio rindo, “desse jeito não vai funcionar. Como é não sei, só sei que assim não é”. “Palhaço”, devolveu Chico, incomodado com aquela história de nunca ser levado a sério. “Quer ver? Deixa eu tentar…”, Ricardo foi se metendo, muito seguro e pouco juízo, mas sem resultado algum. “Caramba…”. “Suas bestas… nunca fizeram isso? Dá aqui”, e Elis foi abrindo caminho, pegando o jornal velho, a caixa de fósforo e o carvão. Enquanto os três olhavam, ela conseguiu fazer a coisa funcionar. “Pelo menos a cerveja vocês conseguiram botar para gelar?”.

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Enfim conseguiu encontrar o sal no meio daquela confusão de saquinhos de mostarda, ketchup, açúcar. Um acidente de carro? Ou uma daquelas doenças que surgem do nada? Rasgou o canto do pacotinho e largou o pedacinho de papel sobre o papel-manteiga que fazia as vezes de toalha. Tinha que ser algo sem dor. Melhor ainda que fosse de repente. Sobretudo, que ele não tivesse a ver com aquilo. Mas que seria uma mão na roda, isso seria… Nossa, resolveria uma série de coisas, não haveria discussões, nem disputas para saber que era o mocinho e quem era o bandido, não teria que dar satisfação a ninguém. E sem peso na consciência. Foi quando se deu conta de que precisava voltar logo para o escritório, era fim de mês e tinha que fazer o fechamento das vendas. Engoliu a comida, esquecido do sal aberto.

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Não tenho lembranças, só a cicatriz que ficou no supercílio e umas imagens que devo ter construído a partir do que minha mãe me contou sobre o primeiro tropeço que me fez acertar a laxa de lixo, que na época era de fato lata. Deve ter doido, tal o meu choro. Lembrança mesmo eu tenho do calor que fazia naquele meio-dia em que eu pegava a descida: pisquei e vi o cabo do freio se soltar, pisquei novamente e o vi rumo à roda dianteira, misturando-se aos raios, pisquei e estava deitado no asfalto. Deve ter havido dor, mas a vergonha do tombo foi maior.

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