Américo Paim
Parte do povo da pequena Vila das Mangueiras estava na praça e olhava, muda, a mesa de madeira com a caixa de vidro sobre ela, no topo da coluna chapiscada de cimento. Aflição nos rostos. Onde estava a boneca, símbolo de boa sorte da vila, há muito colocada ali?
– Nossa protetora sumiu! Sinal de má sorte! – ouvia-se.
Dentro do único bar, Josino e Carlito, passageiros do ônibus que pausara a jornada à capital, tomando cerveja, perguntaram ao Mané, que os atendia, o que era aquela bagunça toda.
– A boneca da mangueira sumiu.
– Que história de boneca é essa? – falou Josino, ao ver a tensão em Mané.
– Isso tem uns trinta anos. Eu era menino. Naquela coluna, havia uma placa: “Vila das Cabras”, o nome daqui. Era época de muita seca, há muito não chovia, tudo morria, até a esperança. Uma tardinha, chegou à vila, vinda sabe-se lá de onde, uma mulher nova, bonita, vestida de branco, sozinha, em lombo de burro. Entrou nesse mesmo bar e perguntou onde podia dar água ao animal. Meu pai contava que lhe falou da lagoa, junto a umas mangueiras que sobreviviam por milagre, perto da ponte. Ela foi. Ninguém viu voltar. Horas depois, um morador, ao passar pelo local, viu uma boneca de pano, com vestido branco, montada em um burrico, no topo do tronco da mangueira, em frente à lagoa. Contou no bar. Meu pai e outros foram conferir. Acharam a tal boneca no burrico e guardaram no bar. No dia seguinte, do nada, choveu forte e assim foi por sete dias seguidos. Tudo verdejou. A vila em festa! Lembraram da mulher e da boneca, juntaram uma coisa à outra, mudaram o nome da vila, tiraram a placa e colocaram a boneca e o burrico dentro da caixa de vidro, de onde nunca saiu. Até hoje.
– Interessante. Mas, como a boneca foi parar na árvore?
– Muito foi dito.
– Como assim?
– O povo conhece as histórias. Alguns estão aqui no bar, agora. Aquele é o Vanjo, carroceiro antigo por essas bandas. Conta a história da lagoa, Vanjo.
– De novo?
– Senhor, por favor. Ficamos curiosos.
– Eu passava pela ponte, com muita carga. Por acaso, olhei na direção das mangueiras e vi a mulher no burrico. Curioso, fui ter com ela. Perguntei o que fazia. Silenciou e me pediu que fechasse os olhos e pegasse duas pedras amarelas, que apontou no chão. Peguei e logo ouvi Pretinho relinchar. Virei para a ponte, um instante só. Então, tornei a olhar, mas, tudo tinha sumido e, no tronco da árvore, tinha uma boneca com o burrico! Apavorado, corri de volta à ponte, sem olhar para trás. Foi isso.
– Que história doida. Com todo respeito, acreditaram?
– Foi assim não – gritou a Maria da Feira, de uma mesa no canto.
– Essa é respeitada por aqui – falou Mané, ao pé do ouvido dos visitantes.
– Vou corrigir Vanjo. Eu estava lá, bem mais perto, a colher folhas de chá, como sempre. Perto das mangueiras, ouvi meu nome. Desconheci a voz. Apurei a escuta. Vinha da mangueira em frente à lagoa. Fui lá. Só tinha o burrico. Ouvi a voz de novo. Deu medo. Levantei a cabeça devagar e vi, no tronco da árvore, a mulher, vestida de branco. Ela me olhou quieta e pediu minhas folhas. Meio hipnotizada (como ela sabia meu nome?), lhe dei, sem pensar muito. Saí e me escondi no mato. Queria ver o que ela ia fazer. Foi aí que vi Vanjo chegando. Ele olhou pra cima da árvore, deu um grito e fugiu. Curiosa, voltei lá. Não tinha mais nada, mas fiquei muda, de olho arregalado: no lugar da mulher, a boneca de pano, com vestido branco e um burrico. Fui embora ligeiro. Três dias sem dormir, moço!
– Só fica pior. Quem acreditou nisso, senhora? – riu o Josino.
– É a pura verdade!
– Nem tanto – veio uma voz discreta, da porta do bar.
– Nezinho e a história maluca dele – alguém comentou.
– Quer a verdade, forasteiro?
– Meu amigo, não temos mais nada a perder – retrucou Carlito.
– Eu estava escondido no mato ali perto, de olho nos preás que andavam perto das mangueiras, e vi a mulher no burrico, vinda do lado da ponte. Não me cheguei – ia estragar minha tocaia. Parei de olhar aquilo. Só via a trilha da caça. Depois, atentei de novo. Vanjo e Maria chegaram na árvore ao mesmo tempo, cada um vindo de uma banda. Só tinha o burrico ali. Foi do nada que a mulher apareceu de dentro da lagoa! Eu juro! Aí os dois correram, cada um pra seu canto, aos berros. Não gostei nada daquilo e tratei de sair de fininho, pois podia bem sobrar pra mim. Eles inventaram essas histórias porque ninguém ia acreditar na verdadeira.
– Eles inventaram? Sua história tá forte, né? Alguém pode falar coisa com coisa aqui?
– Eu posso!
Os olhares agora foram para o Sandoval e a risada foi geral.
– Você? Que é isso? Cada garrafa de cachaça sua traz uma história diferente.
– Só porque eu bebo? Naquele dia eu estava quase são.
Mais risadas.
– Conta, velho. Não dá para assustar mais os fregueses – brincou o Mané.
– Cansado do trabalho, fui dar uma volta na lagoa.
– Do trabalho ou da cana? – alguém gritou.
Ele ignorou:
– Cheguei e me aboletei no outro lado da lagoa, num cantinho macio. Deu tempo de ver a mulher e o burrico, mas, logo dormi. Despertei ainda grogue, com um barulho danado – vi Vanjo, Maria e Nezinho, na carreira, aos gritos, longe, junto às mangueiras. Limpei os olhos e vi a mulher de branco. Fui a ela. Perguntei o que tinha acontecido para aquela gritaria. Ela me olhou fundo e disse que precisava de ajuda para subir na árvore com o burrico. Eu cocei a cabeça. Negócio complicado. Que caninha eu tomei? Como eu não falava, mandou me afastar. De uma sacola, tirou um pó brilhante, colorido. Disse umas coisas estranhas e jogou o pó no ar, que fez uma cortina. Fechei os olhos na hora! Quando abri, ela e o burrico ficaram pequenos, feito bonecos. Aí eu pensei: agora tá mais fácil! Peguei os dois, coloquei na árvore e voltei para a vila. Foi isso.
Após uns segundos de silêncio, gargalhada geral no bar.
– Você superou. Desisto. – disse o Carlito.
– Vamos embora sem saber o que houve. O que acha de tudo isso? – disse o Josino, curioso, para o Mané. – O que dizer? O fato é que a mulher esteve aqui no bar e foi para a lagoa. O que aconteceu por lá, ninguém sabe. Agora, olho para aquela caixa de vidro vazia e fico com a sensação de que algo está para acontecer. De novo.
