Jacaré, cães e cavalos

Liu Lage

Pela primeira vez em um mês na fazenda onde cresci em Minas me vejo sozinha em casa e sorrio internamente. Solitude, posso dizer que é uma das coisas que mais sinto falta nesses tempos de corona. Em São Paulo, se não tenho nenhum compromisso importante como aniversário de um amigo, com certeza prefiro ficar sozinha em casa nos dias que minha filha dorme com o pai. Minha filha e o Tutu, o Jack Russel que também é guarda compartilhada. Sim, porque de que adiantaria deixar a filha com o pai e ter que levar o cachorro para passear?

Desde que voltei a morar aqui, acho que já posso dizer isso passados trinta dias de quarentena o futuro parece ser este, tento me forçar a resgatar as lembranças que perdi depois de um grave acidente de carro. Na época eu tinha dezoito anos, nada na cabeça e um carro turbo. Depois de um almoço de domingo, entrei no carro com o meu namorado e pegamos a rodovia em direção a São Paulo via Poços de Caldas. Ao avistar uma cachoeira me distraí e passei para o outro lado da estrada. Um carro, não faço ideia qual, vinha na direção contrária e ao me perceber na pista errada, girei o volante para voltar. Esse foi o meu segundo erro, o carro que estava no sentido oposto teve a mesma ideia e nos chocamos a uma velocidade de oitenta quilômetros por hora cada um.

Hoje acordei com as maritacas histéricas no jardim, o quarto estava completamente escuro, as janelas de madeira no estilo colonial não deixam nenhuma luz entrar. Só é possível saber que amanheceu por causa das diferentes espécies de pássaros cantando. Durante a noite são corujas e curiós e de manhã, maritacas e gralhas. Olho no relógio e são sete horas. Ganhei um relógio biológico, desde que a Lina nasceu acordo no mesmo horário todos os dias, mesmo que vá dormir pouco antes disso. Ótimo. Assim consigo correr antes que ela acorde. Me troco com cuidado e caminho até a varanda da casa. Abrindo a porta vejo as montanhas do outro lado da represa cobertas por uma névoa. Só o topo aparece na paisagem enevoada. Sigo pela estrada de terra batida com a esperança de que, como essa vista, o meu passado se descortine aos poucos.

Aliás, a cada dia que passo aqui com os tios e primos contando as histórias nos almoços fartos de comida mineira, mais eu me percebo desmemoriada e tento traçar estratégias para recuperar essas lembranças. Correr sempre pode ajudar, nem que seja para oxigenar o cérebro ou liberar uma dose de serotonina, essencial nesses tempos de isolamento. Atravesso o aterro que separa a represa de um lado e um pequeno açude do outro me lembrando dos muitos jacarés já vistos nessas águas verdes. Só os olhos e o couro da cauda ficavam de fora. Até que um dia, eu devia ter uns sete anos, o jacaré que estava acostumado a comer os nossos restos do almoço achou mais apetitosa a cachorra filhote de pastor. Na hora do ataque eu estava no quarto dos meus pais, de onde posso ver o açude atrás da casa, e escutei um alvoroço e uns latidos vindo de lá. Quando percebi que era a cachorra sendo devorada pelo jacaré, saí correndo e ao chegar na cozinha, a Teca já estava embaixo da mesa com as patas abertas e vários cortes na barriga. A pastora viveu por mais dezenove anos, já o jacaré virou churrasco e, até pouco tempo, a Lina acreditava que a “roupa” dele estava pendurada na parede do porão enquanto ele dava uma nadada no açude.

Continuo correndo, eu, Tutu e Loba, meus companheiros caninos, e entre os diferentes tons de verde da paisagem e a terra batida da estrada iluminada pelos primeiros raios de sol, me perco no debate consistente e nas ironias maravilhosas do Foro de Teresina. O humor ácido do Fernando de Barros e Silva e a descrença no mundo do Roberto de Toledo são essenciais para digerir o que está acontecendo no mundo e, principalmente, no Brasil nesses tempos. Vou seguindo pela estrada de cascalho paralela à represa até o asfalto e pensando em como tirar o trauma de andar a cavalo da Lina. Na primeira semana que passamos aqui, resolvi dar uma volta a cavalo com ela como eu fazia todas as semanas com o meu pai quando pequena. Nós dois éramos dupla nos enduros pelo interior e andávamos pela fazenda todos os finais de semana, era um ritual. Me lembro de uma situação engraçada. Um dia, num desses passeios, resolvemos entrar na represa com os cavalos e um deles saiu da água com a pata sangrando muito. Meu pai tirou a camisa com a intenção de fazer uma atadura mas, assim que olhou com mais atenção, começou a sentir tontura e me pediu ajuda pra estancar o sangue. Comigo aconteceu o mesmo e ficamos os dois sentados no pasto esperando a pressão voltar ao normal, sem conseguir ajudar o cavalo. Dois imprestáveis passando mal por causa de um inofensivo sangue equino.

Voltando a história do passeio a cavalo com a Lina, no dia eu decidi que já estava na hora de deixar o Pipoca descansar, um pangaré que não trota por nada, e colocar ela em outro cavalo mais esperto. Fomos as duas, ela trotando confiante e eu amando que estava repetindo um ritual familiar. Na volta o cavalo dela disparou e eu, na tentativa de alcança-la e segurar as rédeas, acabei caindo do meu e levei um de coice na perna de brinde. Foi bem assustador ainda assim, apesar da minha perna tremendo, fiz questão de colocar ela de volta em cima do cavalo e de avisar que foi o primeiro de muitos tombos. Eu mesma não saberia dizer quantas vezes já cai e nem por isso deixei de andar uma única vez. Mas, apesar desse teatro todo, não consegui tirar esse trauma da Lina. Uma das coisas que eu já sabia mas que ficou mais evidente nesses tempos de isolamento é que tenho zero conhecimento de psicologia infantil. Assim como também não tenho jeito nenhum como pedagoga. Outro dia, no meio da tarefa da escola da Lina, acabei quebrando um lápis. Depois de algumas tentativas de manter a atenção da criança selvagem que ela é, rodeada de cachorros que ama, desisti de manter o autocontrole namaste e, num acesso de raiva, quebrei o lápis “preferido” dela em dois. Fim da lição.

Nessa quarentena estou me sentindo como se estivesse numa gincana de mãe. Não passei pela prova de alfabetização waldorf caseira e muito menos na prova de psicologia winnicottiana. Hoje, depois de correr, meditar, dar aula para uma criança de seis anos e tentar tirar o trauma do cavalo sem sucesso, resolvi dar uma volta sozinha a cavalo para espairecer. Sigo galopando pela estrada de terra que margeia a represa e fecho os olhos. Eu e o cavalo somos um corpo só no balanço do galope, sinto uma liberdade e confiança absoluta. Nesse momento eu não consigo entender como pode alguém não se sentir segura em cima do cavalo. Abro os olhos concluindo meus devaneios e viro à direita na estrada em direção ao antigo terreiro de café. No começo da subida um cachorro preto enorme sai da moita fazendo o meu cavalo empinar com o susto e eu caio de bunda na terra dura. O segundo tombo da quarentena e mais um de muitos da vida.

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