Por Tainá
Pernas adolescentes perambulam pelo centrinho do balneário. O grupo é de cinco. Daqui a pouco terão que voltar, antes que os pais se embebedem demais. Lia é a única da turma que nunca beijou. Caminham pelos labirintos das ruas estreitas que vão dar no mar. O céu é de uma imensidão assustadora. Cássio beberica uma cerveja grande no gargalo. Se fosse ano passado estariam brincando de rolar nas dunas. Lia toma coragem senta ao seu lado. Os dois permanecem naquele silêncio que estanca o tempo. Lia nunca beijou. Uma gota de cerveja rola do lábio inferior de Cássio para o queixo. Lia nunca beijou. Sente o corpo como se estivesse em banho maria. As estrelas brilham mais do que nunca. Pronto, Lia beijou.
Ânsia, vertigem, fervor. Abraço na areia e o céu inteiro acima deles, minúsculos gigantes. Suspiro, calma profunda. Pára tempo, por favor. O cheiro dele. Delírio. Vamos pro carro? Vamos. Com você, qualquer coisa. Coração na boca. Medo? Foda-se, a vida é agora. Antes uma batida do capeta na barraquinha. Forte. O carro é o único do estacionamento. Meu deus, como ele é lindo. Cabelo que cobre o olho esquerdo. Entram. Ele mal bate a porta e vai logo arrebentando o top de tricot. Tem alguma coisa errada. Suor nas têmporas, veias saltadas. O rosto dele vermelho como o da besta. Não quero assim. Pára. Me solta. Choro abafado pela mão forte. Cássio rasga Lia por dentro. Sangue. Dor. Ele goza e cai pro lado. Ela paralisa. Olhos esbugalhados. Aquele silêncio que estanca o tempo. Uma caneta no console do carro. Ele ofegante, deliciado. Olhos fechados. Antes que perceba já pegou a caneta e cravou na jugular do macho. Grande mira, o sangue jorra. Ele voa no pescoço da menina, que já sem ar enterra a caneta no olho esquerdo, o sempre escondido. A esferográfica perfura o cérebro. Cássio estrebucha enquanto Lia se olha no espelho. Cara suja de sangue. Rosto vermelho como o da besta. Sente a porra dele escorrer quente entre suas pernas. Observa o corpo do menino morto. Pele pintada de bordô, cabelo cobrindo o olho furado. Meu deus, como ele é lindo. Lia abraça Cássio e dorme desejando que o relógio pare de vez e que o sol nunca volte a nascer. As estrelas brilham mais do que nunca.
