Eu não aguentava mais aquela angústia. Estava decidido que colocaria um fim naquilo. E foi aí que, tomado de violenta emoção, peguei um antigo facão de jardinagem, e coloquei dentro da mochila. Abasteci o copo com o resto do Chivas, cerca de 3 dedos e mandei para dentro. Daí para o volante da caminhonete foi um pulo. A parte urbana do trajeto sumiu da minha memória. Passavam das 10 da noite de uma terça-feira em Jales, cidade de pouco mais de 50 mil habitantes e de quase nenhuma movimentação em dias e horários como esse.
O que permanece cravado em mim é a imagem da estrada de terra. Estreita. Esburacada. Escura. Não devo ter cruzado com nenhum carro, já que é um trecho de mão dupla e eu com certeza não teria o senso de proporção necessário para dar passagem. Outra lembrança é do rádio muito alto. “em um quarto de hotel, loucamente apaixonado, eu estou desesperado feito uma estrela sem o céu”. Cantava junto. Cantava não. Berrava. Cego de raiva. Pronto para tomar a decisão mais extrema da minha vida.
Completo o trajeto aos trancos e barrancos. Desligo o motor. Desço. Passo pela cerca de arame liso. Um breu domina a cena. Latidos ao longe. Agora próximos. Silenciam. O mato está alto. À minha direita percebo traves de um antigo campinho. Esboço um sorriso. Costumava me divertir em lugares assim. Eu e meu irmão. Os eternos embates de gol a gol. Lágrimas são derrubadas até cair em mim. Por que fez isso comigo? Com tanta mulher no mundo, justo ela. E por que nesse lugar tão afastado? Volto ao presente e percebo o absurdo da cena. Um pudim de cana em formato de gente. Bota embarreada, calça cheia de carrapicho. Sem camisa e com uma enorme faca na mão. Em um lugar desconhecido. Eu não tenho irmão. Eu não tenho namorada. Olho em minha volta e percebo uma parreira, dois pés de manga, uma horta. E uma luz. O que? Uma luz? Sim, uma luz. Mais próxima. E Próxima. Agora escuto passos. Jesus amado. Toda coragem e ódio passam. Sinto medo. Decido correr. “Parado, filho da puta, vem cá que eu vou de receber na bala! Ladrão desgraçado!” Corro de forma desesperada, mas corro. Cato cavaco, ouço barulho de tiros, dou um pinote na porteira e entro no carro. Dou partida de forma desgovernada e ouço o estalo no vidro traseiro. Agora sinto pedaços dele nas minhas costas. A lataria também parece ser atingida. Acelero sem rumo pela estrada de terra. Não sei por quanto tempo. Apago.
Já deve ser de manhã. Cedo. Bem cedo. O dia não me parece promissor. Antes de abrir os olhos, já escuto vozes que nunca ouvi. O calor insuportável e a ressaca me desejam bom dia. Não que acredito que dormi no carro. No meio do nada. Ouço passos e, na sequência, batidas no vidro. Policiais armados seguem o protocolo: “mão na cabeça, sai bem devagar do carro”. Ninguém vai acreditar em mim.
—
Ah, não é possível. É sério isso, doutor? O senhor jura por Deus que tá falando isso? Eu grito sim. Eu sei, doutor. Eu sei que é você quem manda. Mas o senhor acha justo? Como assim não acha nada? Eu vou gritar sim, isso é um absurdo. Pode me ameaçar do que quiser. Eu sou o que? Um merda. É fácil né, doutor. É simples. Nada muda nesse fim de mundo. É fim mundo sim. Eu duvido que você acredita nessa merda. Pra variar sobra pra quem é mais pobre né? Vitimismo? Eu nem sei o que é isso, doutor. Eu? Sério? Me fazendo de vítima? Se eu tenho alguma coisa pra falar?
Olha, de verdade, eu jamais pensei que passaria por isso na minha vida. Vou. Vou chorar sim. É não é o senhor que vai me impedir. Sabe por quê? Porque o senhor só tá limpando a barra do senhor Wilson Callado. Não tô querendo dizer nada não, eu tô dizendo. Ah vai me prender? Ah vá, que surpresa. Que história complicada de se montar, né? Fácil é acreditar na história que o playboy, drogado, cachaceiro, do filho do juiz contou. Ah, nada como um rabo preso. Se eu quero falar mais alguma coisa? Claro que eu quero.
Vamos lá. Vou começar do começo pra ver se o senhor consegue enxergar. Meu nome é Odair Pereira Santos, jalesense, 52 anos, casado, pai de duas crianças. Trabalho desde os 22 anos na chácara do seu Adevaldo. Sou caseiro, piscineiro, jardineiro, quebra-galho, segurança, planto uva e cuido da horta. Durmo cedo e acordo cedo. Se precisa falar tudo isso? Claro que precisa. Pode não ter valor pra gente como você ou como esse playboy que está desgraçando a minha vida, mas pra mim comprova o essencial: minha honestidade. E isso não tem dinheiro nenhum que compre. E o seu Adevaldo sabe muito bem disso.
Agora, doutor. O senhor realmente acha que eu sairia atirando na estrada nem mais nem menos? Ou será que o senhor pode se colocar pelo menos uma vez no meu lugar? Moro num lugar afastado. Escuto um barulho de uma caminhonete. Saio e vejo que ela está estacionada na frente da porteira. Começo a ouvir passos. E uma voz. Aponto a lanterna e vejo um sujeito que eu nunca vi na vida. Com cara de transtornado, sem camisa e com uma faca na mão. Doutor, eu tenho filhos. Eu tenho mulher. Na hora que eu vi isso só pensei em atirar. E atirei. Uma. Duas. Três vezes. E quis matar sim. Claro que quis. Mas o senhor não acha que faz sentido? Não? Sério? Você vai dizer que o menino é boa gente. Mas tem problemas psicológicos. E com bebida. E com droga. Ah, ele brigou com a namorada? Ah, ele não tem namorada. E qual o sentido disso? Ah, ele brigou com o irmão? Olha que surpresa, ele é filho único. Sério, repita em voz alta isso. O senhor quer acreditar nessa história sem pé nem cabeça. Nisso de … como é que ele disse? Foi mal, eu tava doidão? Jura por Deus? Bom, é isso né? O criminoso sou eu? Tentativa de homicídio? Quer saber? Eu não só queria ter matado esse playboy, como agora quero te matar. Matar a sua família inteira. E todo mundo que te cerca. Quero que durma pensando nisso.
