
O olhar de Tessa é um ataque nessa fotografia. É verde, herança da avó da Nicarágua, diz na entrevista. Passeio pela imagem novamente: a pele contrasta com a bata amarela e roxa, de padronagem adinkra, demarcando o orgulho das raízes de Gana. Já os colares e brincos enormes não querem dizer nada, mas refletem o dourado no colo e têmporas, dando-lhe um ar de estátua de bronze.
A foto pertence ao novo projeto multimídia de Tessa, explica a reportagem. O objetivo de Sankofa é apresentar retratos de força e orgulho de caboclos afrodescendentes com ela em foco, para que “meninas negras amazônidas tenham um reflexo midiático de seus próprios corpos para além de imagens estigmatizadoras e hipersexualizadas”. Olhando o recorte do jornal, não consigo decidir se quero ter ou ser como Tessa. Ela é claramente uma preta raivosa.
– Toma aqui tuas chaves, Lázaro. Você me deve nove reais de Uber. Vê se não sai de carro quando for encher a lata, macho.
– Valeu, Heleninha. Eu tava no vai e vem naquela noite. Desde cedo, altos corres. Levei a carne, a cerveja, busquei aquela galerinha do teatro.
– Ah, sim, os “acaba-rancho”. Aquela moçada come pra caralho!
– Deixa disso. O importante é que todo mundo se divertiu. Foi “a” festa, né?
– Pode crer. Tu viste aqueles dois na piscina? Que putaria! E pra fechar em grande estilo, altos barracos.
– Mana, o que foi aquilo?
– Você não devia ter deixado aquele cara entrar. Maior bad. A Tessa é sem noção. Depois quer pagar de foda.
– Como assim, Helena? Ela ajudou a apartar o lance todo. Se não fosse por ela, o Vicente e aquelas duas tinham se matado lá!
– Bem, ela trouxe aquele cara…
– Ah, para. Os meninos disseram que é tudo invenção. A ex dele é fora da caixinha.
Desço para os créditos da foto e o nome do Vicente está ali. As cores desbotam um pouco, a vista cansa de repente. É sempre assim: uma garota que conhece outra garota, que conhece outra garota, e essa garota tem uma história. Me falaram sobre a ex dele, as agressões físicas e psicológicas, uma suposta medida protetiva, não sei quantos metros de distância. A versão que corre é que trabalhavam na mesma agência de publicidade e isso gerou um impasse que se estendeu ao ponto dela não aguentar e abandonar o emprego. O que veio depois, o de praxe: é uma louca. Toma remédios controlados, montes deles. Gênio difícil. Carente.
Eu me sentei numa mesa com Vicente, semana passada. Foi no aniversário do Lázaro, um puta festão no qual eu cheguei cedo demais porque agora que estou aprendendo como essas coisas funcionam e já estava me sentindo contemplada o suficiente para atentar para esses detalhes. Havia aquela grande mesa repleta de pretos e pretas. Alguns com tranças que iam até a cintura, outros com um black power imenso e as roupas, bem, as roupas eram todas perfeitas: das mais espalhafatosas, que destacavam os corpos jovens das cadeiras de plástico de pés lodentos, às mais sóbrias, que me faziam sentir rodeada de artistas de jazz. No meio deles, Tessa. Ao lado dela, Vicente. Lázaro me apontou uma cadeira ali, talvez na esperança de que uma identificação imediata acontecesse, mas eu era apenas uma semidesconhecida.
– Esse é um Barlow Jack – explicava Vicente, mostrando o canivete às duas únicas brancas da trupe, mais ou menos da minha idade, sentadas à frente dele – É japonês, um pouco oxidado aqui, ó. Mas gosto muito do uso das lâminas duplas. Não é o item mais valioso da minha coleção, mas é o favorito. – ele fecha o parecer com uma golada de cachaça de jambu.
As garotas pareciam hipnotizadas pela destreza de Vicente. Era bonito mesmo, as lâminas indo e vindo na ginga do punho e o brilho da pista de dança improvisada reluzindo no aço. Mas faltava vida nos olhos de Vicente, como se já tivesse feito essa demonstração mil vezes. A única pista de seu pulso era o vermelho-rosa-verde-azul-amarelo piscando de forma epiléptica no rosto pálido. Assim que constatei isso, olhei para Tessa. Ela debatia com os outros pretos da mesa e sua voz ressoava um tom acima das demais. Assuntos sérios. Nossa sobrevivência e dignidade. Ela lançou um olhar para o canivete, que então descansava estrategicamente à vista das garotas, e deu um sorriso de escárnio, quase imperceptível. Mas o desprezo nos olhos de Tessa era do tamanho da Nicarágua, talvez maior.
– Eu não quero saber se a ex dele é doida. Não interessa. O cara tem um B.O, Lázaro!
– Isso é só boato.
– Eu não ligo. Não quero estar onde essa gente está. Na verdade, é isso que eu quero conversar contigo, macho. Você vai acabar se queimando por turite. Cuidado.
– Como assim?
– A mulherada toda sabe por alto essa história do Vicente. Vão achar que você é conivente com isso. O pior não é nem as gatas, mas o trabalho. Você precisa cuidar da imagem do teatro.
– Não, eu quis dizer o que é turite? O que é isso?
– Meu deus, Lázaro, você nunca jogou bolinha de gude? É aquela coisa quando uma bolinha bate na outra e na outra e na outra. Você perde todas as bolinhas! Será que eu tenho que explicar tudo pra esse rapaz, Senhor?!
– Acho que entendi.
– Eu acho bom você ter entendido mesmo. Nada de bom vai sair dali.
[…] INFORMA A NOTICIANTE, QUE NA MADRUGADA DE HOJE, POR VOLTA DAS 3H30, FOI AGREDIDA COM UMA CORONHADA NA CABEÇA PELO COMPANHEIRO VICENTE MACHADO DOS ANJOS, COM QUEM RESIDE; QUE A NOTICIANTE PERGUNTOU O MOTIVO DA AGRESSÃO, A QUAL ELE RESPONDEU QUE SE TRATAVA DE UM CASTIGO POR TROCAR MENSAGENS DE CELULAR COM UM AMIGO DA NOTICIANTE; QUE VICENTE PEGOU UMA CORDA E A AMARROU, FAZENDO CORTES NA PARTE INTERNA DAS COXAS E BRAÇOS DA NOTICIANTE ENQUANTO MANTINHA RELAÇÃO SEXUAL COM A MESMA; QUE A NOTICIANTE, APÓS FINALIZADO O ATO, CONSEGUIU SE VESTIR E CORRER PARA A RUA COM O CELULAR, CONTATANDO A POLÍCIA; QUE VICENTE A ALCANÇOU E A AGREDIU COM CORONHADAS NA CABEÇA NOVAMENTE, ENQUANTO A NOTICIANTE GRITAVA E DOIS VIZINHOS TESTEMUNHAVAM O ACONTECIDO; E QUE VICENTE EVADIU-SE COM O CARRO DA NOTICIANTE; QUE DIANTE DOS FATOS, REGISTRA O BOLETIM DE OCORRÊNCIA E SOLICITA PROVIDÊNCIAS.
Sendo o que havia a constar, cientificado(a) o(a) declarante das implicações legais contidas no Artigo 299 do Código Penal Brasileiro, depois de lida e achada conforme, expeço a presente Certidão. A referida é verdade, Dou fé.
– Mas mana, e se a gente estiver botando a culpa numa pessoa inocente? A gente não tem como saber se ela falou a verdade sobre o Vicente.
– Isso não é normal, Lázaro. É normal estar num círculo de pessoas e ouvir boatos de quem comeu quem, quem perdeu o emprego, quem falou merda na internet. Isso é normal. Não é casualmente que surge uma história de um abusador que desce o cacete na namorada no meio da rua.
– Eu acho isso complexo, mana.
– Sim. Eu também. Mas eu sinto que é verdade.
– Como?
– Não sei. Talvez seja uma coisa tipo “quem apanha é que sente”.
– Como assim?
– Ai, macho. Deixa pra lá.
Sankofa vem atingindo um alcance incrível. Desde que comecei a estagiar na Secretaria de Cultura e me direcionaram para cuidar das redes sociais, apenas as postagens sobre nosso último edital tiveram tantos acessos quando as dela. O video mapping de Tessa trançando os cabelos da filha nas fachadas de casarões abandonados no Centro, em especial, atraem curiosos que registram tudo e a colocaram em posição confortável nos trending topics do estado. Ninguém liga para quem fez aqueles registros; apenas Tessa e suas tranças importam.
Até hoje me pergunto se me enganei, se aquele olhar na festa não quis dizer nada daquilo. Se aquele seria o sacrifício de Tessa por garotas como eu. Por isso, é agridoce segurar o recorte da reportagem no jornal, mas preciso terminar esse clipping antes de partir para a aula na faculdade. Não há mais ninguém na secretaria e as últimas luzes começam a se apagar. Não é muito seguro lá fora.
