O bar tem três portas de metal e o dono desenrola uma delas com estrondo, na intenção de acordar o Biriba, que cochilou no balcão, e de mostrar pra ele que já era a hora de fechar, de ele caçar um rumo. O barulho desse tipo de portas correndo, para quem pertence, como nós, a essa estranha confraria, é poderoso e familiar, como o rugido de um tigre de estimação. O Biriba vai saindo, ainda meio desorientado pelo sono, mas o dono chama ele de volta, pergunta da despesa. São duas cervejas e sete tragos, puros. Ele provavelmente suspeita que o Biriba não tenha dinheiro e eu sei que ele está certo. Atrás do caixa tem um porrete de madeira, pendurado num prego. Biriba esvazia os bolsos sobre o vidro do balcão: duas notas amassadas, algumas poucas moedas, ensebadas. Não dá nem pra metade da conta. O dono suspira, olha pro porrete, volta a olhar pro Biriba, sério, esgotado. Porra, Biriba, assim não dá. Eu te conheço tem quanto tempo? Eu sei onde você mora, conheço sua família, sua história… Faz o seguinte? Some daqui. Cai fora. Mas vê se não volta, vai procurar outro bar, beleza? Vai dar calote em outro otário aí da praça. Aqui não. Sacou? Some. Vai, rala. Resolvo interceder, me ofereço pra pagar a conta, só dessa vez. O dono olha pra mim com mais desgosto do que olha pro Biriba, que agora tá lutando pra descolar a moeda menor do vidro, sem muito sucesso, com seus dedos grossos e toscos, de pescador aposentado. Biriba não agradece, nem mesmo olha pra mim. Volto pra minha mesa. O Biriba desiste de resgatar a moeda e sai do bar. Sei que ele vai sentir falta de beber por aqui. Já não há muitos lugares que aceitem de bom grado a sua presença moribunda. A maioria exige que ele pague antes, e ele se ofende com isso. O dono disse que conhece a família do Biriba, mas todo mundo sabe que ele não tem mais família. Ele já era separado da esposa quando o filho sumiu no mar.
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Quase toda vez que a gente faz luau nessa ponta da praia, lá pelas tantas o Biriba aparece. Cambaleando, trocando os passos. Geralmente vem feliz, eufórico. Mas tem noites que ele chega todo fodido. Os olhos vermelhos de chorar, ou da bebida. O papo é sempre o mesmo. Ô, Gabriel. Como é que vai teu pai? Saudade do teu pai. Preciso passar lá qualquer dia. Manda um abraço pro teu pai. E eu sempre de: Tá bem, Biriba, sim, mando, claro, passa lá, ele vai gostar de te ver. Mas meu nome nem é Gabriel. O Biriba nunca conheceu meu pai. Meu pai é de Umuarama e eu só vim pra cá cursar gestão ambiental no campus do litoral. Então isso virou uma espécie de piada entre o pessoal que se reúne ali, em volta da estátua. Eu perdi o momento certo de contar a verdade, da primeira vez que ele me confundiu com outra pessoa, então hoje em dia eu deixo ele achar que eu sou mesmo o Gabriel e que meu pai também sente saudade dele. As pessoas, a maioria tá ali pra me ouvir tocar, e elas sempre riem dele, mas ele não percebe. Ou então não se importa. Hoje é um daqueles dias em que ele tá atacado, com os olhos injetados. Demora um minuto a mais, parece que está pensando em se enturmar, em puxar outro assunto depois de falar do meu pai postiço, talvez queira me pedir pra tocar uma música que ele goste no violão, uma canção antiga. Mas nada disso acontece. Ele pede um cigarro e vai embora, como sempre. Segue seu caminho, indo sabe-se lá para onde, e some no horizonte escuro.
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Acordo num pulo, achando que os caras do Cutia invadiram o barraco pra me pegar, nem percebi e já tô com o ferro na mão, tremendo, tô sempre com ele por perto, debaixo do travesseiro, mas é só esse desgraçado desse pé-de-cana chegando escornado mais uma vez e fazendo o maior estardalhaço. Porra. Hoje ele caprichou no porre, caiu em cima do galinheiro da velha, arrebentou com tudo. Vejo pela janela que ela já tá lá, acudindo. Pulou da cama mais rápido do que eu, e eu que durmo pronto pro pior. Vê se pode. Acho que ela gosta dele. Uma vez ela contou, na mesa do café, que eles estudaram juntos no grupo escolar. Quem diria que o Biriba tem estudo. Hoje em dia ele só sabe beber, depois que o filho sumiu. A dor consumiu o homem. Mas eu não tenho nada a ver com isso. Vou descer e esculachar o malandro, pra ele aprender a entrar no barraco quietinho quando chegar de cuca cheia. Sem querer, começo a escutar o que ele tá tentando dizer. O Biriba chora sem parar. Eles acham que eu não percebo, Dona Socorro, eles riem de mim, da minha desgraça, eles ficam dando risada da minha cara. Calma, Biriba. Calma. De quem você tá falando? O que aconteceu? Como você ficou assim? Eles, o Gabriel e os amigos. Gabriel? Gabriel é o cabeludo que toca violão, ali perto do busto, na areia. Mas ele e os amigos são um bando de filhos da puta! Não respeitam ninguém! Filhos da puta! Minha mãe segue tentando acalmar o Biriba, trazer ele pra dentro, desamassar a tela do galinheiro, tudo ao mesmo tempo. O Biriba é a única pessoa do mundo que chama ela de Dona Socorro. Mas eu não estou pensando nisso. Estou pensando que o vapor disse que era esse mesmo, Gabriel, o nome do pilantra que tá me devendo. E esse bico sujo acabou de me dar a letra, paradeiro, tudo. Valeu, Biriba. Acho até graça do fato de já estar com o berro na mão. Só falta minha jaqueta. De hoje não passa.
