Olha, eu nem gosto muito de lembrar dessa história. Sim, foi no início dos anos 90. Não gosto porque fiquei como o vilão, isso que me revolta. O pessoal da banda, os donos da festa, minha namorada, todo mundo meteu o pau, como se eu fosse o pior cara do mundo. Mas eu ia fazer o quê? Lembro que a festa tinha começado umas nove da noite e a gente tava na quarta ou quinta música, acho. Foi quando eu percebi o cara lá, na frente do palco, mais para a esquerda, cheio de olho para a Bia. Sexta música, sétima… e o cara lá, vi que ele falou alguma coisa e a Bia respondeu com um sorrisinho. Mas ela é assim mesmo, educada com todo mundo. Não, que ciúmes o quê… rapaz, eu me garanto. Era um sujeito meio gordinho, com umas espinhas na cara, maior jeitão de nerd. Até parece que a Bia ia se interessar por alguém assim…
Sim, eu era namorada do Diego na época. A banda dele ia tocar numa chácara em Campinas e eu fui, não tinha nada melhor para fazer. A gente chegou cedo e até que havia um número bom de pessoas. Eles começaram a tocar e eu fique lá, num canto, escutando a sequência manjada deles: “Bete Balanço”, “Another brick in the wall”, depois uma do Ira!, “Smoke on the water”… O Diego, como sempre, não tirava o olho de mim. Lembro que nalgum momento virei para o lado e havia um rapaz com uma camiseta do Led Zeppelin, parecia que tava gostando do som, porque entre uma música e outra ele fez um elogio à banda. Achei tão gentil quando ele foi buscar cerveja e trouxe uma para mim, sem eu pedir.
Fiquei puto quando vi o cara dando uma cerveja para a Bia. Sei que ela só aceitou por educação. Que cara atrevido: ficar todo cheio de graça com a mulher dos outros? Não, não pode. Eu já nem conseguia me concentrar direito nas músicas. E o pior é que ele continuava a incomodar a Bia, não parava de falar, e ela tendo que ser simpática. Quando ele apareceu com a segunda cerveja, aí estourei. Sou de bem, mas tem coisa que você não pode deixar passar, se não aonde a gente vai parar? O cara é que provocou, eu só perdi a cabeça. Mas quer saber? Faria de novo, porque não sou de aguentar desaforo.
O Diego sempre foi desse jeito, grosseirão, e eu já tava meio assim… Mas não imaginava que pudesse chegar a isso. Só porque o moço conversou comigo e me trouxe cerveja. E olha que a gente só falou de música, na verdade mais eu, porque ele era um pouco tímido. Mas, sabe, ele prestava atenção no que eu falava, olhava para mim. Só sei que foi aquele corre-corre, demorei para perceber que tinha sido o Diego quem provocou tudo. Acabou a festa, lógico. E o medo de aparecer polícia? Pior é que nunca mais vi o rapaz…
Eu nem tava a fim de sair, o dia tinha sido pesado e tava bem cansado. Mas o Alex insistiu, falou que a banda era bacana e que a bebida tava incluída, então ele passou em casa com o Passat 85 do pai dele e lá fomos nós para uma chácara pelos lados de Sousas. Lembro que eu vesti a camiseta do Led que ele havia me dado no amigo secreto da firma. Na época a gente trabalhava junto, o dia inteiro consertando caixa automático. Ele era gente fina, gostava dele, mas perdemos o contato. Aliás, se você o encontrar, passa para ele meu zap, por favor, diz que mandei um oi. Então, eu tava no lado direito, bem perto do palco, o Alex tava junto. Tinha uma moça também, tatuada, fiz um comentário qualquer sobre a banda e ela achou que era com ela e deu uma risadinha. Fui pegar cerveja e aproveitei para trazer uma para o Alex, mas quando voltei ele tinha sumido. Então dei para a moça, o que eu ia fazer com duas cervejas abertas? Aí ela começou a me perguntar umas coisas, falou da minha camiseta, disse que conhecia o pessoal da banda. Era muito bonita e parecia bem bacana. Mas não, lógico que não, não era para o meu bico… Fui pegar mais cerveja e ela pediu uma para ela. Foi quando voltei que, de repente, ouvi o estampido, gente gritando, eu nem sabia para que lado correr…
A festa tava legal, a banda era boa, até que aquele filho da puta do tecladista saca um revólver e dá dois tiros na direção do Beto. Sorte que não pegou em ninguém. Mas o pior é que foi acertar no para-brisa do Passat, que tava estacionado lá atrás. Puta azar. Só fiquei pensando: puta merda, o que vou dizer pro meu pai?
