Um dia memorável
Levantei animada, afinal seria minha primeira saída de casa depois de um mês trancada. Nesses trinta dias meus filhos não me deixaram nem ir ao mercado ou à farmácia. Me trouxeram tudo que eu precisava. Não passei necessidade alguma, só que eles não entendem que ainda posso fazer as coisas. Estou muito bem de saúde! Dediquei um bom tempo da manhã me arrumando. Cabelos, hidratante, maquiagem. Me questionei sobre o batom, afinal a máscara cobriria. Passei. O dia estava bonito. Fazia sol e calor. Era o clima ideal para aproveitar o ar condicionado. Em casa só ventilador, mangueira e chuveiro pra refrescar. Peguei carona com o vizinho taxista. Meia hora antes de liberarem o acesso eu já estava a postos na frente do shopping. Não perderia essa reabertura por nada. Às dez em ponto, as portas se abriram. Umas cem pessoas entraram de uma vez. Tapete vermelho, aplausos e música ao vivo. O único sem máscara era o músico, saxofonista. Foi um evento. Caminhei direto pra escada rolante. Entrei na loja e fiquei alguns minutos na fila. Pronto! Minha prestação na Renner tá paga.
Um dia lucrativo
A expectativa não poderia ser maior. Foram trinta dias sem nenhuma entrada de cash. A economia precisa girar e já passou da hora de o comércio voltar a abrir. Tomei todas as precauções com meus funcionários. Máscaras, sabonete, álcool gel. Se ficasse com a loja mais um mês fechada, teria de despedir os colaboradores e me desfazer do estoque. Para atrair a clientela, preparei alguns mimos. Apesar de eu estar há alguns dias sem olfato nem paladar, os docinhos e salgadinhos pareciam apetitosos. Também enchi as araras e renovei a vitrine. Assim que as portas do shopping se abriram, me deu um alívio danado. A ideia de contratar o saxofonista foi ótima porque ele animou o shopping e passou o dia todo tocando músicas pra todos os gostos. O movimento na loja foi intenso e vendi mais roupas do que o habitual. Tenho certeza de que os clientes ficaram satisfeitos. Voltamos a ter uma vida normal.
Um dia revoltante
Sério, eu juro que não acredito! O governador é muito irresponsável. Como ele libera a reabertura do comércio no meio da pandemia? Ele acredita no bom senso das pessoas, acha que elas vão manter distanciamento e respeitar o isolamento saindo de casa só quando necessário. Dá nisso, né? Colocam um saxofonista pra tocar na reabertura do shopping! Um instrumento de sopro! Toda a saliva dele se espalhou pelo ar! Aquele monte de velho se aglomerando. Nossa, eu jamais participaria de um evento desse. Olha aqui no twitter. São cenas desesperadoras! As medidas do governo deveriam ser mais duras. Precisamos controlar o vírus e respeitar o isolamento social. Onde vamos parar na pós-pandemia? Ainda bem que nos conhecemos pela internet durante a quarentena. Tudo bem, não somos namorados, mas pelo menos você me visita de vez em quando. Não imagino o que eu faria se fosse obrigada a ficar sozinha o tempo todo em casa. Que catástrofe!
Um dia aventureiro
Não sei de onde vim nem pra onde vou. Muito menos quanto tempo tenho de vida. Minha sina é vaguear por aí, circulando pelo ar. Confesso que está cada vez mais difícil encontrar vias respiratórias que me sirvam de abrigo. Alguns humanos são espertos e fogem do meu alcance. Outros não se importam com minha presença. Geralmente me desloco com tosses e espirros. Atinjo velocidades incríveis! Fico planando no ar até achar algo ou alguém pra me apoiar. Depois de muito percorrer e ficar inerte em várias superfícies, encontrei um objeto de metal. O dourado me chamou a atenção. Estava lá descansando quando de repente uma multidão apareceu na minha frente. Nunca tinha visto tantas pessoas reunidas. E aí escutei um som muito alto, senti uma ventania e fui jogado pra cima delas. Um tobogã musical. Para o alto e avante. Caí nos cabelos loiros de uma senhora. Meus colegas se espalharam em outros corpos. Quem me dera todos os dias fossem assim…
