Segundo ouro

O narrador do canal esportivo, ao vivo

Chegou o grande dia! 7 de agosto de 2012! Brasil e Rússia! Clássico do vôlei mundial! Jogo válido pelas quartas-de-final dos Jogos Olímpicos de Londres. Brasil vem de duas derrotas na fase classificatória e quase foi eliminado da competição. As meninas da Rússia, famosas por sua frieza e potência no ataque, seguem invictas e são, ao lado dos Estados Unidos, as favoritas ao título. Os destaques das equipes são: Sheilla, a oposta brasileira, campeã em Pequim e maior pontuadora da equipe até o momento; e Gamova, a oposta russa de dois metros e dois centímetros, pés 47, considerada uma das melhores jogadoras do mundo. Será uma batalha épica! Agora vamos às informações da quadra. Fala, Marcelo!

Press conference com Ekaterina Gamova, logo após o jogo

“Se merecíamos? Nós treinamos pesado para estarmos aqui e jogamos muito bem. Se eu arriscasse uma explicação para o placar, diria apenas: foram os detalhes. Quando jogamos em um nível tão elevado, um diferença de milímetros no posicionamento faz muita diferença.

“Não, não somos um time que desiste. Eu acreditei na vitória. Até o último ponto. Não apenas no jogo, mas na competição. E as brasileiras entraram em quadra com uma cara… de injustiçadas. Com medo. Nós aproveitamos e levamos o primeiro set. Mas o excesso de confiança é algo perigoso. Nosso técnico repetia sempre isso nos treinos.

“Eu mentiria se te respondesse que não gosto da rivalidade. Ela tem um papel importante. Imagino que as brasileiras estavam engasgadas com a derrota sofrida para nós na final do Campeonato Mundial de 2010. É um título importante que elas ainda não têm. Isso mexe com a cabeça. Com a minha também.

“Não é fácil aceitar que perdemos. Eu trocaria os dois títulos mundiais por um título olímpico. Estou no auge da minha carreira e achei que tinha chegado a hora. Mas o esporte não funciona assim. Agora não sei se continuo na seleção. Já são doze anos…

Anotações de um fã em seu blog pessoal

Campo do Gerês, 8 de agosto de 2012.

Depois de cumprir uma agenda de trabalho em Lisboa no fim de julho, rumei para o norte do país, a passeio, e no trajeto consegui assistir todos os jogos da seleção: vibrei com as vitórias e sofri com o tombo inesperado diante da Coreia do Sul, o que ameaçou nossa classificação. Agora estou no Parque Nacional de Peneda-Gerês, na divisa com a Espanha, deitado no beliche do albergue com o computador no colo e a mão a digitar, ainda tremendo. Há cinco horas, foi difícil convencer os dois suecos que assistiam a uma enfadonha luta de boxe na televisão a me deixar mudar de canal. Não sei se entenderam de imediato a urgência – meu inglês deixa a desejar – ou apenas depois de testemunharem meus gritos e lágrimas com a vitória do Brasil. No último ponto, ajoelhei e agradeci aos céus junto com a capitã Fabiana, deixando de lado meu ateísmo. Queria estar no Earl´s Court. As russas pareciam grandes aves escarlates. E choravam. Foi o jogo mais bonito que eu já vi.

Entrevista com Sheilla, de volta ao Brasil

“[Rindo] Eu gritava: é nosso! A cada ponto! Eu sabia que o jogo era nosso! Eu apenas sabia.

“Não estávamos abatidas. É que a responsabilidade pesa bastante em alguns momentos. Desde os Jogos de Atenas, em 2004, quando perdemos a semifinal, nós buscávamos uma revanche contra elas. Não conseguimos nos Mundiais. Foram oito anos escutando que a seleção brasileira amarelava diante das russas. E, no Brasil, o segundo lugar não é valorizado. Pra dizer a verdade, é quase pior que o último, porque você enxergou o ouro, mas não garimpou.

“Sim, é verdade! Nós adotamos um mantra e o cantávamos sempre no vestiário. A letra pedia para uma força maior tirar as pedras do nosso caminho e prover um milagre. Era o que nós precisávamos na competição. Um milagre! E o refrão dizia: ressuscita-me! E nós ressuscitamos. Somos bicampeãs!”

A carta de Sergey Anatolyevich Ovchinnikov

Fui escolhido como técnico da seleção russa há menos de um ano, mesmo “sem conquistas expressivas no currículo”, como a mídia reportou e ainda recorda maliciosamente. A missão? Conquistar o ouro inédito nos Jogos Olímpicos. Eu enxergava que era preciso alterar nosso estilo de jogo: mais velocidade e mais defesas. Afinal, não se vence no esporte sem arriscar-se. Mas uma pergunta sempre me acompanhou: e se eu estiver errado? Pesava a responsabilidade. No início havia desconfiança por parte da torcida, mas os bons resultados alimentaram a esperança. As jogadoras correspondiam, vibravam e tudo parecia dar certo. Na partida das quartas-de-final, os seis match points desperdiçados me paralisaram. E veio a derrota. Não sou capaz de lidar com tanto desapontamento. Por favor, espalhem minhas cinzas em Yaroslavl, que sempre me acolheu.

Poreč, 29-08-12

S.A.O.

(Quem quiser assistir o jogo: https://www.youtube.com/watch?v=60EAzrLNEP4&t=4s)

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