Linha cruzada

O ano era 2007, nos conhecemos numa festa em Nova Iorque e começamos a namorar. Na época, eu fazia mestrado em literatura inglesa na Universidade de Columbia e morava com mais dois amigos no Brooklyn. Foram só três meses de namoro, porém intensos. Tanto que decidimos que eu iria visitá-la no Brasil depois que ela acabasse o curso de fotografia na cidade. Ela voltou em dezembro e eu comprei minha passagem para janeiro. Estava feliz em conhecer o país que sempre quis e, mais ainda, em rever a Ju. Mas chegando no Rio fui surpreendido com uma notícia, ela estava saindo com outro. Fiquei puto na hora, óbvio, mas dadas as circunstâncias, decidi curtir a viagem mesmo assim.

Me joguei nos bares da cidade, saí quase todos as noites com os amigos dela. Bem animados, por sinal. Esse Matheus, ele é gente fina, um cara engraçado, mas muito abusado. Na noite em que saí com ele, fomos em vários bares, em cada um deles, ele encontrava uma turma diferente de amigos. Impressionante como todos se conhecem na noite carioca. Acabamos bebendo cerveja num quiosque na praia com o sol nascendo, nunca vou me esquecer dessa cena, linda de morrer. Mas como a noite nunca tem fim pra essa galera, fomos parar na casa dele pra terminar a cocaína e beber mais um pouco. Era a única opção pra continuar. Acabei dormindo lá. Só não imaginei que ele fosse me acordar daquele jeito.

Eu namorava o meu atual marido na época, mas nunca deixei de dar minhas escapulidas, já que o Greg não podia sair quase nunca, sempre trabalhou horrores pra sustentar a nossa futura casa. Eu sou ator, preciso sair, faz parte do meu processo criativo. E o que eu posso fazer se o Greg prefere ficar em casa editando seus vídeos? Um dia, a Ju me pediu pra ajudá-la a ciceronear um ex-namorado americano que estava na cidade, parece que ela tinha que trabalhar no dia seguinte. Foi ótimo, passamos a noite indo de bar em bar até o último de sempre, a Pizzaria Guanabara, onde a noite terminava pra todos os boêmios da cidade.

Ao amanhecer, fomos tomar uma última cerveja num quiosque da praia para esperar o dealer chegar. O menino ficou deslumbrado que podíamos beber na rua, ainda mais na praia, onde algumas pessoas já faziam suas corridas matinais. Uma cena impensável pra um nova iorquino. Depois de pegarmos o papel, fomos pra minha casa beber, cheirar e tocar violão. Eu morava com os meus pais na época e no meu quarto só tinha uma cama de casal. Quando o padê acabou, perguntei se ele queria dormir lá. Ele achou melhor, impossível chegar na casa da Ju naquele estado, depois de uma noite e uma manhã se drogando e bebendo compulsivamente. Enfim, a Ju viajou de me ligar daquele jeito, gritando, não forcei ele à nada. E que ficou duro ele não comentou, né?

Na volta de Nova Iorque eu reencontrei o menino que estava tendo um caso antes da viagem e voltamos a sair. Não quis falar nada pro Michael, não achei justo estragar sua viagem, que seria incrível independente de estar me namorando ou não. Tinha certeza de que ele amaria o Brasil. Conversamos na sua chegada e, claro, ele ficou decepcionado. Mas eu fiz de tudo pra ele aproveitar ao máximo o tempo no Brasil. Passamos uma semana em Pernambuco, e no Rio, apresentei todos os meus amigos, assim ele poderia conhecer a noite carioca e eu ficaria tranquila pra trabalhar, depois de ter passado três meses fora. Só não imaginei que ele pudesse ser assediado pelo cara desse jeito. Na verdade, eu deveria ter imaginado, conhecendo a bicha safada que o Matheus é.

No dia eu achei estranho, cheguei do trabalho às 18 horas mais ou menos e o Michael não estava em casa. Ele chegou logo depois e eu, torcendo pra que ele tivesse conhecido alguém, perguntei animada como tinha sido a noite. Ele me contou que tinha se divertido, mas que tinha acontecido uma coisa meio estranha. Eu não pude acreditar que o Matheus tinha feito aquilo. Peguei o celular na hora com muita raiva e liguei pra tirar satisfação.

Alô, Matheus? Você acordou o Michael chupando o pau dele??? Puta que pariu! O cara já levou um pé na bunda chegando aqui e você ainda me faz essa? Caralho!

Ju, acho que você ligou pro Matheus errado.

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