Helô Mello
São tempos urgentes. Tempos de encontros. Os virtuais ficaram nas nuvens. São abraços concretos. Amassos desconhecidos. Beijo na boca. Acabou a hibernação. Tempos pós corona.
Festa estranha. Nem sei bem por que fui convidado. Não conheço esse Renato. Acho que é amigo da minha ex. Devia estar na lista. Escritor como eu curte um bar.
Chego tarde. Antes me enrolei na Mercearia São Pedro para rever amigos. Difícil desgrudar de conversa sem nexo. Entrei na casa do Renatinho no ritmo da música alta. Grande amigo! Dei um oi íntimo. Desconfiei que ele não sabia quem eu era ou estranhou tanto afeto. Acho que já bebi muito e estou preocupado demais. Passou um Gin Tonica. Adoro. Bebida à vontade. Mais um copo. Não vi nada para comer, mas quem se importa?
Não conhecia ninguém. Vejo no jardim uma mulher. Ela falava com o garçom. Possivelmente estava pedindo uma bebida. Estava sozinha. Estranhei. Sou tímido. Mas depois dessa longa quarentena estamos precisando nos re-conectar. Era a oportunidade.
O garçom sumiu quando cheguei. Papo rápido. Não sou bom nisso. Não escutei a resposta dela. A música alta me deixou surdo. Achei que ela estava a fim. Dei um beijo com vontade. Minha última lembrança era de estar na piscina com uma baita dor na cabeça engolindo água.
Renatinho andava difícil. E não era coisa de mulher na TPM. Na quarentena as coisas só pioraram. Tinha certeza de que tinha um caso e passava o dia me vigiando para saber quem era. Seu mal humor piorou quando passamos a fazer home office. Tentava ignorar. A nossa relação estava no limite. Assim que passou a pandemia ele resolveu dar a festa. Odiei. Na quarentena limpei, cozinhei intercalando com o trabalho. Quando ia ter uma folga, essa produção. Ignorei e ele restringiu meus convidados. Deve ser a desconfiança do caso que não tinha. Evitei meus antigos amigos.
O buffet deu cano. Convidados que nunca vi e agora todos bêbados. Tive que chamar a atenção do garçom porque ele quase caiu no colo daquela moça de vermelho e seu decote perto da piscina. Estava a ponto de explodir quando chegou um cara que não conhecia perto de mim. Bem perto. Ele nem era feio, apesar de não falar coisa com coisa. Nem deu tempo. Me agarrou. Renatinho, que continuava me cercando, achou que tinha descoberto meu amante. O cara voou longe e mergulhou já desacordado na piscina. A festa acabou quando a ambulância chegou para leva-lo ao hospital.
Sabia que ela tinha alguém. Essa falta de interesse já começou antes do Corona. Passei a vigiar mesmo. Nos separar estava fora de questão. Preferia manter aquela relação café com leite sem açúcar. Gostava dela. No começo nos dávamos bem. Achei que uma festa seria a melhor solução. A gente poderia dançar, beber e quem sabe se amar de novo. Chamei os amigos do trabalho, clientes e até amigos de amigos. Já que ia fazer, era para ser a melhor. Ela ignorou a festa e a produção. Consegui evitar que ela convidasse seus amigos. Seria a festa da reconquista. Mas me distraí e descubro ela no jardim se agarrando com o cara. Tinha desconfiado que era o amante da minha mulher quando ele chegou. Invadir a minha casa era muita folga. Subiu o ódio acumulado da quarentena e parti para cima dele.
Eles dizem que se conheceram no hospital. Duvido. Acho que isso foi só uma desculpa para ela pedir o divorcio e assumir esse idiota. Sabia que minha intuição estava certa. Nunca me engano.
