Cruzeiro do Sul

Era uma bola de boliche que a impedia de engolir.

Era assim que ela pensava. A comparação com uma bola de tênis era muito confortável para representar a sua sensação. Uma bola de tênis quase cabe na boca. É gostosinha de apertar. Animais com mandíbulas potentes conseguem mastigá-las. Destruí-las. Trucidá-las. A bola de boliche, não.

Ela se virava de um lado para o outro em seu estreito colchão de solteiro. Estreito porque ele estava lá. Dormindo, aparentemente.

Ela respirou fundo e ele se mexeu. Estaria acordado? Achava que não. Afinal, ela encontrou o glitter no rosto dele, e não o contrário. A pele dele era bem escura e, portanto, o glitter reluzia sobre ela. O brilho da Cruzeiro do Sul em uma noite limpa ao sul do Equador. A única diferença era a estrela que ficava na parte mais baixa da constelação. Nele, havia apenas três brilhos na bochecha. Uma cruz sem base.

O Carnaval tinha sido há um mês. Começaram a namorar pouco depois disso. Ficaram várias vezes antes em um relacionamento sem nome com liberdades erógenas dos dois lados. Ela, no entanto, já havia se apaixonado. Saiu com algumas pessoas apenas para se certificar do que já tinha certeza: ele era o homem da sua vida.

Ele, no entanto, parecia pensar o oposto. Pelo menos era isso que o glitter no rosto dele parecia esfregar na cara dela. Ele se mexeu:

– Mor?

– Oi?

– Tá acordada?

– Não, seu animal – foi o que ela sentiu vontade de responder. Ela sentia raiva, mas não sabia do quê. A monogamia havia sido acertada e ele era, de longe, a melhor pessoa com quem tinha se relacionado. Confiava nele. Mas não, ela apenas deu um gemido positivo e ele acendeu o abajur.

A luz ao lado da cama iluminou o rosto sem brilho dele. Sem brilho, porque ele já tinha limpado o glitter algumas horas mais cedo, assim que ela o alertou.

– Estou com uma coisa presa na garganta – ele disse. Ela pensou na bola de boliche, mas não falou nada. Gostava de ouvi-lo –. Eu queria falar sobre o Carnaval.

Ela não queria saber e explicou isso. Insistiu que ele e ela eram livres para fazer o que quisessem. Que ainda estavam em um relacionamento sem nome e pouco importava o que acontecera ou não.

– Eu queria falar mesmo assim. Tá me incomodando já faz tempo, mas hoje você viu o glitter. Sei lá. Se eu não falar sobre, vai parecer que tô escondendo alguma coisa.

Ela fez sim com a cabeça. Um sim tímido. Um sim que escondia a consciência de que aquela revelação faria mais bem para ele do que para ela. Um sim que admirava e respeitava os valores dele. Um sim que significava tudo, menos um sim. E ele contou.

História atrás de história, ele vomitou. Abordou todo o tempo desde que eles haviam se conhecido. Começou pelas poucas mulheres antes do feriado e finalizou com as muitas durante a festa. Detalhou a experiência no bloquinho sem deixar nada de fora. O cheiro da alegria enquanto a mão dele deslizava na barriga da outra. A cachaça da língua dele invadindo a boca da outra. O rebolado do pau dele esfregando a bunda da outra.

A honestidade dele era um tiro. Era assim que ela pensava. A comparação com o corte de uma faca era muito confortável para representar a sua sensação. A faca lhe dava apenas uma ardência, mas a lembrava de que estava viva. A faca podia ferí-la, mas não a matava. O gélido da lâmina da faca era gostosinho. O tiro, não. E ela morria ouvindo cada confissão.

Ele também disse que as outras eram loiras, o que apenas piorava a situação. Afinal, os cabelos dela eram escuros como uma noite sem brilho. Uma noite sem Cruzeiro do Sul. Claro, ela se sentia especial por ele lhe fornecer os detalhes. Era uma evidência do caráter dele. No entanto, sua dor não era amenizada por esse pensamento. Ela apenas conseguia concluir que não deveria ser boa o suficiente como ele era para ela. Afinal, se ele a amasse como ela o amava, não teria tido essas experiências com outras. Com outras tão diferentes dela.

– Eu tô contando porque eu te amo. Era uma época que a gente tava solteiro, mas não parecia certo começar nada assim.

Sim, eles estavam solteiros. Ela tentava se lembrar disso. Convencer a si mesma de que pouco importava com quem ele estivera ou não. De que pouco importava com quem ele tinha trepado ou não. Hoje, não havia a outra. Apenas ela.

Porém, a dor ainda latejava em seu peito. A outra estava dentro dela. Cheia de glitter, a outra se exibia por ter experimentado a mão dele. A língua. O pau. A outra ria da impotência dela enquanto se masturbava pensando nele. E ela chorava, desejando o sumiço de todas as outras.

Ele terminou suas histórias e ela o abraçou. Queria ter histórias para lhe contar, como se quisesse vencer um jogo que ele nem sabia que estava jogando, mas que ganhou mesmo assim. Queria que ele entendesse sua dor, mas sabia que ele não entenderia. Ele já estava entretido demais deslizando os dedos pelas costas dela. Para ele, o assunto estava encerrado e, como ela não se manifestou, achou que ela pensava o mesmo. Ela se deixou levar, pois precisava se distrair. Precisava abafar a outra em sua mente.

A dança dos dedos dele fez ela se arrepiar. Em seguida, ela tirou a coberta de cima dos dois e foi baixando o seu corpo de modo vagaroso, beijando o corpo dele até seu rosto ficar na altura do pau. O movimento dela foi sutil e fácil. A cama não parecia mais tão apertada assim. Ela abaixou a cueca dele e, surpresa. Encontrou um glitter. O último. A base da cruz. A estrela do sul da Cruzeiro do Sul.

Ela olhou para ele, que já tinha virado a cabeça para o céu. Ele prendia a respiração e sentia o suspense aguardando que os lábios dela o abocanhassem. Nem sequer passara pela cabeça dele que ainda havia glitter em seu corpo. Aliviada por ele não ter percebido, ela o chupou.

Naquela noite sem brilho, ela engoliu muito mais do que glitter.

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