Bacchanalia

Por Susy Freitas

Os pinos na canela de Ione trazem um novo desafio: uma ferrada no osso ao agachar-se para fazer xixi. A base do axé retrô vibra nas paredes do banheiro que, apesar de melhor que um cubículo químico, fede tanto quanto. Ela contém a vontade de vomitar que a faria ficar mais tempo ali dentro e apenas segura firme na beira da pia, garantindo que a bunda não toque na louça. O mijo de quatro cervejas sai num jato firme, difuso na luz vermelha que dá aos adesivos das paredes um ar descolado.

Ione encara um deles, uma bonequinha com três ou seis olhos, não sabe ao certo. É uma gracinha, ela pensa, enquanto o líquido começa a encharcar a estrutura dos pinos numa perna e a meia arrastão na outra. Seus Converse fazem plosh plosh naquela imundície enquanto ela balança o rabo para se secar um pouco. Sem papel higiênico ou água na torneira disponíveis, Ione continua o processo de ligar o foda-se: sobe o maiô, cobrindo os peitos cheios de glitter, arruma o tapa olho e o papagaio de papel machê já todo deformado no ombro, renova o batom escarlate e volta pro bloco.

No final da fila do banheiro, Ione reconhece a irmã caçula. É fácil detectar Silene mesmo à meia luz, porque é a menina com orelhinhas de gato que mexe os ombros assim, pra cima e pra baixo, enquanto chora. Fosse outro dia, Ione gritaria com ela, chamando sua atenção para deixar de pombalesice e acabar com essa história de chorar por macho, alertando-a sobre os perigos do amor de pica, ainda mais envolvendo o nóia do Diego. Mas agora, ela pensa duas vezes. Amolece. A dura revelação de Silene horas antes deu novos contornos à relação familiar. Pela primeira vez, Ione sentiu-se conectada à irmã em suas imperfeições. Ela, também, podia falhar, e a constatação, ao invés de massagear seu ego, eliminou-o.

“Me dá esse telefone”, decreta depois de arrotar da cara de Silene.

“Heim?”, responde a menina, grogue, com catarro entrando e saindo do nariz a cada respirada.

“O que é que ele tá falando aí?”, e toma o celular da irmã. “‘Sua porca imunda, ninguém nunca vai gostar de você, você é inútil, blábláblá’. Esse fodido se acha, né?”. Com dedos hábeis apesar de toda a bebedeira, Diego é bloqueado na lista de contatos e em todas as redes sociais em questão de segundos por ela. “Pronto, agora vamo”.

“Mas eu ainda quero fazer xixi”, bodeja Silene, checando, vesga, a mágica executada pela irmã no aparelho de tela trincada com o rosto bem perto. Ela sempre olha assim quando está chapada.

“Esse banheiro tá uma merda. Mija no estacionamento, que é melhor”.

Ione tira do meio dos peitões duas fichas de Skol, que resgata pelo caminho, e um pequeno pote, tudo na base do tato. Entrega uma das cervejas para a irmã, enfia dois dedos no potinho e os esfrega na face dela. A poeira fria do glitter se mistura aos restos das lágrimas da menina, garantindo máxima fixação, enquanto a bebida morna desce quadrada. É assim que a escuridão as engole entre uma infinidade de pessoas que se retorcem ao som de um mashup de Chiclete com Banana e Evanescence. O desespero efusivo dos corpos levanta poeira e tinge os pinos de Ione e as polainas de Silene, e elas abraçam o desconhecido.

Desde o aborto, Silene opera em modos alternantes: ora movida por um profundo senso de gratidão, renovada após recuperar-se das complicações da curetagem e ganhar, por assim dizer, duas novas chances, a de uma vida, e a de uma vida sem um bebê; e, por outro lado, a constatação de que o namoro com Diego alcançara níveis inaceitáveis de abuso a fazia sentir-se numa realidade paralela da qual acordaria a qualquer momento, retornando aos tempos do vício em cocaína que aniquilou a personalidade do rapaz e escoou todo o dinheiro do estágio de Silene.

Zonza entre os carros, com sua cauda felina salpicada de mijo, ela flutua na suspensão de descrença. Aceitara ir à essa festa, um misto de bloco e baladinha alternativa, como quem opera um avatar de si num jogo, e divertia-se, é bem verdade, mas a notificação de Diego no celular a esfacelou, puxando-a para a realidade: com ou sem o bebê, ele a procuraria em apenas uma ocasião: quando precisasse de dinheiro. De resto, ela era lixo. Mas assim como entrava em estado de alerta, saía. Ao levantar-se e arrumar o short, Diego era novamente aquele flautista que amarrou seus cabelos num rabo de cavalo firme enquanto ela improvisava com o contrabaixo num ensaio da big band.

“Caralho, eu procurei vocês em tudo que é canto!”, diz uma moita às irmãs. Aos poucos, a folhagem se transforma numa moça que flexiona os joelhos enquanto passa os dedos nas virilhas, arrumando a beira do maiô multicolorido por baixo de um quimono aberto. Uma viseira ridícula levanta-lhe a franja de índia e cobre os olhos dilatadíssimos, ornados de lágrimas de sangue sobre a pele de papel ofício, um pancake já meio diluído.

“Tô vendo que tu procurou mesmo, Peta”, responde Ione, observando outro espectro saindo da mesma moita. Ione acredita ter dado um pulo pra trás, mas era apenas sua cabeça retrocedendo, sugando do passado as formas daquela silhueta. O primeiro item reconhecível nela eram os pés descalços; logo depois, o short azul com estampas de Antártica litrão; por fim, uma camiseta em frangalhos. “Curtindo a festa, Lázaro?”.

“Pode crer, Heleninha”, ele baba uma resposta, chamando Ione pelo segundo nome, a identidade que ela assume fora do núcleo familiar. O rapaz lhe cutuca a costela na tentativa de roçar num dos seios, as pupilas um buraco negro. “Eu tô com os meninos bem ali”, e usa um baseado para apontar a direção. “Passem lá com a gente. O Russo tá lá também”, e vira a cabeça com um sorriso embasbacado no rosto vermelho de batom.

“Foda-se o Russo, cara”, Ione deixa escapar no meio de uma inspiração incrivelmente longa. “Vai, vai lá com teus macho. Depois a gente conversa”, decreta e claro, é obedecida. Lázaro sai de cena fazendo passos de break dance. Como esperado, ele não é nem um pouco bom nisso.

“Bora lá fora rapidão comprar um corote, chuchus?”, pergunta Peta. “Não aguento mais tomar essa Skol. A gente vai se cagar toda amanhã”.

“Eu não tenho mais dinheiro”, responde Silene, conferindo os zíperes da pochete, levantada na altura dos olhos. “Tu tem?”.

“Vendi aquele beck por dez paus pro Lázaro”, rebate Peta. “Uma figura esse amigo de vocês, heim?”.

“Fica com a Silene”, decreta Ione, para variar, movendo a roda. “Eu compro o corote lá fora e meto nos peitos pra entrar de volta”.

“Cuidado”, pede a irmã, ameaçando chorar de novo.

“Eles é que têm que tomar cuidado comigo”, e aponta para os pinos na perna.

Peta segue entre os foliões fumando seu Lucky enviesado na mão de unhas vermelhas, toquinhos sangrentos na fantasia de gueixa robótica zumbi. A cor foge dos dedos a cada movimento, enredando a garganta dos foliões. Seu coque descabelado aponta o caminho para Silene na multidão, uma antena fosforescente que mantém a melhor amiga em curso. Acredita ser um peixe abissal.

Em 72 horas, Peta partirá de Manaus sem planos de retorno. A promessa do desaparecimento súbito (pois avisara apenas à Silene sobre o emprego com a tia em Minas) e o ar de putaria instaurado pela vasta oferta de drogas nas bordas daquela felicidade a animavam pela primeira vez na vida durante o carnaval. Dois anos atrás, ela estava em um retiro na estrada, jejuando e tomando banho de piscina. Não era de todo ruim, tirando a parte das orações (eram várias), mas o vão criado com a partida da Eupétale daquela época e a de agora começaria enfim a ser preenchido.

A consciência do recomeço, e até mesmo o medo causado por ele, a guiavam com um sorriso no rosto. Ao contrário do peso trágico dos últimos anos de Silene, com toda a dor que ela acompanhara com a amiga no hospital, Peta era toda leveza; os traumas, ela enterra dia a dia. Que doam depois. Do nada, Ione ressurge, balançando o corote que mais parece uma granada de mão. Peta, que se vê de fora do próprio corpo, abraça as irmãs e beija a boca da mais nova. Para a alegria da turba sufocante, as primeiras notas de “Eu quero botar meu bloco na rua” ressoa. Têm cheiro de sândalo. Confetes iniciam um coro grego. Ainda são oito e meia, e o trio recusa-se à misericórdia da morte.

 

Links:
Alerta, Selvagem (Ed. Patuá)
Véu sem voz (Ed. Bartlebee)

Revista Torquato

Bônus:

Evanescence no Carnaval de Salvador, Bahia

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