Silvia Argenta
O ar sai do pulmão lentamente. O cigarro serve como muleta para suportar a confusão mental de quem precisa estar preparado para o que está por vir. Os prognósticos de saúde de sua amiga internada não são dos melhores. Sentado numa mureta na frente da emergência do hospital, não tem reação alguma quando uma ambulância aparece no final da rua com a sirene alta. A expressão do seu rosto não se altera mesmo com toda a movimentação dos socorristas que levam, em segundos, um novo paciente para dentro, envoltos por um monte de aparelhos por cima da maca.
Lili e Tatá se conheceram quando tinham dez anos. No colégio, se sentavam lado a lado e não paravam de conversar. Por diversas vezes, a professora precisava mudá-los de lugar para que a aula pudesse continuar sem os burburinhos. Apesar disso, tiravam boas notas e passavam de ano fácil. Moravam perto e de manhã iam juntos a pé para a escola. De tarde, sempre inventavam alguma atividade para continuarem um na companhia do outro.
– Meu loiro, queria tanto passar mais tempo com você…, disse ela fazendo cafuné.
– Sei que sou irresistível – respondeu ele com um sorriso debochado -, esse ano podíamos aprender… violino!
– Pra virar a cara e meter a vara? Topo!
O grude era tanto que assim foi até o terceirão, quando chegou a hora de decidirem o que estudar na faculdade. Fizeram o vestibular e passaram no mesmo curso. Seriam veterinários porque tinham um amor incondicional por animais. Recolheram muitos cachorros abandonados que encontravam no caminho da escola. Levavam os bichinhos para a casa de um deles, onde davam banho e comida. Depois, encontravam alguma família disposta a adotar ou eventualmente eles mesmos ficavam e dividiam os cuidados.
Dividiam também o gosto por homens. Não eram namorados, mas só se relacionavam com rapazes que aceitassem ficar com os dois. Certa vez, ela se apaixonou pelo Fernando, o garoto mais exótico do segundo ano. Sempre se vestia com roupas pretas e tinha a franja muito bem ajeitada para o mesmo lado, além de cozinhar e recitar poesias. Quando ela descobriu que ele só gostava de meninas, a paixão acabou porque o Tatá ficaria de fora do relacionamento.
As aulas da faculdade começariam em março. Por isso, eles queriam aproveitar como podiam o último verão da adolescência. O momento alto seria curtir o carnaval de rua pela primeira vez sem os pais, no calor escaldante de uma tarde de sábado de fevereiro. Só que não era um dia de carnaval qualquer. Era o sábado de carnaval com eclipse solar total! Os astrólogos dizem que o fenômeno tem o poder de impulsionar o início de novos ciclos, o que, convenhamos, era tudo que eles esperavam.
E o dia chegou! Devidamente paramentados, encontraram alguns amigos na praça e começaram a concentração. Como o Bloco Bicharada estava marcado para sair ao meio-dia, dava tempo de fazer um esquenta. Miudinha, Lili estava toda toda como pavoa misteriosa. Saia curta dourada, top azul e uma tiara com seis penas que misturavam azul, amarelo e verde, contrastando com seus cabelos pretos e lisos. E, claro, o item obrigatório do carnaval nos últimos tempos: a indispensável pochete prateada. Tatá chamava bem mais atenção que Lili. Com mais de um metro e noventa, era difícil distinguir se as orelhas que usava no topo da cabeça eram de coelho ou de gato. Os bigodinhos pintados nas bochechas não ajudavam a identificar que bicho era. O que dava para ver era muito, mas muito glitter biodegradável de todas as cores imagináveis mais a saia de tule rosa choque que valorizava as coxas malhadas.
Quando o bloco saiu, as ruas já estavam completamente tomadas. Para não se perderem, os dois ficaram de mãos dadas. O tempo passou, e eles se deram conta de que precisavam desentrelaçar as mãos para que as ficadas rendessem mais. E deu certo. A desinibição por já estarem bem alegres por causa da bebida também ajudou. Ficaram nessa toada por alguns quarteirões. Mas mesmo para jovens, a mistura de bebida, tumulto e sol na moleira leva ao cansaço. Ela decidiu que precisava comer para retomar a energia. Saíram do fluxo do bloquinho e acessaram uma das ruas perpendiculares. Lili entrou numa das lanchonetes mais famosas da cidade, e Tatá ficou na rua esperando por ela, enquanto aproveitava a festa.
– Keko, manda aí um pastel de carne com ovo e uma Pureza.
– Doze pila, princesa.
– Cadê a chave do banheiro?
– No carnaval, não deixo não.
Mesmo apertada, preferiu esperar para comer. Se sentou no único banco alto vago e apoiou os braços na bancada, bem na frente do cara que fritava as guloseimas, mas seus olhos só miravam os azulejos brancos e vermelhos da parede. Demorou para comer. A cada mordida, precisava respirar fundo e se concentrar para não perder o equilíbrio e cair do banco. Reabastecida, ela saiu e logo foi abordada por um desconhecido.
– Ô, tu comeu no Keko?
– Sim.
– Tu sabe que ele é bolsominion?
– Não acredito!
Ela nem se importou com a grande movimentação de pessoas na rua. Virou para o lado, se ajoelhou e começou a vomitar. Do lado da porta da pastelaria, o chão ficou tomado por uma gosma de refugo. Não tinha nem como definir que cor era aquilo. Só dava para identificar alguns pedaços de ovo. O Keko capricha no recheio.
– Que que deu?, perguntou um qualquer vestido com um colant dourado que provavelmente era de sua bisavó.
– Comeu no Keko, respondeu outro desconhecido.
– Não… ela tomou um litro de catuaba no bico, disse Tatá rindo, sem nem perceber que o dia tinha começado a escurecer.
Lili ainda ficou um tempo prostrada sem saber se tinha mais algo para liberar. Depois que terminou, se levantou e tomou seu rumo sozinha. Tatá saiu correndo atrás dela. Por causa da multidão, impôs seu corpo para abrir caminho e conseguiu puxá-la pelo braço. Sem olhar para trás, ela se desvencilhou e começou a saltar e cantar.
Vou dar a volta no mundo, eu vou
Vou ver o mundo giraaaaaaar
Ele pensou em gritar o nome dela, mas a música estava muito alta, e os dois se perderam. O eclipse solar estava quase no auge, quando, já sem forças para pular o carnaval, Olívia aceitou a carona de um rapaz que tinha acabado de conhecer. Trôpega, mal conseguiu passar o endereço de sua casa e precisou de ajuda para entrar no carro. A poucos metros do destino, um cachorro atravessou a rua inesperadamente, o rapaz perdeu a direção e o veículo capotou oito vezes. Na escuridão atípica das seis horas daquela tarde, a fumaça do cigarro ajudava a dissipar o espírito de Otávio.
