Mildred gosta de Beatles. Gosta das letras. Mesmo das mais tolas, tipo She Loves You – que Mildred acha “bonitinha”. As mais elaboradas, Mildred, não entende muito bem quando em Lucy In The Sky with Diamonds, John escreve: “Cellophane flowers of yellow and green. Towering over your head. Look for the girl with the sun in her eyes. And she’s gone” – “Parece coisa de gente doida!”, ela diz pra si, enquanto prova o sal da sua carne ensopada. Mildred até gosta mais do John do que do Paul. Mas de quem ela gosta mesmo é do George. O jeito dele zen conversa bem com o jeito de ser dela. Ela não é muito de falar, gosta mais de pensar, de olhar o jeito das pessoas “sempre de longe, né?!” Mildred gosta de escrever cartas pra ninguém e de criar frases legais que parecem vindas de gente inteligente, das pessoas das revistas. Gente com cara de gente de fora do bairro dela, gente com seus óculos e paletós, com seus conjuntinhos cinza e cabelos duros de laquê. Elas escreve frases e sente-se grande. E Mildred é grande mesmo. Pesa uns quilinhos a mais dos quais Mildred tenta se livrar, mas o problema é que ela ama doces e isso dificulta um pouca sua relação com a balança. A balança sempre vence. Mildred gosta também de cozinhar e de provar sempre o sabor da sua comida “Pra não passar do ponto” – vai mapeando o sabor, como quem escreve um mapa do tesouro. Pensa sozinha na sua cozinha apertada, mas aconchegante. De panelinhas coloridas, com um cepo de facas com os cabos desgastados que ela ganhou do vizinho ao lado como forma de pagamento de umas costuras que fez, recuperando umas camisas e umas jaquetas que estavam na casa do sem jeito. Na cozinha de Mildred não há luxo, tudo muito antigo, como o fogão de duas bocas, mas que, segundo ela, “funcionam muito bem!”, do pequeno balcão de mármore e da pia que fica cheia com dois pratos, três talheres e uma panela e um copo. “Tem que ver essa torneira que fica pingando” Pensa, organizada. Mildred tem um gato chamado Leopoldo. Um gato pardo, que é novo mas tem cara de velho. Aliás, tem a cara insolente que os gotos têm. Uma cara alheia ao mundo. Mildred, que é só, cuida do gato como um filho, melhor que gente. Todo fim de tarde os dois encontram-se na sala para ouvir Beatles até a chegada da noite, Hey Jude, Yesterday, a linda Dear Prudence, e até uma mais raivosa como Helter Skelter. Mildred gosta de ouvir Beatles tomando vinho. O dinheiro que recebe dos trabalhos de costura que faz, não admite muitos abusos, mas desse pequeno prazer ela não abre mão. Então ela sempre que pode escolhe no mercado os vinhos mais baratos ou em promoção. Gosta de vinho branco, então escolhe uma garrafa – “mais em conta”, semana sim, semana não. Mas ela sabe quais são os bons vinhos do mundo, ela recorta as fotos das garrafas e guarda todas as fotos numa pasta de guardar documentos de capa azul real, com aquelas bolsas de plástico. Dentro ela coloca todas as fotos recortadas das boas garrafas de Catena, de Petrus, de AlmaViva, de Pêra-manca para ficar olhando e imaginando o sabor, o perfume das uvas, imaginando a colheita das melhores safras. E enquanto faz isso, página a página, ela vai tomando seu vinho branco barato.
Mildred tem um sonho – conhecer a Islândia, mas por que a Islândia ela não sabe bem. Só sabe que gosta de querer ir para a Islândia – conhecer sua capital “Reykjavík” que ela, quando olha a foto de um postal, grudado na sua geladeira, enche o peito para pronunciar “Reiquijaviqui”. Mildred fala o nome da capital como quem conjura um mantra “Reiquijaviqui” – “A capital mais setentrional do mundo”, informação que ela viu numa reportagem que gostou e que gerou todo esse amor, o que para ela está bem satisfatório. Sabe também que a Islândia é um território insular – “São muitas ilhas, Leopoldo!. Vamos conhecer uma por uma!” diz para o gato novo com cara de velho. Enquanto o gato banha-se com a língua, indiferente.
Mildred já passou dos 40. Nunca teve irmãos e os pais já morreram. A mãe de Mildred morria de medo de morrer e deixar-la só. “Esse mundo não merece você, querida”. A mãe de Mildred sempre a superprotegeu. Porque sabia do coração inocente de sua pequena. E sabia que Mildred envelheceria com o coração de uma criança. Sabia que corações assim nascem em dias especiais, em meses de sol, em anos únicos onde todos os dias são mais azuis. Todas as noites, antes de dormir, Mildred lembra que sua mãe ia até seu quarto para olhar se ela estava bem. Olhava de mansinho, para não acordar-la. Mas Mildred não dormia antes desse ritual. E Mildred lembra como era bom sentir aquela presença. Aquele calor que vem das mães que amam seus filhos. A mãe de Mildred amava-a muito, mas era uma mulher só também. O pai de Mildred era pescador. E toda viagem era sempre um pouco mais longa do que a última. Numa delas ele demorou seis meses para voltar. Quando voltou, não parecia ser mais o pai de Mildred, estava distante, estava nas brumas de algum mar distante. O pai que ela lembrava havia ficado perdido por lá, salgando a eternidade. Mesmo quando voltava para casa, o pai de Mildred, esposo da mãe de Mildred, não ficava com elas. Não tinha saudade para curtir. Ficava no bar, próximo, contando suas façanhas de grande pescador. Contava feliz para uma plateia de mulheres sem rumo e de homens barbados e fedidos a peixe. A mãe de Mildred tinha que ir lá, levantá-lo do chão ou tirá-lo do balcão, com a cara azeda de baba e vômito. Certa noite, o pai de Mildred entrou no seu quarto e deixou uma trouxinha em cima do criado mudo. Mildred sentiu que era observada por ele. Sentia aquela energia culpada. Carregada de remorso. Do quase carinho que viria da mão calejada de pescador. Ouvia sua respiração, ali quietinha. Aquele fungado aflito, puxando a coriza para dentro das narinas. Ficou assim um pouquinho e saiu para pescar novamente. E todos os dias sua mãe abria a porta da casa, pontualmente na hora em que ele costumava retornar. O mar o levou de vez, e para Mildred só restou dele as três conchinhas na trouxinha de algodão cru.
Mesmo só, Mildred se vira bem. Sente-se miúda fora de casa. “Só saio quando é muito necessário!” pensava, decidida. E sai vestida num moletom rosa e uma calça creme larga que deixava-a mais gordinha, calçada com botas meio amareladas, meio desbotadas. MIldred fazia de tudo para não incomodar ninguém. De tudo para não ser notada. Antes de sair, passava a escova nos cabelos lisos como seda e com a ponta do indicador esfregava farelos de batom na boca – “batom é caro e meu dinheiro não suporta o preço da vaidade”. Mildred espalha bem os farelos na boca. Olha para o espelho sem tristeza. Olha para os seus olhos sem certeza. E esquece das mágoas que costumam atrasar sua saída. O seu destino eram sempre os mesmos: primeiro as entregas das roupas costuradas com uma precisão tão insolente que lhe rendeu boa clientela. Pregar botão, trocar zíperes de calças e bermudas, cerzir vestidos e camisas puídas, isso tudo era com ela. Mildred vai com um roteiro nas mãos. Faz todo o percurso a pé, e faz ao lado de Leopoldo que volta e meia some para se livrar da perseguição de cachorros vadios que teimam em correr atrás de gatos. Sem saber que os felinos possuem asas invisíveis que lhes garantem movimentos que os cães jamais realizarão. E apesar da cara de velho, Leopoldo era um gato novo. E muito ágil. Por isso Mildred não se preocupava muito “Ele vai se livrar e voltar pro meu lado” – Quando Leopoldo demorava em se desvencilhar, Mildred aguardava um pouco. Até ele aparecer como num passe de mágica ao seu lado. Após realizar todas as entregas, e receber pelo serviço – “Pagamento só a vista, por favor” – Mildred vai até o mercado da vizinhança que tem tudo que o pouco dinheiro dela podia comprar. Mildred não gosta de estragos e nem de desperdícios, então só compra o que vai realmente consumir. E compra feijão, arroz, trigo pro bolinho de chuva, açúcar, duas latinhas de carne em conserva, até porque carne fresca é só pro Natal. Mildred faz uma pequena economia para comprar um pedaço bonito de filé para comer no Natal. E até Leopoldo vive um dia de rei, de gato de madame. “Pronto, Leopoldo, seu presente de Natal”. Mildred termina suas compras na seção de bebidas, pega uma garrafa de vinho branco. E dessa vez a garrafa custou um pouquinho mais caro. “Não vou deixar nem uma gota, Leopoldo. Essa garrafa custou-me alguns botões a mais para costurar”
Mildred já pensou em se matar. Certa vez foi ler sobre o assunto. Até mesmo procurou ler artigos com uma visão mais espiritual do suicídio. Sentiu pavor dos relatos de pós-morte, de gente que voltou mas ficou inválida, porque o veneno não cumprira sua parte no acordo. Mildred impressionava-se mas não tinha com quem comentar, a não ser com seu gato, que não comentava nada, apenas observava-a com um ar de compaixão. Mildred imaginava toda a cena, detalhe a detalhe, de como seria, caso decidisse se matar: “Eu acordaria, escovaria meus dentes e meus cabelos, pois não quero ficar no chão despenteada! Então eu abraçaria o Leopoldo, carinhosamente. Ele confia em mim! E lhe daria, num pedaço de biscoito, dos que ele mais gosta com um pouco do veneno…” Mildred havia decidido que se fosse se matar seria com veneno, “mas sem dor de barriga e nem vômito, feio ficar toda vomitada no chão”. Talco de cachorro, Láudano, erva do diabo… todos venenos poderosos mas indolores. A dor seria só da despedida. Mildred nunca teve motivos para se apaixonar pela vida. Vida que levou seu pai sem despedidas, que lhe tirou a querida mãe por tristeza, vida que nunca lhe mostrou o amor de outra pessoa. Mas mesmo assim, Mildred sentia um prazer em estar viva, o cheiro acolhedor dos pequenos prazeres fazia com que Mildred se agarrasse a vida, pequenas coisas como o de recriar uma casa defeituosa numa camisa ou de finalizar sua panelada de carne cozida ou de atrasar o último gole na sua taça de vinho, ou de ouvir For no one na voz do Paul. “A vida nunca foi por mim e nem por ninguém”, concluía, dilacerada. Mildred havia dado uma chance para a vida ser melhor com ela, mas a vida não aproveitou.
A day in the life toca alto na sala. Mildred nunca ouvira Beatles tão alto. John descreve a morte de alguém, que havia estourado a cabeça num carro. E, poeta-arquiteto que era, descrevia seu desespero com a guerra e com buracos que encheriam o teatro da sua cidade. Algo assim, mais uma letra difícil de entender, “bem particular” avaliava, solitária.
E Paul entrava com um piano rock and roll, meio saloom do velho oeste, meio que chegando na música como um repórter que interromper a programação normal, para comunicar o fim do mundo. E o Ringo desconstruindo tudo na bateria, e, por fim George desenhando acordes únicos em sua guitarra. “Sim! Era uma música única do vasto universo musical dos Beatles”. Mais um dia terminava na vida de Mildred, seu prato de ensopado de carne estava pronto, fumaçando na sua mesa com uma cadeira. Naquela tarde ela chegou na sala ao mesmo tempo em que Leopoldo deitava no tapete indiano, com uma mandala opaca e desgastada. Mildred pela primeira vez resolveu fazer algo incomum, após encher sua taça de vinho um pouco mais caro: abriu as janelas e a porta de sua casa. Sentiu a brisa no seu rosto, que brincou com seus cabelos de seda, que vinha de algum lugar distante. Mildred sentou-se na sua poltrona com sua taça, lembrou de sua mãe, e como ela fazia, também esperou. Quem sabe o mar não traria algo antes da noite mais profunda chegar?
