por Américo Paim
Fevereiro. Salvador fervendo, de calor e gente. O jovem e discreto Engº Arnoldo chegara cedo ao escritório. Ele e aquele espaço encaixavam em harmonia. Organizado e metódico, o andamento daquele projeto, que seguia com atraso, o incomodava. Cálculos e textos a revisar para a apresentação aos diretores. Mergulhado em números, o telefone tocou. Com cara de surpresa, atendeu.
– Dona Julia, falei que era sem interrupções!
– Eu sei, Dr. Arnoldo, mas, já a quarta ligação dessa pessoa. Pode ser importante. Não quis se identificar, mas precisa muito falar com o senhor. Disse que é seu amigo.
– OK, passa.
– Porra, “bode”, até que enfim, cara! “Qual é a de mermo”? Tudo beleza?
– “Sariga”? Velho, não acredito! Quanto tempo! Onde anda, cara?
– Tô aqui na terrinha. Cheguei ontem para o “Carná”! Seu celular só dava caixa, arrisquei o fixo que eu tinha na agenda. Ainda na mesma empresa! Fazendo o que aí?
– Ué, trabalhando!
– Qual é, véi? “Já é Carnaval, cidade”! Bora tomar uma!
– Tá maluco? O Carnaval é semana que vem e eu tô atolado em um projeto aqui.
– Me engana que eu gosto com essa história de projeto.
– É sério. Vamos sair hoje de noite. Você pode?
Arnaldo voltou ao passado após o telefonema, lembrando dos Carnavais que ele e “sariga”, quer dizer, Carlos, passaram juntos. Foram os mais loucos, com certeza! Não se viam há uns três anos. Trocavam mensagens aqui e ali. Ele morava no interior de São Paulo e fazia tempo que não aparecia na cidade, desde a morte de seu pai. Empresário do ramo de ferramentas manuais, Carlos era só diversão, sempre pronto para a festa. Tudo com ele parecia fácil e resolvido. Eles formavam uma dupla peculiar nos tempos de colegas estudantes. Arnoldo, o alto e atlético, cabeludo com um ralo cavanhaque e Carlos baixinho e sorridente, um pouco acima do peso, com aquela “cara de rato”. O “bode” e o “sariga”.
No bar lotado, cervejas, conversas e risadas depois, Carlos foi ao ponto que queria:
– Cara, lembra da Luiza?
– Hum, quem mesmo?
– “Qualé, bode”. Você sabe, sim. O passeio de escuna da Ilha de Maré. Tem uns cinco anos, com a turma da faculdade. Foram umas meninas, com outras amigas. Uma delas era a Lu. Você ficou todo ligado na dela, mas deu em nada. Ela foi com aquela baixinha que ficou comigo.
– Lembrei agora. Conversa muita. Ela tinha um rolo com um cara e não queria ficar com ninguém. Acabei mal. Ela era linda!
– Era, não! Tá ainda mais!
– Vocês se encontraram?
– Rapaz, eu fui dar uma palestra em um hotel e, no fim, ela veio me cumprimentar, com uma amiga. Duas maravilhas esculturais ali na minha frente! Não reconheci, mas ela me ajudou, com a história da escuna. A conversa foi rápida. Ela e Fernanda, a amiga, iam para o aeroporto de Cumbica, voar para Salvador! Velho, vieram só para o Carnaval! É a nossa chance! Cara, ela lembra de você!
– Véi, sério? Aquela gata? Só que… Pô, logo agora… Tem a Vera. Não vai dar.
– Vera?
– A gente tá saindo e combinamos de passar o Carnaval. Ela é massa. Bonita, inteligente, alto astral. Tá um lance legal entre ela e eu.
– Ei, é Carnaval! Vai perder essa? Elas vão para aquele camarote que você gosta, sozinhas, na quinta-feira! Sexta voltam pro Rio. Moram lá. É pegar ou largar! Você não consegue ingresso com aquela sua amiga, Roberta, Renata, um nome assim? A que é produtora!
– Roberta – interrompeu, aflito. Faz muito tempo que falei com ela. Vamos ver.
Voltou ao seu apartamento e ainda processava a conversa, mas os “diabinhos” sussurravam: “Luiza”. Banho frio e cama. No dia seguinte iria ver as possibilidades. E a Vera? Mexer em time que está ganhando? Mas, era a Luiza. Ninguém soube, mas ele investira mais tempo, além da escuna. Doido por ela, fez de tudo. Até ouviu suas desilusões por causa de outro, na esperança de reverter o jogo, mas, não rolou e ela foi embora da cidade. Agora, isso. Para tudo parecer normal, tratou logo de contar à Vera sobre seu amigo Carlos estar na cidade. Comentário assim aleatório, coisa de conversa corriqueira.
No dia seguinte, o escritório parecia pequeno, opressor. Sem concentração, arriscou e ligou para a tal Roberta, em busca do que lhe parecia impossível a apenas uma semana da festa: dois ingressos para o camarote. Enrolou, floreou, foi ao ponto e “deu água”. Nenhum ingresso – “muito em cima da hora, Arnoldo; estamos com tudo vendido, ainda bem. Se mudar alguma coisa, lhe aviso”. Ele lhe deu o número do escritório – queria o celular fora daquilo.
O tempo passando e Arnoldo não mais pensava mais se faria, mas, como. No fim daria tudo certo, acreditava. Vera, ainda sem perceber mudanças em seu comportamento, seguia fazendo planos. Ele, sempre “cheio de trabalho para se liberar no Carnaval”, adiava conversas com a moça.
Na terça-feira, a dois dias da festa, com Carlos “no seu pé”, recebeu a melhor notícia, em mensagem de Roberta, cedo:
– Oi, Arnoldo, tudo bem? Consegui os dois ingressos. Muita sorte. Houve desistências. O valor você já sabe. Peço que pague já, porque a procura está absurda e não garanto segurar.
– Certo. Como faço para pegar os ingressos?
– Isso aqui está uma loucura. Vou trabalhar até tarde, amanhã tenho um “bate e volta” a Maceió e só volto no fim da tarde. Tenho um jantar com umas amigas à noite, então, só poderei lhe entregar na quinta mesmo, mas, é tranquilo.
Sem escolha, concordou. Pagou e contou a boa nova ao amigo, que logo quis sair para comemorar. Arnoldo freou. Ainda faltava Vera. Com tudo certo, lhe avisaria. Marcou almoço com ela para dali a poucas horas. Vera não estranhou. Já acontecera antes. Muitos termos técnicos e clichês empresariais depois, explicou-lhe porque cancelara a programação de quinta-feira e caprichou nas caras e bocas, para mostrar-se frustrado. Poderiam se ver na sexta-feira e ela “estava liberada” por ele (!) para fazer o que quisesse na quinta: “esse sacrifício todo é para estarmos juntos na sexta”. Ela, que no começo da conversa ficou “muito retada”, o consolou, sensibilizada com a situação. Despediram-se com juras de amor. Voltariam a falar no dia seguinte. Contou tudo a Carlos, e este, muito animado, projetou a quinta-feira com requintes. Precavido, Arnoldo implorou ao afoito Carlos que não comentasse com ninguém, nem com as meninas.
À noite, mal conseguiu dormir, mas tudo parecia sob controle. Só faltava pegar os ingressos e “correr para o abraço”. Chegou ao escritório pela manhã e era só confiança. Acelerou o trampo para encontrar Carlos mais tarde. Estaria livre. Vera tinha compromisso já agendado para a noite de quarta-feira. Ela até tentou mudar para estarem juntos, mas ele, bandido, driblou de novo e usou o trabalho para que ela ficasse despreocupada, pois ele estaria bem. Arnoldo, com todas as mentiras, sentia-se mal no papel de um estrategista do crime, mas, ao falar com Carlos, que era só alegria, relaxou, e marcaram no seu apartamento. Não queria ser visto. Combinaram tudo e comemoraram, a poucas horas de “se darem muito bem”.
Tudo mudou a partir da manhã de quinta.
Após duas reuniões rápidas, não aguentou mais e ligou para Roberta. Outra pessoa atendeu e o informou que só poderia falar com ela no meio da tarde: “Está em reunião e vai demorar”. Preocupado, pensou em ir até a produtora e pegar os ingressos, mas, sua agenda de trabalho e a chance de algo não dar certo no seu plano, o paralisaram. Por volta de quatro da tarde, o telefonema.
– Oi, Arnoldo, tudo bem? – a voz de Roberta, muito amável.
– Caramba, menina! Estava agoniado. Qual foi? E meus ingressos?
– Calma, rapaz. Está tudo certo com os ingressos.
– Ufa! Como faço para pegar?
– Pois é, estamos com muita sorte!
– Como assim?
– Lembra que lhe disse que tinha um jantar com umas amigas ontem à noite? Menino, esse mundo é muito pequeno! Não sabia que você e Verinha estavam juntos! Que massa! Ela é minha amiga do meu tempo no Rio Vermelho ainda. Fazia um tempinho que não nos víamos! Uma amiga a levou ao jantar. Foi ótimo! Conversa vai, conversa vem, descobri que vocês estavam juntos. Aí, para facilitar para nós, resolvi deixar os ingressos com ela. Só estranhou quando eu disse que me pedira dois ingressos masculinos, mas, me contou que você andava muito cheio de trabalho e deve ter se confundido. Explicou que você não poderia ir e, graças a um golpe de sorte, consegui mudar para dois femininos. Ela vai com uma amiga. Arnoldo? Alô? Alô?
A quinta de Carnaval de Arnoldo e Carlos foi no apartamento mesmo. A derrota foi grande. Não dava pra sair. “Bode” e “sariga” beberiam a noite toda, mas o bicho que deu na cabeça naquela noite foi a zebra. Ainda viria, pelo WhatsApp, o golpe de misericórdia, em mensagem de Vera: “Bom trabalho, meu querido, e até nunca mais”. Na foto, com sorrisos largos, Vera, Roberta e duas amigas dela, de fora da cidade, Luiza e Fernanda.
