“Look, the guy is pissing in the others head!”
No carnaval de 2019 fazia um calor desgraçado. “An oven!”, dizia Nick. Carolina olhava o suor escorrer por entre os peitos e limpava a linha d’água com o dedo indicador. O clima não foi nem um pouco problema para o dinamarquês que viria pela terceira vez ao país, mas a primeira em fevereiro. Aquele calor já prenunciava que o carnaval daquele ano – ou de qualquer outro até ali – seria melhor do que o do ano seguinte, seja em Salvador, Recife, Rio de Janeiro e até mesmo em São Paulo, já que em 2020 a cidade ficou debaixo de chuva e vento por sabe-se lá quantos dias. Nick era um quase-coroa de tipo moderno, que frequenta a cena techno da Europa e é aficionado por música brasileira da época da bossa nova pra trás. Típico. No dia de sua estreia em carnavais abaixo da linha do Equador, o que pra azar dele foi em São Paulo, o que pra sorte foi antes de 2020, Carolina desenhou esse seu gosto musical no circuito que escolheu apresentar ao amigo. Circuito bem sucedido no bloco que toca o repertório de Maria Bethania sobre um trio elétrico, que naquele ano ainda não estava ocupado por cantores hipsters conceituais desafinados e sem flow; bola fora em ir parar na rua abarrotada em frente a D-EDGE com um terço das POC da cidade loucas de Calvin Klein – mistura de cocaína com ketamina, que é um anestésico, caso o leitor não esteja iniciado na linguagem.
Depois de 19 horas de viagem até São Paulo, contando uma escala em Paris, Nick deixou a mochila compacta que trouxe na casa de Carolina, que não tinha exatamente um quarto ou uma cama para ele, mas o convidou para se hospedar lá assim mesmo, de propósito. Ele deve ter entendido, apesar do espaço amplo da casa que poderia ter diversos colchões estendidos no chão para as noites de carnaval. Carolina mostrou a casa, disse que ele ficasse a vontade. Ele tirou os presentes de viagem e deu a ela. Dois vinhos. Ela guardou e disse: vamos beber num momento especial. Depois tomaram café e foram para o centro da cidade. Desceram na Praça da República em busca da música e alguma cara conhecida, apesar de que isso seria sorte e um grande tanto faz. Ao caminharem, Carolina parou e apontou o dedo para uma placa de rua. Tentou explicar que queria tirar uma foto dele na esquina em que as placas “Av. São Joao” e “Av. Ipiranga” dividiam o mesmo poste. Se encarregaria de fazê-lo entender a foto em casa, bem como que a música brasileira pós-bossa nova já dura mais de meio século. A foto ficou no Iphone que ela perdeu seis meses depois, encontrou pelo Find My Iphone na feira do rolo da Praça da Sé, mas que a polícia alegou não poder resgatar. São tantos suspeitos ali que a polícia não teria material humano para agir, disseram na Guarda Municipal. “O GPS não é exato, e se estiver no prédio de 10 andares ocupado pelos sem-teto? Vou subir nos 10?”. Mas o celular durou o carnaval inteiro e além, pelo menos essa bobeira Carolina não dá, nasceu aqui.
Antes de seguir por mais uma esquina em busca da música, ela puxou Nick para dentro de um bar, pediu uma cerveja de 600ml que distribuiu em dois copos de plástico grandes e falou: “Cheers! Now it’s us”, dando a entender que começariam a beber e não parariam mais dali em diante. Começaram a escutar as batidas. Um grave estourado, uma percussão que não era de samba, nem de escola de samba, nem de outro ritmo mais ou menos conhecido e os versos acelerados “chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder e explicar”. Carolina pegou na mão de Nick por impulso, conferiu se ele havia guardado tudo na doleira, e o puxou pro lado da rua em que o sol batia e as cabeças verdes de medusa e ramos de maconha dançavam com collants de cores aleatórias. Até aquele carnaval, as tiaras gigantes com pontas agudas ainda não estavam tão na moda, outro motivo pro carnaval ter sido melhor que o do ano seguinte. Se beijaram em menos de 15 minutos de bloco. Ele ficou com o batom vermelho dela na boca; e ela com o brilho dourado sem propósito da cara dele na bochecha dela. Ele era gringo, só precisava de glitter para estar fantasiado. E a cada música que Carolina dançava aos berros, Nick se empolgava, sem saber nenhuma letra.
Encontraram os amigos de Carolina, William e João. Ninguém sabia falar inglês direito, mas todo mundo conversou, bebeu, trocou cigarros, provaram as salivas uns dos outros enfiando o dedo no saco de MD. A gripe de ressaca da próxima quinta-feira não tinha nome naquele ano. Depois de três horas dançando pelas ruas esburacadas do Anhangabaú e do miolo da sete de abril com calçamento faltando muitas pedras, avistaram o que era um oásis para Nick. Um restaurante. Ele não estava acostumado a ficar tantas horas no sol, bebendo cerveja brasileira rala e sem comer. Entraram no Churrasquetto, que mesmo em plena luz do dia mantém todos as arandelas com lâmpadas brancas de led que saem para fora da armação acesas. “Enlouquecedor”, diria Carolina se não estivesse tão bêbada, faminta e beijoqueira. Chamou o garçom e pediu o galeto com polenta e agrião, mesmo se Nick quisesse a carne que estava vendo na churrasqueira emplacada entre as paredes de madeira. “Carne entra no meu dente e vou ficar com dor de cabeça porque não trouxe fio dental”, pensou em dizer a Nick, mas não conseguia verter a frase para o inglês e então só disse “Chef’s dish”.
Depois de comer o dia não tem mais tanta graça. O álcool baixa e a barriga pesa. Seguiram para a Avenida Pacaembu, por insistência de William, e encontraram a D-EDGE. Não fosse o clima de rua, Carolina teria traduzido para Nick o verso “festa estranha com gente esquisita”. O fim do primeiro dia de carnaval começava a baixar e só restava caminhar até algum bar mais próximo, depois se guardar para o dia seguinte.
Apesar da beijação do dia, a noite não trouxe emoções. Ambos ficaram envergonhados de se atracarem na cama depois de tanto suor, cecê, chulé, bafo de cerveja, alho, gordura de galeto e as aftas na língua por causa do MD não diluído. Dormiram. Abraçados. Mas dormiram.
No dia seguinte se encheram de glitter. Carolina vermelho. Nick dourado. Se se beijassem com muita vontade viravam uma mulher maravilha derretida. O que fatalmente iria acontecer naquele calor. Andaram por uma Santa Cecília entupida. Os amigos que Carolina poderia encontrar hoje seriam outros. Mas tanto fazia. Nick começou com uma caipirinha. Carolina, com uma cerveja. Encontrou um jambu miniatura e disse que Nick precisava sentir aquilo em sua língua. Se beijavam com as línguas dormentes quando um cachorro passou pelo meio das pernas de Nick. Era um salsichinha com adesivo de brilho pregado na testa correndo assustado. Nick quis tirar foto. Queria tirar foto de tudo, aliás. O pavor do cachorro era porque uma multidão vinha, cantando frases indecifráveis. Nick perguntou se era música. Carolina disse que sim, mas que em São Paulo, no carnaval, soava daquele jeito, meio fora de ritmo. Ela disse para que ficassem parados, fincados, que a multidão desviasse deles e que a banda chegasse, aí o dia iria melhorar e o carnaval, de fato, começar. E assim foi. Seguiram a fanfarra espremidos, absorvendo todos os suores possíveis. Nick começava a ficar com a testa vermelha, mesmo que feliz, mas só havia espaço para respirar ali. Carolina viu que, se não resgatasse o gringo, ele passaria mal. Segurou sua mão e arrancou pra frente da rua, furando a multidão. Nick se divertia com qualquer coisa. Foi então que Carolina proprôs: tem um outro bloco, como o de ontem, elétrico e com uma cantora que gosto muito. Mas é, digamos, um pouco mais alternativo. Tentou explicar isso em seu inglês tosco. Sim, claro, Nick sempre topava.
Seguiram rumo ao centro, para a Libero Badaró. Mendigos, catadores, crianças de rua e lixo aumentavam em ritmo exponencial a cada esquina. “Don’t worry”, dizia Carolina. No caminho Nick tentava saber que tipo de música iriam escutar agora. Carolina se engasgava, “eletrônica, mas diferente da de ontem”, frisou de novo. E pensava como diabos ia explicar a mistura de eletrônico, com funk e letras sobre sexo não normativo e engajamento para Nick. “Será como que se traduz Necomancia?”
Chegaram ao trio. Nick logo percebeu a mudança de ambiente. “Looks like Berlin parties”. Eram strappons de diversos modelos, rabos postiços, diabos só com os chifres e nada mais no corpo todo, a não ser uma mínima pochete. Pela primeira vez Nick viu o preto dominar como cor de fantasia ou maquiagem durante o “carnaval de brazil”. Mas estava gostando. Carolina requebrava sobre latinhas amaçadas. Foi quando viu que duas pessoas estavam dançando em cima do ponto de ônibus. Ela mostrou a Nick e disse: “Carnival”. E foi dar um selinho nele quando ele, olhando o topo do ponto de ônibus, desviou do beijo e apontou: “look, look, the guy is pissing on the others head!”. Levou as mãos na boca, rindo e se inclinando para trás, como que incrédulo e repetia: Oh, my god! E ria mais. “I love it”. E juntava os lábios e estalava, querendo dizer como nunca havia visto nada tão divertido quanto São Paulo. Nem na Berghain.
Nick ficou tão empolgado com a cena que Carolina achou que aquela noite seria de sexo selvagem. Depois de uma primeira noite só de chamego, esperava que seu quarto virasse um “real oven” depois do bloco. Chamou-o pra casa, já tinham visto e vivido bastante naquele dia. Comprou mais bebidas e preparou o “home bar” para depois do banho. Beberam mais duas caipirinhas cada, intercalando com cerveja. Carolina chamou Nick para a cama. Começaram a se beijar e ela não sentia nada, digamos, crescendo ali. Arrancou o short de Nick e viu que não era tão mal quanto ela pensava. Começaram a transar sem muita prévia, Carolina agarrava os ombros largos de Nick sobre ela, seu peito liso e dividido, quando ia descendo as mãos para os braços, Nick soltou um gemido mais intenso. Três minutos. Três minutos de sexo e Nick já tinha gozado. Ainda faltavam mais três dias até a quarta-feira de cinzas. Ele hospedado no quarto dela. Mas os beijos eram bons. A língua sabia trabalhar. Carolina pegou a cabeça de Nick e em português mesmo disse: desce.
