
Por Eduardo Muylaert
Joaquim Fernandes da Silva era um rapaz tímido, não fazia sucesso com as mulheres, também não era bonito nem feio, talvez um pouco sem graça.
Sua desforra vinha nos bailes de carnaval, enchia a lata e desandava a falar besteiras que nem os amigos mais chegados aguentavam, saiam para os cordões só para fugir daquele bestialógico machista, olha a bunda daquela ali, ih, apareceu a calcinha, agora o peito vai sair para fora, e tal e coisa.
Na verdade, tudo isso era um pretexto, ele queria fazer sucesso e não sabia como, sonhava em ter uma namorada, nem precisava ser muito bonita, só tinha que ter boas pernas. Sim, acreditem, essa era a única exigência de Joaquim Fernandes da Silva.
Todo ano sua esperança se renovava, largava o paletó meia boca que usava na repartição, tomava um banho caprichado, metia uma camiseta amarela, tomava um cinzano, e lá se ia para o clube, cheio de expectativas. Quem sabe dessa vez vai.
Seu coração disparava aos primeiros acordes da bandinha, que precediam a tradicional mamãe eu quero. Trombones, pistons, tambores, adrenalina pura. Nesse ano as coisas foram diferentes, os amigos até estranharam, no fim eles achavam graça naquela figura bizarra, semiembriagada, a dizer asneiras como se estivesse no recreio do primeiro ano do colégio, quando ainda não tinha chegado perto de nenhuma mulher que não fosse sua tia ou sua avó, pois as primas eram bem protegidas, sabe como é.
Logo na primeira meia-hora, antes que tivesse entornado a primeira caipirinha, ficou vidrado numa morena não muito grande, nem chegou a reparar no rosto, tão distraído estava com aquelas pernas elásticas, de um tom que achou incrível e que depois, em casa, mais tarde, pensativo e sonhador, tentou definir como uma mistura delicada de sépia, rosa, uma pitada de marrom clarinho e um pouco de ouro velho, embora não tivesse com quem compartilhar a descoberta, ou invenção, como quiserem.
No dia seguinte, graças ao talento de investigador que os acanhados desenvolvem, arma de sobrevivência, descobriu que ela se chamava Rosa, era uns dois anos mais moça do que ele, estudava no mesmo colégio e, o mais óbvio, era sócia do mesmo clube.
Tentou chegar perto, mas na mesa dela havia um cavalheiro sisudo, devia ser o pai, não dançava e não sorria, uma senhora de bochechas largas, podia ser a mãe, queria dançar mas não se atrevia, e ainda um rapazote que, com certeza, não era namorado nem nada, talvez o irmão menor, pela desatenção com que ela o contemplava.
O máximo que conseguiu, naquela segunda noite de folia, foi sentar-se perto, insinuou-se numa mesa de conhecidos como se fosse um gesto natural na sua espécie, tudo para olhar por baixo da mesa da garota, e confirmar se as pernas eram mesmo tudo que sonhara.
A confirmação o deixou perplexo, achou que tudo podia não passar de fantasia de carnaval, que tal perfeição não existia nem nas pinturas da renascença italiana, ou mesmo holandesa. Em vez de se alegrar, aumentou a angústia, aquele par de pernas tinha que ser seu, precisava de um estratagema para conquistá-lo.
Na terceira noite de baile, a última, entrou afinal na roda, ao som de linda morena, morena, morena que me faz penar, a lua cheia, que tanto brilha, não brilha tanto quanto o teu olhar, ah, só o velho Lamartine Babo para exprimir tais delicadezas no clima delirante do salão, entre suores, piscadelas, empurrões, brigas e que tais.
Ele tentava encaixar morena tem pena, sem atinar que aí era Pixinguinha, não tinha nada a ver. Engatou um João Gilberto, sorriu pra mim não disse nada porém, e ela tinha mesmo um sorriso, como que achando graça no interesse daquele pirralho comprido e cheio de espinhas, desajeitado como foca de aquário.
Ficou por aí, foi só no carnaval seguinte que um saiu à procura do outro, como quem não quer nada, e na terceira noite rolou um beijo discreto no canto da boca, e no próximo estavam namorando, e aí veio o noivado, e depois os dois filhos, um casal lindo, todo mundo achava que formavam o par perfeito.
Nessa altura da vida, como costuma acontecer, entrou na vida do casal um novo personagem, mais precisamente o personal. Joaquim Fernandes da Silva trabalhava muito, não é fácil sustentar uma família hoje em dia, desenvolveu uma barriguinha e andava muito cansado. A esposa o convenceu de que deviam cuidar do corpo, não podiam envelhecer flácidos, ainda eram jovens, afinal, hoje as pessoas vivem muito mais tempo.
Então, como era de se esperar, desencadeou-se a tragédia, tal qual escrita pelos deuses, não os do olimpo, aqueles, mas os da vida chamada moderna. Rosa, agora também Fernandes da Silva, era uma mulher bonita, no chamado esplendor da maturidade. O personal não podia deixar de notar, e fazia toda espécie de mesuras para agradá-la, e também não elogiava muito os avanços que fazia Joaquim Fernandes da Silva, que se esfalfava no afã de atirar a atenção da mulher.
E assim passavam os dias, e ele desesperado, como diz o bolero. Começou a cismar que ali tinha coisa. O cara era jovem, bem apessoado, como se costuma dizer, e forte, musculoso, coisa que agrada muito ao sexo feminino, o que não deixa de ser uma injustiça, pois quem está ao lado da esposa por anos a fio, aguenta os filhos, trabalha para valer, sustenta a casa, visita a sogra, saco, é que deveria ter a primazia.
Mas não é assim que as coisas acontecem. Para evitar os ciúmes, Rosa achou um horário só para ela no fitness do clube, o mesmo onde o namoro começara, alguns bons anos atrás. Chegava em casa de cabelo molhado, e sempre explicava carinhosamente ao cônjuge que tomara banho no ginásio para não chegar suada em casa. Joaquim Fernandes da Silva subia pelas paredes, mas, humilhado, não falava nada. Começou, porém, a tratar mal a mulher, primeiro sumiram as costumeiras delicadezas, depois vieram as piadas grosseiras, por fim a franca agressividade.
O auge aconteceu quando Rosa anunciou que pretendia descansar por uns dias na casa de uma prima, no Rio de Janeiro, queria aproveitar o período de carnaval para relaxar. Na verdade, ela sentia o estresse do marido, e achou que uma pausa podia por as coisas no lugar. Um Joaquim Fernandes da Silva apoplético quase teve um infarto, passou mal e, turrão, disse então vá, talvez seja melhor mesmo. Mas no fundo sabia que ali seu casamento começava a terminar.
Foram dias de angústia e ódio para ele. Pensou em ir bailar por sua conta, conquistar alguma mulher nova, mas se olhou no espelho e viu que estava bem fora de forma. Tentou a literatura, Machado de Assis, e num instante concluiu que Capitu era uma puta mesmo. Para se vingar, ligou a tevê para tentar flagrar alguma sacanagem nos bailes da madrugada.
Aí veio o susto. Passavam o baile do Copa, o mais luxuoso do Rio, uma esbórnia que reúne a fauna carioca, os socialites, os enxeridos de toda parte, os atores, as atrizes, figurinistas, aproveitadores, políticos e os sabe lá mais quem, tudo gente que não presta, e aí ele imaginou reconhecer, num cantinho da tela, um par de pernas, sob um véu transparente, que deixava à mostra o umbigo e uma calcinha violeta. Sim, com certeza ele conhecia aquelas pernas.
A figura mascarada, esguia, sob o véu e de calcinha violeta, lhe pareceu muito familiar. Dançava de modo escandaloso, abraçada, se esfregava mesmo, num pirata musculoso. Sim, agora não tinha mais dúvida, a odalisca sensual era, nada mais, nada menos, do que o maldito personal. E o casamento de Joaquim Fernandes da Silva indo pelos ares, como um volátil jato de lança-perfume.
